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O que Lula realmente afirmou e da arte de comer a casca, não a banana

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
O que Lula realmente afirmou e da arte de comer a casca, não a banana

O presidente Lula afirmou, afinal, na Convenção do PT, no domingo, que não quer ser só “o presidente do Bolsa Família e do Brasil Sorridente?” Resposta. Sim e não. Se você for um empirista fanático, bem…, ele o disse. Se você se ocupa um tantinho da história das ideias e das escolhas políticas de progressistas e conservadores no Brasil ao longo dos tempos, a resposta é esta: NÃO, ELE NÃO O DISSE. E, no entanto, sobre seu eventual quarto mandato, a gente o ouviu dizer literalmente: “Eu não quero ser mais um presidente só do Bolsa Família; só do Brasil Sorridente… É tudo mais, mais e mais! É preciso ser mais”. Pausa para uma digressão.

Caetano tem uma música espetacular no disco “O Estrangeiro”. Trata-se de “Outros Românticos”, de 1989. Ai, ai, leitores! Vou fazer 65 no próximo dia 19 e me lembro que apontei, então, que tal álbum redefinia em muitos aspectos a sua grande obra. Foi ontem? Não. Já faz 37 anos. Como é mesmo? Vai um trecho da letra e sugiro vivamente que aqueles que não a conhecem procurem ouvi-la depois da leitura deste artigo. Na sequência, havendo tempo, procedam a uma pesquisa esperta sobre suas múltiplas camadas:

“Eram os outros românticos, no escuro
Cultuavam outra idade média, situada no futuro
Não no passado
Sendo incapazes de acompanhar
A baba Babel de economias
As mil teorias da economia
Recitadas na televisão
Tais irredutíveis ateus
Simularam uma religião
E o espírito era o sexo de Pixote, então
Na voz de algum cantor de rock alemão
Com o ódio aos que mataram Pixote a mão
Nutriam a rebeldia e a revolução”.

Em muitos aspectos, pode ser a mais espetacular letra de Caetano. Essa “religião” que poderia haver ali, com tudo o que a letra carrega de ironia e melancolia, busca ater-se ao significado das palavras, para além da “baba Babel de economias”… Nesse particular sentido, sou um desses “outros românticos” — já antigos, como todos.  EM QUE CONTEXTO MESMO LULA AFIRMOU QUE NÃO QUER SER APENAS O PRESIDENTE DO BOLSA FAMÍLIA? Eu vou transcrever o trecho:

“Quero que vocês saibam que eu sou triste com a política de hoje. Eu preferia o meu partido quando a gente tinha de vender uma camiseta para arrumar dinheiro para colocar gasolina para ir fazer um comício. Esse negócio de Fundo Partidário… Essas coisas não me agradam. Não me agradam porque estão levando os partidos para a promiscuidade. Isso é o que eu penso. Fez todos nós viramos iguais. Eu fico imaginando… Eu conheço gente naquele Congresso, partido que recebe um bilhão por ano. Um bilhão! Sem prestar contas ao povo brasileiro. Eu quero que vocês saibam; eu quero que vocês saibam que a minha quarta Presidência é para mudar muita coisa nesse país. Quero que vocês saibam. E vai ter briga vai ter briga com emenda parlamentar. Vai ter briga com papel que hoje tem o Poder Legislativo. Eu não posso permitir que hoje o presidente da República vá perdendo seus direitos; o presidente da República vai perdendo o direito de indicar agências [de regulação];  vai perdendo o direito de indicar o ministro da Suprema Corte; vai perdendo o direito de indicar a coisa do Cade, vai perdendo o direito… Ou seja: vai perdendo o direito… Ou seja: daqui a pouco, qual o direito que tem o presidente da República? Nenhum! Então, a gente vai ter que discutir — e é bom você se elegerem; todos vocês; não quero um primeiro-suplente; eu quero todo mundo eleito — porque vai ter que ter briga democrática para a gente dar uma mudada neste país. Eu não quero ser mais o presidente só Bolsa Família; só do Brasil Sorridente… Só do mais, mais e mais… É preciso ser mais. E esse ‘ser mais’, a gente vao ter de mudar de comportamento. A gente vai ter de ser mais ousado. A gente vai ter de ser mais ousado para a gente mudar muita coisa”.

O QUE É RELEVANTE
Se parece um enigma a citação de “Outros Românticos”, talvez comece a deixar de ser. A frase literal de Lula, sobre o Bolsa Família, não tinha a menor importância. Podemos até divergir sobre se é ele ou não a melhor pessoa para acabar com estes dois desastres que infelicitam a democracia — o Fundo Eleitoral (dado o valor que citou, acho que é o que quis dizer) e as emendas. Foi nesse contexto, precisamente, que ele afirmou que não quer ser apenas o presidente daqueles dois programas sociais. Temos questões estruturais que hoje corroem a democracia.

E uma delas é precisamente a perda de prerrogativas do Poder Executivo. E lhes digo: eu topo debater parlamentarismo; eu topo debater semipresidencialismo; eu só não topo um Congresso que, hoje, vota o Orçamento que lhe der na telha — e dane-se se este é viável ou não — na certeza de que dispõe de R$ 60 bilhões em emendas para desaparecer no ralo. Ser do governo ou não ser, convenham, não faz a menor diferença. Os valentes não precisam nem da vantagem nem da desvantagem de ser base de apoio.

O SUPERPODER DO CONGRESSO, LULA E FLÁVIO
Ah, queridos! Lula experimenta isso, com uma candidatura “isolada” de progressistas. O curioso é que Flávio também prova um tantinho do remédio que consiste na permanente depredação da política que seu grupo promove. Embora não apareça mal nas pesquisas, não conseguiu, até agora, arrumar um nome para vice. E, no caso, os valentes buscam uma mulher. Ocorre que sua misoginia precede com provas a sua filoginia de ocasião. De resto, Flávio falou que quer encarcerar meninos de 14 anos, os filhos das mulheres pobres. Ah, lembrei: ele disse pretende proteger “as mulheres de verdade”. No seu universo, as pobres são apenas “de ficção”.

Se pudesse fazer um apelo, faria: vamos nos ater ao que realmente nos remete à substância. A questão do Bolsa Família na fala de Lula não tem a menor importância. O que realmente é relevante é o declínio do Poder Executivo, com o consequente agigantamento do poder, sem responsabilidades, do Congresso. Essa é a essência da fala. É o que tem de ser compreendido. Pero Magalhães Gândavo, um português que contou aos seus como era o Brasil de meados do Século 16, observou que os indígenas comiam o miolo da banana e “deitavam a casca fora”. Seria bacana se a gente fizesse o mesmo com a notícia.

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