Últimas

O jogo que interessa ao Brasil (por Hubert Alquéres)

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
O jogo que interessa ao Brasil (por Hubert Alquéres)

A narrativa política sobre o tarifaço de Donald Trump não pode estar acima dos interesses nacionais. Só será possível preservá-los se houver uma leitura realista tanto da correlação de forças entre o Brasil e os Estados Unidos quanto do significado dos movimentos do presidente americano, que acaba de também tributar o Canadá com uma tarifa de 50% sobre parte de suas exportações. Se um país integrado aos Estados Unidos por décadas de livre comércio, por uma extensa fronteira comum e por cadeias produtivas altamente interligadas tornou-se alvo da nova ofensiva tarifária, é sinal de que estamos diante de algo maior: a segunda onda da guerra comercial iniciada no ano passado.

O governo Lula interpretou o movimento principalmente sob a ótica político-eleitoral. Avaliou que Trump buscava interferir na disputa presidencial brasileira e respondeu elevando o tom, com referências à Lei da Reciprocidade e à defesa da soberania nacional.

A partir daí vieram uma série de declarações, de membros do governo, escalando a crise. Algumas, com forte apelo emocional, afirmavam que o Brasil “não se curva nem se acovarda”. Nos dias seguintes, o discurso foi moderado, mas a estratégia permaneceu a mesma: transformar o episódio em ativo político interno.

Essa estratégia pode produzir efeitos na política doméstica. Mas ela responde apenas parcialmente à questão fundamental: qual é o caminho mais eficaz para reduzir ou reverter os prejuízos econômicos provocados pelas novas tarifas? A resposta depende menos da retórica e mais da compreensão do fenômeno em curso.

Como observa o ex-embaixador Rubens Barbosa, Donald Trump procura redefinir as relações comerciais internacionais por meio de uma lógica de poder. As tarifas impostas ao Brasil, ao Canadá e a dezenas de outros países mostram que não se trata de uma crise bilateral, mas de uma reconfiguração do comércio internacional à qual os países terão de responder.

A experiência anterior é instrutiva. Apenas China e Canadá optaram, inicialmente, pelo confronto direto, adotando medidas retaliatórias. Ainda assim, ambos acabaram celebrando entendimentos parciais com Washington. Os demais parceiros comerciais dos Estados Unidos, como União Europeia, Japão, Reino Unido, Índia e diversos outros, privilegiaram a negociação como instrumento para preservar seus interesses.

Os primeiros movimentos da nova rodada parecem confirmar essa tendência. Logo após o anúncio das novas tarifas, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, reafirmou que considera a medida incompatível com o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá. Ao mesmo tempo, declarou-se disposto a negociar, deixando claro que defender os interesses nacionais não significa abrir mão do diálogo. O objetivo é proteger empresas e empregos sem transformar uma disputa comercial em um conflito de difícil reversão.

A mesma reflexão se impõe ao Brasil. A análise fria do cacife político e econômico do país indica que só temos a perder se o governo decidir, ainda que depois das eleições, adotar o caminho da retaliação. O apelo à Lei da Reciprocidade pode agravar o problema, levando os Estados Unidos a dobrar a aposta e arrastando-nos para uma guerra comercial onde sairíamos em desvantagem.

Negociar não significa abrir mão de interesses nacionais. Significa utilizar os ativos de que o país dispõe para alcançar resultados melhores do que aqueles obtidos pelo simples confronto.

Saber jogar o jogo da negociação é o grande desafio a ser enfrentado pelo país. Isso não significa negociar em posição de fragilidade. O Brasil possui ativos importantes que aumentam seu poder de barganha. O principal deles talvez seja sua extraordinária disponibilidade de minerais críticos, indispensáveis à produção de baterias, semicondutores, equipamentos militares, turbinas eólicas, veículos elétricos e inúmeras tecnologias estratégicas.

Em um momento em que Estados Unidos e China disputam cadeias globais de suprimentos, reduzir a dependência americana de fornecedores concentrados em poucos países tornou-se prioridade geopolítica. O Brasil reúne reservas expressivas de terras raras, grafita, nióbio, níquel e outros minerais essenciais. Esse patrimônio pode transformar-se em importante instrumento de negociação, desde que integrado a uma estratégia nacional consistente, capaz de combinar atração de investimentos, agregação de valor industrial e segurança jurídica.

Uma agenda de negociação também permite enfrentar temas estruturais da relação bilateral, como barreiras comerciais, investimentos, produtividade e competitividade da economia brasileira. Elevar a produtividade e modernizar o ambiente de negócios são objetivos compatíveis com os interesses permanentes do país.

Sob uma perspectiva estratégica, preservar o mercado americano interessa ao Brasil muito além do episódio atual. Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais destinos das exportações industriais brasileiras e uma das mais relevantes fontes de investimento direto. Ao mesmo tempo, uma excessiva concentração da política externa em qualquer grande potência reduz a margem de autonomia do país. Manter relações equilibradas tanto com Washington quanto com Pequim constitui um ativo geopolítico que fortalece, e não enfraquece, a soberania brasileira.

Desde o Barão do Rio Branco, nossa diplomacia construiu sua reputação privilegiando a negociação, o direito internacional e a busca de soluções pragmáticas para conflitos complexos.

O que está em jogo é muito maior do que a disputa eleitoral. O sistema internacional atravessa uma fase de instabilidade em que as relações de poder voltam a ocupar o centro da política mundial. Nesse ambiente, a diplomacia torna-se ainda mais importante como instrumento de defesa dos interesses nacionais. Há mais de dois milênios, Tucídides observava que “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”.

A história mostra, porém, que as nações mais bem-sucedidas não são as que confundem firmeza com confronto, mas as que sabem transformar seus interesses em capacidade de negociação. É esse o jogo que interessa ao Brasil.

____________________________________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.

O jogo que interessa ao Brasil (por Hubert Alquéres) — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado