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"Amamentação não deve ser um processo doloroso", alerta obstetra

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
"Amamentação não deve ser um processo doloroso", alerta obstetra

A amamentação é uma das formas mais importantes de nutrir e proteger o bebê nos primeiros meses de vida. Apesar dos benefícios para a criança e para a mãe, o período costuma ser acompanhado por muitas dúvidas, principalmente entre mulheres que acabaram de ter o primeiro filho. Uma das mais frequentes é sobre a dor. Afinal, sentir desconforto ao amamentar é normal ou pode indicar que algo está errado?

De acordo com especialistas, um leve desconforto nos primeiros dias pode acontecer enquanto as mamas e o bebê se adaptam à amamentação. No entanto, sentir dor intensa não é esperado e geralmente indica que algo precisa ser corrigido.

“O desconforto nos primeiros dias é relativamente comum, principalmente quando o bebê começa a mamar e a mama ainda está se adaptando. Mas é importante deixar uma mensagem clara: amamentar não deve ser um processo doloroso”, afirma o ginecologista e obstetra Wagner Hernandez, que atua em São Paulo.

Ele explica que, quando a dor persiste durante toda a mamada, piora com o passar dos dias ou vem acompanhada de machucados, a causa mais frequente é a pega inadequada do bebê. “Quanto antes isso for corrigido, mais fácil é evitar complicações”, completa.

Pega incorreta é a principal causa das fissuras

Segundo o ginecologista e mastologista Alexandre Pupo Nogueira, membro do núcleo de mastologia do Hospital Sírio-Libanês, a maior parte das fissuras e machucados acontece quando o bebê suga apenas o mamilo, sem abocanhar boa parte da aréola.

Esse movimento provoca um atrito repetitivo que favorece o aparecimento de rachaduras. Além da pega incorreta, o problema também pode estar relacionado ao posicionamento inadequado da mãe ou do bebê, ao frênulo lingual curto, ao uso incorreto da bomba para retirada de leite e até à candidíase, que fragiliza a pele da região.

Outro fator que merece atenção é a umidade excessiva. Permanecer por muito tempo com absorventes de seio úmidos pode deixar a pele mais sensível e favorecer o surgimento de pequenas fissuras.

Para reduzir o risco desses problemas, Nogueira orienta que o bebê esteja com a boca bem aberta, os lábios voltados para fora e abocanhe grande parte da aréola, e não apenas o mamilo. “O lábio do nenê fica um pouquinho projetado para fora, envolvendo toda a aréola, e a gengiva deve estar apoiada na aréola, e não no mamilo”, explica.

O especialista também recomenda interromper a sucção antes de retirar o bebê da mama, colocando delicadamente o dedo no canto da boca para desfazer o vácuo. Entre as mamadas, é importante manter os mamilos secos e utilizar apenas produtos próprios para essa região, como a lanolina quando indicada.

Ingurgitamento e mastite exigem atenção

Outro problema frequente é o ingurgitamento mamário, quando a mama fica muito cheia, endurecida e dolorida pela dificuldade de saída do leite. Segundo Hernandez, esse quadro costuma surgir entre o terceiro e o quinto dia após o parto, período conhecido como descida do leite.

Se o leite não for retirado adequadamente, pode ocorrer uma inflamação que, em alguns casos, evolui para mastite. “A mastite costuma causar dor localizada, vermelhidão, calor na mama e, muitas vezes, febre e mal-estar. Nem toda mastite precisa de antibiótico, mas ela sempre merece avaliação médica”, afirma.

Ele ressalta que, na maioria dos casos, a mulher deve continuar amamentando ou esvaziando a mama. Interromper a retirada do leite tende a agravar o problema.

Quando procurar ajuda

Os especialistas orientam procurar atendimento quando a dor é intensa e não melhora após os primeiros dias, quando surgem fissuras importantes, sangramento, febre, vermelhidão, saída de pus ou endurecimento persistente da mama.

Também merece avaliação a dificuldade do bebê para fazer a pega ou ganhar peso adequadamente. Segundo Hernandez, quanto mais cedo esses problemas forem identificados, maiores são as chances de manter uma amamentação confortável e bem-sucedida.

“Hoje contamos com uma equipe multidisciplinar que faz toda a diferença nesse processo, incluindo consultoras de amamentação, enfermeiras obstétricas, fonoaudiólogas, pediatras e obstetras. Quanto mais precoce essa avaliação, maiores as chances de resolver o problema rapidamente e manter uma amamentação confortável e bem sucedida”, diz o médico.

Pequenos cuidados fazem diferença

Além da pega correta, alguns cuidados simples podem tornar a amamentação mais confortável. Nogueira orienta que o corpo do bebê permaneça alinhado, com orelha, ombro e quadril formando uma linha reta e a barriga voltada para a barriga da mãe. A cabeça e o pescoço devem estar bem apoiados, sem necessidade de girar o pescoço para alcançar a mama.

O obstetra explica ainda que, nos primeiros dias de vida, o bebê não deve permanecer mais de três horas sem mamar, mesmo quando a amamentação ocorre em livre demanda. Outra orientação é alternar as mamas a cada mamada, permitindo que cada uma tenha um intervalo maior de descanso e reduzindo o risco de fissuras causadas pelo atrito contínuo.