Mulher de sorte, essa Michelle Bolsonaro. Estava bem até que, na noite do último sábado, começou a sentir dores de cabeça. Era uma crise de enxaqueca, segundo contaram os médicos. Foi obrigada a internar-se em um hospital de Brasília e assim, no dia seguinte, escapou de esbarrar em Flávio, seu enteado, na convenção do Partido Liberal (PL) que a indicou candidata ao Senado.
Michelle não precisa de Flávio para se eleger — é ele quem precisa dela para se eleger presidente da República. A relação entre os dois sempre foi péssima. Como ela própria disse em um vídeo divulgado há um mês, Flávio a humilhava, desprezava, tratava com rispidez e não lhe dava ouvidos. Foi por meio de terceiros que ela soube que ele fora escolhido pelo pai para concorrer à Presidência.
O vídeo de Michelle provocou sérias avarias na candidatura de Flávio entre as mulheres. Recentemente, pressionada por Valdemar Costa Neto, presidente do PL, Michelle aceitou os pedidos virtuais de desculpas de Flávio e prometeu apoiá-lo. A paz acabou selada com uma troca de vídeos, mas Flávio ansiava por uma foto ao lado dela. Como se viu, isso ficará para outro dia.
Por uma foto, Flávio já voou mais de 12 horas para se encontrar com Donald Trump em Washington. Retornou como culpado pelo novo tarifaço aplicado por ele ao Brasil. O esforço de Flávio para fazer uma selfie com Michelle custou-lhe menos de três horas de voo entre João Pessoa, onde estava, e Brasília, aonde chegou. Deu tempo para que ouvisse a leitura da carta amigável de Michelle.
Nascida e criada na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, Michelle dispensa apresentações e cabos eleitorais para se eleger no Distrito Federal. Ao contrário de Flávio, que só é conhecido no Brasil por ser filho de quem é. Aí estão, ao mesmo tempo, a sorte e a falta de sorte dele: se herda parte dos votos do pai, herda também sua elevada rejeição. É o que explica sua colocação nas pesquisas.
Depois do arranque inicial, quando chegou a empatar numericamente com Lula, Flávio perdeu pontos e parece ter estancado. Hoje, por exemplo, em um eventual segundo turno, Ronaldo Caiado, candidato do Partido Social Democrático (PSD), teria mais chances de derrotar Lula do que Flávio. O desafio de Caiado é ultrapassá-lo nos próximos 62 dias. Não será fácil.
O desafio de Lula, desde ontem candidato oficial do PT à Presidência, é distanciar-se ainda mais dos seus adversários e conseguir se reeleger no primeiro turno. Ele fez da convenção do partido uma festa para se autoelogiar. Guardou para revelar daqui a 13 dias, no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, seu plano de governo. Foi ali, como líder sindical, que sua saga política começou há 47 anos.

