Está certo chamar de convenção “sem, sem” a promovida em São Paulo pelo Partido Liberal para lançar oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República: sem vice, à espera de uma mulher que possa lhe trazer votos; sem Michelle, a madrasta que ele sempre tratou tão mal; e sem o apoio de nenhum outro partido por descrença em suas chances de se eleger.
No discurso de aceitação do encargo, restou a Flávio exaltar o pai que o escolheu, e a quem reafirmou obediência pelo resto da vida; elogiar a mãe de suas duas filhas, chamando-a de “minha coluna vertebral” por tê-lo reeducado; chorar ao ouvir as mensagens em vídeo dos irmãos ausentes Carlos e Eduardo; e desancar Lula, o governo federal, o PT e o ministro Alexandre de Moraes. Para isso, valeu-se de clichês. Foi incapaz de cunhar uma única frase original digna de ser lembrada.
E, se não bastasse, fez questão de associar-se a dois líderes mundiais da extrema-direita: Javier Milei, presidente da Argentina, e Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, acusado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Há, inclusive, um mandado de prisão contra ele. Netanyahu, em vídeo, desejou sucesso a Flávio. Milei, conhecido como “El Loco”, marcou presença e sapateou no palco montado para acolher os visitantes mais ilustres.
Nem se fosse convidado, Donald Trump viria à convenção. Anda ocupado demais com o bombardeio ao Irã. Mas ele designou dois auxiliares para virem ao Brasil questionar a lisura das eleições de outubro. O governo brasileiro, porém, negou-lhes o visto.
A vida inteligente só pode existir e prosperar onde o comandante em chefe também é inteligente. Se fosse esse o caso de Flávio, ele poderia ter melhor sorte como candidato, mas não é. Por que desafiar a Justiça com uma versão do seu pai gerada por Inteligência Artificial, na qual ele saudou os presentes à convenção? Bolsonaro está proibido de falar sobre temas políticos e já foi punido por isso.
“Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial. Como todos aqui sabem, estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária baseada em algo que eu nunca fiz”, diz Bolsonaro no vídeo. O uso de um deepfake de uma pessoa existente é proibido pela legislação eleitoral. Não é possível que Flávio não saiba. Vai ver que é só mais um tiro que ele dispara no próprio pé.

