Últimas

Olhe para o mapa (por Hubert Alquéres)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Olhe para o mapa (por Hubert Alquéres)

No momento em que Javier Milei volta a tensionar as relações entre Brasil e Argentina, convém recordar um episódio frequentemente atribuído ao general João Figueiredo. Durante a Guerra das Malvinas, ao ser questionado por um diplomata americano sobre a razão do Brasil demonstrar maior compreensão em relação à posição argentina, o então presidente teria caminhado até um mapa da América do Sul e respondido: “Olhe para o mapa. Veja com quem o Brasil tem mais de mil quilômetros de fronteira. A Inglaterra fica do outro lado do oceano; a Argentina continuará aqui amanhã, no ano que vem e daqui a cem anos.”

Mais do que uma frase de efeito, a resposta procurava demonstrar que a política externa brasileira não poderia ser guiada apenas pelas circunstâncias do momento, mas por interesses permanentes decorrentes da geografia. Documentos americanos hoje públicos mostram que o governo brasileiro advertiu Washington de que a estabilidade do Cone Sul era um interesse estratégico do Brasil. Por isso, recusou-se a isolar a Argentina durante o conflito e deixou claro que seria inaceitável uma extensão da guerra ao território continental argentino.

Essa lógica continua atual. Governos mudam; a geografia permanece. Independentemente de quem ocupe a Casa Rosada ou o Palácio do Planalto, Brasil e Argentina continuarão compartilhando uma extensa fronteira, uma profunda integração econômica e desafios comuns. É essa realidade que deve orientar a diplomacia brasileira, e não as provocações de ocasião.

O Brasil precisa evitar transformar a estratégia de confronto do presidente argentino em eixo permanente da relação bilateral. É razoável supor que Milei tem interesse político em manter elevada a temperatura do debate, ao menos até as eleições presidenciais brasileiras. Não convém ao Brasil participar desse jogo.

A experiência histórica mostra que os dois países já foram capazes de superar divergências muito mais profundas do que as atuais.

Nos anos 1970, Brasil e Argentina viveram uma das maiores crises diplomáticas de sua história em torno da construção da hidrelétrica de Itaipu. Buenos Aires temia que a barragem permitisse ao Brasil e ao Paraguai controlar o fluxo das águas da Bacia do Paraná, comprometendo tanto a navegação quanto o projeto argentino da usina de Corpus Christi. A preocupação extrapolava a engenharia. Tratava-se de uma disputa geopolítica sobre o equilíbrio de poder no Cone Sul.

Após anos de negociação, Brasil, Argentina e Paraguai chegaram ao Acordo Tripartite, que estabeleceu mecanismos de coordenação na operação das barragens e se tornou referência internacional para a gestão compartilhada de recursos hídricos.

Outra demonstração da capacidade de construir confiança mútua ocorreu na questão nuclear. Embora afirmassem desenvolver programas exclusivamente pacíficos, ambos países receavam que o vizinho viesse a dominar integralmente o ciclo do combustível nuclear e adquirisse, se assim decidisse, capacidade para produzir armas atômicas.

A inflexão começou em 1985, quando José Sarney e Raúl Alfonsín assinaram a Declaração de Iguaçu, marco do abandono da rivalidade estratégica. As visitas recíprocas dos dois presidentes às instalações nucleares brasileiras e argentinas consolidaram uma inédita relação de transparência e confiança.

Foi esse ambiente político que permitiu o nascimento do Mercosul. A integração não decorreu apenas das transformações da economia mundial ou da necessidade de ampliar mercados. Representou uma decisão estratégica de encerrar uma rivalidade secular entre as duas maiores potências da América do Sul.

A redemocratização de Brasil e Argentina criou as condições políticas para essa mudança. Sarney e Alfonsín compreenderam que a lógica da competição havia perdido sentido e que a cooperação fortaleceria ambos diante de um mundo cada vez mais integrado. Seus sucessores, Fernando Collor e Carlos Menem, aceleraram esse processo, superando resistências econômicas e receios históricos, tanto da indústria argentina quanto de setores que viam no Mercosul um possível instrumento da hegemonia brasileira.

Essa construção produziu resultados concretos. A Argentina consolidou-se como o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira, enquanto cadeias produtivas integradas passaram a conectar empresas dos dois lados da fronteira. Muito do patrimônio econômico e político acumulado ao longo de quatro décadas depende da preservação dessa relação estratégica.

É justamente por isso que recordar Itaipu, a cooperação nuclear e a construção do Mercosul não constitui um exercício de nostalgia. É um lembrete do que pode ser perdido caso divergências conjunturais substituam a visão estratégica.

Em um cenário internacional marcado por crescente instabilidade, rivalidades geopolíticas e tendências centrífugas, torna-se ainda mais importante preservar o sofisticado arranjo institucional construído no Cone Sul. Isso exige autocontenção de ambos os lados e respeito a um princípio elementar das relações internacionais: a não ingerência em assuntos internos. A observância desse princípio é uma rua de mão dupla. Ele é violado quando o presidente argentino intervém verbalmente na política brasileira, mas também quando a maior autoridade do Brasil extrapola esse limite em relação a outros países da região. Está aí a recente crise com o Paraguai a recomendar moderação ao nosso presidente.

É hora de voltar a olhar para o mapa da América do Sul.

Daqui a cem anos, Brasil e Argentina continuarão compartilhando fronteiras, interesses e desafios comuns. Os presidentes serão outros. Os governos também. Os interesses permanentes dos dois países, porém, continuarão exigindo diálogo, prudência e cooperação.

Governos passam. Os países permanecem.

—————————

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

Olhe para o mapa (por Hubert Alquéres) — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado