A falácia — se não notaram, tenho dado a algumas crônicas o subtítulo de algumas das infinitas falácias que movem a estupidez humana — ad ignorantiam é a que sustenta que uma prova é verdadeira se não é demonstrada ser falsa. No nosso mundo anglófono, surgiu uma palavra para isso, twosidism, a que a mídia brasileira, como a universal, com as raras exceções que provam a regra, aderiu com entusiasmo militante.
Assim se afirma que, para ser isento, é preciso dar igual valor, relevo, destaque, impacto aos dois lados da “polarização”. Por exemplo, devemos dar o mesmo respeito a quem acha que a Terra é plana — o que não foi demonstrado ser falso — e ao renegado Galileo Galilei, que, como alguns tolos, acha que é redonda, quase um esferoide oblato, para falar difícil. Ou aos que sustentam que a Terra foi criada em 4.004 aC — o que não foi demonstrado ser falso —e os imaginativos, como Charles Darwin e Charles Lyell que achavam que era um pouco mais velha, seus fiéis dizem que tem 4,54 bilhões de anos. Ou os que acham que o golpe é a saída — o que não foi demonstrado ser falso —e os que acham que a democracia é o caminho. Todos têm o direito a ter a sua verdade, o seu fato, quem são eles para contestar.
Mas às vezes eles precisam equilibrar a coisa. Como aquele juiz a quem um advogado tentou argumentar que seu cliente tinha o Direito de seu lado e que respondeu: “Pois é, ele já tem o Direito, então vamos dar a causa ao outro, para compensar.” Por isso, se o Biden gaguejou um dia e o Trump gagueja todo dia, vamos meter o pau no Biden e deixar o Trump de lado que ele gaguejar não é notícia.
Nas redes sociais, o equilibrador originário atende pelo nome simpático de Seu Algoritmo, que é um homem de muitas faces, a muskiana, a zuckerberguiana, douyiniana etcetera e tal. Seu Alguinho, ele é muito bonzinho, deixa os epsteinianos oferecer bonequinhas para meninas, uma coisa sadia e inocente; deixa os influencianos fazer seu marketing de ingeríveis excitantes e deliráveis, além de pedir me dá um dinheiro aí; deixa os vendedores da pátria vender a pátria ao caloteiro senhor da guerra, god reencarnado; deixa os vendedores dos céus — há muitos deles, camelôs e camelódromos — pelo dízimo nosso de cada dia. Deixa, pois não há nenhum motivo para afastar essa gente que quer o bem da humanidade na mão: os outros já têm a decência, Alguinho dá a indecência.
A equalização funciona assim: se descobre que o 001 emitiu três notas fiscais de 500 paus (unidade de mensalidade vorcariana estabelecida pelo ínclito Nogueira) para a firma de contabilidade que contabilizava um dos n + 1 canais de pagamentos do ex-delator; ele cancelou as duas primeiras e “fez o serviço” da terceira; tudo isso na semana em que estava sendo votada a bondade legislativa que aumentava a responsabilidade dos outros bancos na quebradeira do Master; então ficamos combinados, ele cancelou, não aconteceu nada, não vamos ficar implicando com miudezas, o que é um dinheiro assim para quem mandou a caverna de Ali Babá para o Texas? Também não vamos ficar falando dessa história dele ter mandado recado e conversado com o Vorcaro, saidinho da cadeia e ainda não voltado para ela, pedindo uma ajudinha “para o dark horse, alcunha Cavalão”, o dinheiro foi todinho para dona Karina via States, ele disse que ia mostrar as contas em trinta dias, quem não viu é porque não quis.
Claro que tudo isto está sob a batuta do ministro-equalizador terrivelmente-evangélico-creacionista, com a isenção de quem assumiu o ministério da justiça do profeta Bolsonaro para garantir que a PF não continuasse a “…oder com a família” (zeros e cia) e que a Covid não fosse motivo para impedir a reunião de pessoas e impedir outros erros de governadores e prefeitos. Ele equilibra: há um escândalo de 63 milhões com os 00s, vamos abafar e arranjar um escândalo de 300 mil com o Lulinha. Vamos investigar o Flaviorcaro, mas devagar com a louça que nada pode ser divulgado antes das eleições, e os do mal se abre o sigilo, quem eles pensam que são. É claro que o galego do Lula é do mal, galego do bem é o profeta que o nomeou ministro e advogado, garantindo a sua absoluta parcialidade.
Interessante mesmo é o Lulinha ter viajado com o Careca do INSS, prova de que ele é culpado de que? é que não se encontrou nada até agora e ele pode ter falado com o pai, coisa que o Moraes proibiu o pobre 001 de fazer, e ele nem tinha feito nada, só enganado o 000 à esquerda, pedindo uma carta bic-escrita dizendo que ele era seu candidato só para ele guardar no seu diário de fãzoca, e o bestalhão fez que acreditou e mandou dizer pelo próprio 001 que foi enganado.
Depois tem essa história de dizer que vale o que está escrito na lei que diz que não pode falsificar voz imagem ou voz-e-imagem com ou sem autorização. Que besteira: o kassioconcá já disse que é preciso distinguir a deep-fake do bem, em que se engana o pai, da deep-fake do mal — ou será que eu ouvi mal e é do mau? Mas o conká é bonzinho, não vai se declarar impedido por o Flavinho ter levado ele pela mão para papai e pedido para fazer dele outro ministro equalizador do Direito, dá direitinho o Direito que o filhinho do papai precisa. Todo mundo sabe que ele foi autorizado pelo papai, mas que é para dizer que não foi, a 5ª Emenda foi feita garantir aos amigos da América o direito de mentir sem corar. E imagina a inconstitucionalidade do Moraes, que fez a pergunta ao pai sem dizer que o pai podia não dizer que não autorizou o que autorizou: onde já se viu? Que absurdo obrigar a mentir!
Deu para notar que a história daquele tal juiz colou e a visão falaciana tomou conta dos ministros do bem, obrigados a conviver com pessoas que acham que houve golpe como o Gilmar e o Dino e o Moraes e a Carmem, quem não tem pena deles?
Ih! Ia esquecendo de lembrar que a Michela fez as pazes de mentirinha com o Flavorcaro e isso é coisa para se comemorar aqui e na Argentina, que é muito mais perto dos States e tem a vantagem de ter o mais baixo desemprego da história — merdra, isso é do Lula, já ia esquecendo —, tem a vantagem de ser embaixo de Itaipu e se precisar nós detonamos a bomba d’água, ainda lavamos o Paraguai que não começou a guerra e muito injustamente foi acusado de torpezas, imagine o democrata filho do democrata sucessor do Francia fazer uma malvadeza dessas!
Pedro Costa é arquiteto e escritor.

