A direita não tem nem vices. A natureza do jogo: Caiado, Zema e Santos
Radar Olhar Aguçado·(há cerca de 1 hora)
Ao acompanhar o discurso de candidatos outros de direita, ou de extrema direita — já que, dadas as falas, parece-me não haver liberais-conservadores na peleja —, fica-se com a impressão de que o pobre eleitor está a ser conduzido nas ruas por pessoas más, que pertencem à “perversa polarização”.
Haveria nas supostas vítimas uma vontade louca, quase incontrolável, de votar numa alternativa a Lula (PT) e a Flávio Bolsonaro (PL), mas algum “Ente de Razão” se imporia, obrigando-as, como gosta de dizer Ronaldo Caiado (PSD), a escolher entre os “rejeitados”.
Boa parte da imprensa cai nessa. Foi sequestrada pela tese da “polarização”. Até aí, analistas são livres para se abraçar a seus equívocos. O diabo é deixar de enxergar algumas ocorrências que pedem explicação.
Vamos ver. Nomes alternativos existem. Mas por que seu desempenho no primeiro turno é bisonho? O que leva o próprio Caiado a empatar com Renan Santos (Missão) — quando este não está na frente — ou Romeu Zema a disputar a lanterna com Cabo Daciolo? E aqui não vai menoscabo a ninguém. O MBL já tem década, mas o Missão é um partido recém-criado, e seu candidato não governou Minas — segundo maior eleitorado do pais — ou Goiás, com seu agro vigoroso.
Do que tenho lido ou ouvido sobre as falas de Santos, ele ousa ao menos chutar o traseiro do bolsonarismo, ainda que o faça pela direita. Posso considerar a substância, às vezes, até pior do que aquilo que engrola Flávio. É muito provável que, a sério, o candidato do Missão não creia que possa chegar ao Segundo Turno. Faz, no entanto, o que Zema nunca fez e o que Caiado resolveu operar tardiamente: uma disputa no campo da própria direita ou da extrema direita.
ERROS CRASSOS Os ex-governadores se lançaram na corrida presidencial tentando competir com Flávio no confronto com o Supremo — refiro-me à proposta inconstitucional de indulto a Bolsonaro e demais golpistas. O candidato do Novo escolheu, de saída, o tribunal como o seu principal adversário. Chegou a marcar quatro pontos em alguns levantamentos. Já está com dois ou até menos… Embora evitem a expressão “terceira via”, a verdade é que tal fantasma ainda assombra esses caras. Ocorre que são apenas a segunda, mas com complexo de “superioridade moral”.
Reitero: penso ser outra a estratégia de Santos, ainda que possa falar coisas, a meu juízo, até piores. No evento de lançamento da candidatura, seus partidários gritavam “Prendeu, matou!”, deixando claro que nem o tiranete Nayibi Bukele é o limite. Mas há uma estratégia.
Quanto aos nomes do PSD e do Novo, so falta que digam, ou nem falta: “Votem em mim; eu sou o verdadeiro nem-nem: nem Lula nem Flávio”. Lembro de novo: a expressão “candidato nem-nem“ é deste escriba, a partir de um texto do semiólogo francês Roland Barthes, que ironizava justamente os textos que buscavam, como norte, não ser nem uma coisa nem o seu oposto e, nessa fixação, acabavam por não ser nada.
DUPLA NEGAÇÃO E SÃO PAULO O cérebro dá sempre um nó quando se pede que a pessoa escolha, em vez de uma afirmação, uma dupla negação. Inexistem coleira ou canga que prendam o eleitorado. Talvez os bravos devessem ler a “Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios” (14:7-11):
“Da mesma sorte, se as coisas inanimadas que fazem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a flauta ou com a cítara? Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, também vós, se, com a língua, não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar. Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação. Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim.”
Pergunto: Caiado e Zema têm certeza de que, no confronto com Flávio, eles foram flauta ou cítara em contraste com o som produzido pelo filho do Falso Messias e Verdadeiro Bolsonaro? Não. Eles tentaram ser cítara quando Flávio era cítara e flauta quando era flauta.
Não havendo distinção, o eleitor de direita e extrema direita deve ter pensado algo que, se formulado logicamente, poderia se expressar assim: “Se tudo é igual, então fico com aquele que tem o ‘DOC’ (Denominação de Origem Controlada). E esse nome é Flávio”. A verdade é que a dupla não produziu nem mesmo uma degeneração original.
Os ex-governadores vão sair dessa disputa menores do que entraram. Os números que obtêm no segundo turno, como poderia apontar qualquer especialista, decorrem do antipetismo/antilulismo. E me digam uma democracia que, nesse particular sentido, não seja “polarizada”.
Renan e o Missão, para o bem e para o mal (e é preciso ver “bem” e “mal” de quem) sairá necessariamente maior: cutucou a ferida do bolsonarismo, como a dizer: “Posso ser muito mais direitista do que vocês, sem ter de pagar pau para essa aristocracia da ‘famiglia’”. Diz coisas que abomino sobre encarceramento e pena de morte, para ficar em dois exemplos. Mas entendeu um jogo que Zema e Caiado não entenderam, com seu reacionarismo cafona, que nem se ocupou, vamos dizer, de se “aggiornar”.
VICES
Querem um exemplo? Flávio conseguiu chegar à fase final das convenções sem aliado nenhum. O centrão caiu fora. Há múltiplas razões para isso (já escrevi a respeito), mas parte dos entraves deriva do fato de que ele é bom de voto — por causa do pai; votos que não são dele —, mas um articulador sofrível. Mais: continua a acenar com um plano de vingança contra o Supremo que traz o odor da crise institucional. A muitos parecerá estranho, mas não é: o centrão quer estabilidade, inclusive para que não se perturbe a cornucópia do emendismo.
A dificuldade não se limitou a Flávio: também Caiado não conseguiu parceiros para seu discurso nem-nem. Foi preciso apelar a Gilberto Kassab, analista sempre muito agudo da cena, mas que, desta feita, perdeu a leitura do jogo. Apostou que tudo se resolveria com Tarcísio. Tivesse lido meu texto de 5 de julho de 2025, ainda no UOL, e teria percebido que não. A partir daí, como escreveu o poeta (Drummond), sua “poesia perturbou-se”. Zema teve de se arranjar com Girão, o que julgo merecido para ambos, sem querer ser perverso.
CONTRUÇÃO DE DISCURSO E não. Este não é um texto preditivo sobre vitória e derrota. No futebol e na política, o pior pode vencer — e já venceu antes. Especialmente na era das redes e suas manifestações moralmente teratológicas. Estou apontando a camisa de força que condiciona a análise, com essa burrice sobre “polarização”, e como isso leva os postulantes a fazer bobagem. Alguma dúvida de que Santos vai bater muito em Lula? Já bate. Ocorre que, em matéria de construção de discurso, seu futuro e dos seus não está em “Nem Lula nem Flávio”. Trata-se de articular o “não a Flávio” porque é ele o entrave à governança “realmente de direita” que ele imagina.
Se eu pensasse como ele, tentaria fazer rigorosamente isso. Zema e Caiado buscaram não ser nem uma coisa nem outra e acabaram sendo um Flávio rebaixado — logo, tornaram-se coisa nenhuma porque o lugar do filho do falso Messias já está ocupado. E folgam no segundo turno com os votos que o próprio Lula lhes fornece pelo avesso. São, em suma, beneficiários inúteis da “polarização” que dizem combater.
Entenderam a natureza do jogo? Flávio pode ganhar? Com vazamentos industriados de inquéritos, até pode acontecer — e o desastre não seria pequeno. Não creio que vá aconter, mas não tenho bola cristal.
A sucessão no território dos “progressistas”, para o pós-Lula, começa a se desenhar. O que se disputa nesta eleição, além da Presidência, é quem vai hegemonizar a direita e a extrema direita. E, convenham, elas se parecem às vezes com o “Nosferatu”, de Murnau (1922), que tem como subtítulo “Uma Sinfonia de Horror”.
A julgar pelo olé que Flávio levou, é grande o número dos que pensam que está na hora de a “Aristocracia Bolsonaro” chegar ao fim. E isso não é nada fácil. Eduardo já tenta até ensaiar um discurso para a vitória na derrota…
Pensei também numa outra ilustsração, mais pia, mais paulina. O “Apóstolo dos Gentios” pergunta: “Será flauta ou cítara? Só não pode ser nem-nem”
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