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Multipropriedade muda o mapa do turismo brasileiro

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Multipropriedade muda o mapa do turismo brasileiro

Todo destino turístico famoso um dia foi apenas um ponto no mapa.

Antes de Gramado se tornar referência nacional, antes de Olímpia atrair milhões de visitantes por ano e antes de Salinópolis amplamente conhecida com “Salinas” despontar como um dos principais polos turísticos do Norte, essas cidades eram conhecidas quase exclusivamente por quem morava na região.

Hoje, elas têm algo em comum além das atrações naturais ou culturais: todas cresceram impulsionadas pela multipropriedade, modelo imobiliário que permite que diferentes pessoas compartilhem a posse de um mesmo imóvel, utilizando-o em períodos determinados do ano.

Mais do que uma nova forma de adquirir uma casa de férias, o sistema vem se consolidando como uma ferramenta capaz de acelerar investimentos privados, ampliar a infraestrutura turística e colocar cidades pouco conhecidas na rota de viajantes de todo o país.

O movimento ganhou força especialmente após a regulamentação da multipropriedade pela Lei nº 13.777, sancionada em dezembro de 2018. Desde então, o setor deixou de ser um nicho restrito a poucos destinos tradicionais e passou a espalhar-se por praticamente todas as regiões brasileiras.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. O relatórioCenário do Desenvolvimento de Multipropriedades no Brasil 2026, elaborado pela Caio Calfat Real Estate Consulting, identificou 224 empreendimentos distribuídos por 99 cidades brasileiras, somando 44.027 unidades habitacionais e mais de 1,26 milhão de frações imobiliárias. Juntos, esses empreendimentos representam um Valor Geral de Vendas (VGV) potencial superior a R$ 100,5 bilhões.

A pesquisa é atualizada anualmente há uma década e acompanha a evolução do mercado desde os primeiros projetos lançados no país. Segundo o consultor e especialista em turismo imobiliário Caio Calfat, o crescimento mais intenso ocorreu justamente após a criação da lei.

A partir de 2018 o crescimento foi mais acentuado. A existência da lei trouxe segurança jurídica para investidores, incorporadoras e compradores.

Caio Calfat, fundador da Caio Calfat Real Estate Consulting

O dado mais revelador, porém, não está apenas no volume financeiro. Em 2020, havia 109 empreendimentos em 59 cidades brasileiras. Em 2026, o número chegou a 224 empreendimentos em 99 municípios, praticamente dobrando a presença do modelo no país em apenas seis anos.

Gráfico sobre multipropriedade

O mercado amadureceu

O estudo de 2026 mostra um setor menos acelerado em lançamentos, mas mais equilibrado em vendas. O percentual de frações ainda não comercializadas caiu de 58,9% para 52,5%, enquanto o valor efetivamente vendido avançou de R$ 26,7 bilhões para R$ 29,8 bilhões.

Para Caio Calfat, esse movimento indica maturidade. “É preferível um mercado com estoque menor e vendas mais consistentes do que muitos lançamentos sem absorção. O estoque alto é um sinal de alerta; quando ele diminui, os preços tendem a se manter mais estáveis.”

Essa mudança de comportamento também reflete uma seleção mais criteriosa dos projetos. O setor deixou de apostar apenas em grandes volumes e passou a buscar destinos com maior capacidade de atrair turistas ao longo de todo o ano.

E é justamente nesse ponto que surge o fenômeno mais interessante do mercado atual.

Destinos que ninguém conhecia

Segundo o levantamento, cerca de 30% dos municípios que recebem empreendimentos de multipropriedade ainda são pouco conhecidos nacionalmente.

São cidades próximas a rios, lagos, represas, cachoeiras e áreas naturais que começam a ganhar infraestrutura turística impulsionada pelos investimentos privados.

O que mais nos chama atenção é justamente essa capacidade da multipropriedade de descobrir novos destinos turísticos no Brasil.

Caio Calfat, fundador da Caio Calfat Real Estate Consulting

A lógica é diferente da de um hotel tradicional. Como parte da construção é financiada pela venda das frações imobiliárias, o empreendedor consegue viabilizar projetos em locais onde seria difícil obter financiamento convencional para um grande resort por exemplo.

Em outras palavras, a multipropriedade reduz o risco inicial e permite que o investimento chegue antes mesmo de o destino estar consolidado.

Foi exatamente o que ocorreu em Olímpia, no interior de São Paulo.

Há cerca de 15 anos, a cidade não figurava entre os principais destinos turísticos brasileiros. Hoje, reúne aproximadamente 8 mil apartamentos de multipropriedade, mais de 30 mil leitos entre hotéis e resorts, parques aquáticos, aeroporto internacional em implantação e milhares de empregos ligados ao turismo.

“Olímpia não era um destino turístico quando surgiu o primeiro grande parque. A multipropriedade ajudou a transformar uma cidade regional em uma potência do turismo nacional”, resume Calfat.

O caso que virou referência no Norte

Se Olímpia é o símbolo da transformação no Sudeste, Salinópolis, no litoral do Pará, tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da expansão para regiões fora do circuito tradicional.

A GAV Hotéis e Resorts começou a estudar o destino em 2012, quando a cidade ainda era conhecida principalmente pelo público regional. A decisão de investir veio após pesquisas de mercado e estudos de viabilidade.

“Já existia um desejo consolidado por uma segunda residência no destino. Quando cruzamos essas informações com pesquisas de comportamento do consumidor, percebemos que havia uma oportunidade muito grande”, conta Átila Gratão, vice-presidente e sócio-fundador da empresa.

Hoje, os empreendimentos de multipropriedade somam mais de 2,5 mil unidades, além de parque aquático e novos equipamentos turísticos. A GAV responde por 1.978 apartamentos de alto padrão, distribuídos entre quatro resorts.

O impacto econômico é visível. A arrecadação municipal de Salinópolis passou de R$ 82,5 milhões em 2018 para R$ 199,8 milhões em 2025, enquanto este ano o município já arrecadou mais de R$ 111 milhões só no primeiro semestre.

Gráfico sobre multipropriedade

Além disso, a operação dos empreendimentos gera mais de 1.200 empregos diretos.

A multipropriedade funciona como um acelerador do desenvolvimento turístico. Pela forma convencional, esse crescimento levaria muito mais tempo.

Átila Gratão, vice-presidente e sócio-fundador da GAV Hotéis e Resorts

A cidade, que antes tinha forte sazonalidade, passou a receber visitantes de forma mais constante ao longo do ano, graças ao sistema de semanas compartilhadas entre os proprietários das frações.

O efeito vai além dos hotéis

Quando um grande empreendimento chega, ele não traz apenas quartos.

Vêm junto restaurantes, lojas, serviços, atrações turísticas, valorização imobiliária e novas oportunidades de negócios. É um efeito em cadeia semelhante ao que ocorre quando uma rodovia conecta uma região isolada aos grandes centros econômicos.

Átila explica que o turismo se apoia em três pilares principais: hospitalidade, entretenimento e gastronomia.

A implantação de um grande resort costuma estimular a valorização imobiliária e criar oportunidades para novos empreendimentos, impulsionando restaurantes, comércio e serviços. Foi exatamente isso que acompanhamos em Salinópolis.

Átila Gratão, vice-presidente e sócio-fundador da GAV Hotéis e Resorts

A própria cidade passou a ser promovida nacionalmente pelos empreendimentos. A GAV abriu showrooms em shopping centers de capitais do Norte e transformou os compradores das frações em divulgadores espontâneos do destino.

“As famílias compravam uma fração e viajavam para conhecer o empreendimento. Ao chegarem, se encantavam com a cidade, sua cultura, gastronomia e infraestrutura. Passavam a retornar com frequência e indicar Salinópolis para amigos e familiares”, relata o executivo.

Esse ciclo de recomendação ajuda a explicar por que alguns destinos regionais conseguem ganhar visibilidade nacional em poucos anos.

Nordeste lidera a próxima onda de expansão

Se Caldas Novas, Gramado e Olímpia marcaram a primeira fase da multipropriedade no Brasil, o próximo ciclo deverá ocorrer principalmente no Nordeste.

O estudo da Caio Calfat Real Estate Consulting identifica a região como a que apresenta maior potencial de crescimento para novos empreendimentos nos próximos anos.

Estados como Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Maranhão já registram expansão do setor.

Ao mesmo tempo, especialistas observam oportunidades em destinos de serra, áreas de ecoturismo, regiões próximas a rios, represas e vinícolas, ampliando o mapa do turismo imobiliário brasileiro para além do litoral.

“O Brasil possui um potencial praticamente inesgotável. Temos praias, montanhas, rios, cachoeiras, turismo rural, enoturismo e uma enorme diversidade cultural. Ainda existe muito espaço para novos destinos surgirem”, avalia Calfat.