O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, visitou o Brasil semana passada. Foi recebido pelo presidente Lula, no Palácio da Alvorada, de maneira formal e recepcionado no Itamaraty com banquete de muitos talheres. Todo o evento foi cercado de mesuras e louvações ao ilustre convidado. No entanto, pouca gente percebeu a visita do asiático. Em Brasília as pessoas entenderam que alguém importante estava na cidade, porque as ruas centrais da Capital foram fechadas e o trânsito ficou difícil. E um avião imenso ficou estacionado no aeroporto.
A visita do presidente da Coreia do Sul concentra diversos significados neste dramático momento da história nacional. Pressionados pelo governo dos Estados Unidos, os brasileiros buscam alternativas para manter sua economia funcionando. A solução é diversificar mercados. E a Coreia do Sul, um dos chamados tigres asiáticos, tem apetite e dinheiro suficientes para compensar em boa parte as perdas nacionais no mercado norte-americano.
O presidente coreano deixou Brasília e seguiu para São Paulo onde, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, participou de reunião com empresários dos dois países com objetivo de discutir a diversificação de mercados para exportações brasileiros e cooperação nas áreas de tecnologia, energia e agronegócio. Este encontro deu sequência ao anterior, realizado em Seul, em fevereiro de 2026, com a presença de 450 empresários brasileiros e coreanos. O Brasil possui corrente de comércio com aquele país em torno de US$ 11 bilhões. Participa com 1% da importação de bens da Coreia. Os empresários estão convencidos de que poderão fazer estes números crescer bastante.
A história da Coreia do Sul é recente como Estado independente, mas remonta há mais de dois mil anos. A Península Coreana foi ocupada por diversos reinos antigos. Em 1392 foi fundada a dinastia Joseon, que governou por mais de cinco séculos. Durante este período consolidaram-se a administração do Estado, a influência do confucionismo e, em 1443, foi criado o alfabeto coreano pelo rei Sejong. Em 1910, o Japão anexou a Coreia, que permaneceu sob ocupação estrangeira durante 35 anos. Os coreanos sofreram, naquele período, forte repressão política e exploração econômica.
No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão foi derrotado e perdeu a colônia. A península foi dividida, ao longo do paralelo 38. Ocupação soviética ao norte e ao sul, norte-americana. Em 1948, surgiram dois Estados: Coreia do Sul (República da Coreia), capital Seul. E Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia), capital, Pyongyang. Em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu a do Sul na tentativa de unificar a península pela força. O conflito terminou em 1953 com armistício. Tecnicamente, as duas Coreias continuam em estado de guerra.
No final do conflito, a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo. A partir dos anos sessenta, século passado, sob o governo de Park Chung-hee, começou o processo acelerado de industrialização baseado no investimento em educação, planejamento estatal, incentivo às exportações e apoio a grandes conglomerados industriais. Durante parte desse período, a Coreia do Sul foi governada por regimes autoritários. Na década de oitenta, grandes manifestações populares levaram à redemocratização. Em 1987, foi estabelecido o sistema democrático atual, com eleições diretas para presidente.
A Coreia do Sul é, hoje, uma das maiores economias da Ásia. É líder em semicondutores, eletrônicos, construção naval e baterias, referência em educação, inovação, pesquisa e potência cultural, graças ao fenômeno K-pop. Em pouco mais de 70 anos, o país passou de devastado pela guerra a integrar o grupo das economias mais desenvolvidas do mundo. É uma trajetória que pode inspirar lideranças no Brasil e na América Latina. O país não ficou imobilizado para chorar as mágoas. O governo decidiu que o mais importante era seu povo, numa região que não oferece recursos minerais, nem vantagens comparativas. Investiu em educação e multiplicou por vinte a renda per capita em setenta anos.
O Brasil vive os pródromos da eleição presidencial, mas nenhum candidato até agora teve a preocupação de anunciar programa de governo ou de metas. O exemplo da Coreia é escandalosamente luminoso para os brasileiros. Capaz de atingir até os olhos menos sensíveis dos populistas com reduzida criatividade e golpistas que se julgam espertos. É uma possibilidade viva e alcançável. Depende menos de discursos recheados por promessas vazias e mais de planejamento, organização e trabalho. Só.

