Nos últimos dias, uma polêmica envolvendo o cantor Zé Felipe e seu filho caçula, José Leonardo, de 1 ano, acendeu um debate importante sobre sexualização infantil. Em gravação compartilhada nas redes, Zé Felipe segura o garoto no colo enquanto adultos ao redor o incentivam a dar uma resposta de conotação obscena e de cunho sexual ao ser questionado sobre “o que daria para as meninas”.
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Enquanto respondia, o bebê também apontava para a própria região pélvica.
O caso gerou forte repercussão negativa na internet, já que internautas teceram duras críticas ao cantor — classificando a atitude como uma exposição desnecessária e inadequada para a idade do menor.

O que diz a psicologia sobre o tema
Em entrevista ao Metrópoles, a psicóloga Mariana Ramos destaca que, em situações como esta, o problema está em atribuir à criança intenções, desejos ou comportamentos próprios do universo adulto, “antecipando conteúdos que não pertencem ao seu momento de desenvolvimento”, comenta.
“Expressões como ‘já é namorador’, ‘vai dar trabalho quando crescer’, ‘olha o conquistador’ ou ‘esse vai pegar todas’ parecem inofensivas para muitos adultos, mas carregam mensagens que extrapolam a capacidade de compreensão infantil”, alerta a docente do curso de psicologia da Afya Itaperuna.
Segundo a especialista, é justamente na infância que o indivíduo aprende, principalmente por observação, quais comportamentos são valorizados socialmente.
“Aquilo que o adulto chama de ‘brincadeira’ pode, na realidade, tornar-se uma poderosa ferramenta de aprendizagem”, lembra sobre o risco de insinuar questões de cunho sexual.

Masculinidade tóxica
Mariana enfatiza que o desafio também está na construção de modelos em que homens precisam demonstrar poder, dominação de emoções, competição e virilidade constante. Ou seja, quando uma criança é elogiada por “conquistar várias” ou incentivada a cultivar interesses amorosos tão cedo, ela aprende que seu valor está associado ao seu desempenho masculino.
“Do ponto de vista neuropsicológico, a infância é um período de desenvolvimento das funções cognitivas, da regulação emocional e das habilidades sociais. Quando a criança é exposta à sexualização precoce, podem surgir impactos importantes na forma como ela interpreta o próprio corpo, os limites pessoais, o respeito ao corpo do outro, o consentimento, os vínculos afetivos e os papéis de gênero”, ressalta.

Ao comentar sobre a polêmica de Zé Felipe, a psicóloga também lembra o perigo das exposições nas redes sociais.
“O problema não está apenas na exposição da criança específica, e sim na validação coletiva do comportamento. Quanto maior o número de curtidas, comentários e compartilhamentos, maior a percepção de que aquela conduta é socialmente aceita”, afirma.
Como evitar?
Por último, Mariana explica como evitar que os meninos sejam expostos aos ideais da masculinidade tóxica.
“Uma educação afetiva saudável envolve ensinar que respeito vale mais do que conquista; emoções podem e devem ser expressas; carinho não depende de desempenho; ninguém precisa provar masculinidade; o consentimento deve ser compreendido desde cedo e respeitado; e todas as pessoas merecem respeito, autonomia e liberdade para construir sua identidade, independentemente do gênero”, conclui.

