Investigações da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) apontam que medicamentos oncológicos roubados por uma organização criminosa fluminense abasteciam a rede pública de saúde do estado por meio de licitações na modalidade de tomada de preços. Em apenas um ano, o esquema movimentou mais de R$ 33 milhões.
Nesta terça-feira (21/7), a Operação Metástase foi deflagrada para desarticular a quadrilha suspeita de roubar cargas de medicamentos de alto custo usados no tratamento do câncer. O grupo é apontado como responsável por pelo menos 20 roubos de cargas somente nos últimos seis meses.
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A operação também teve como objetivo cumprir mandados de prisão temporária contra as principais lideranças do grupo. Entre os alvos estão Marlon Holanda Oliveira e Ronald Gonçalves da Silva, conhecido como “Talarico”, apontados como líderes do núcleo responsável pelos roubos, Fernanda Rodrigues França e Umberto Xavier de Lima, do núcleo logístico-financeiro intermediário, e Stefano Montovani Fernandes, identificado como chefe do núcleo logístico-financeiro final.
Modus operandi
Ao longo de meses de investigação, policiais reconstruíram toda a estrutura da organização criminosa e desvendaram a forma como a quadrilha atuava.
As equipes identificaram diferentes núcleos, cada um responsável por uma etapa do esquema: o de roubadores; o logístico-financeiro intermediário; o logístico-financeiro final; e o de suporte territorial.
A apuração revelou que o esquema ia muito além do roubo das cargas. Após os assaltos, praticados por criminosos fortemente armados, os medicamentos eram levados para áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, onde a carga era transferida e redistribuída.
A facção criminosa fornecia suporte territorial ao grupo, oferecendo proteção armada aos roubadores. Outro núcleo era responsável pelo armazenamento, fracionamento e envio dos medicamentos. Para ocultar a origem dos produtos e encaminhá-los aos receptadores finais em diferentes estados, os investigados utilizavam empresas de fachada, transportadoras, entregadores e “laranjas”.
As investigações também identificaram integrantes encarregados de aliciar funcionários de transportadoras para obter informações privilegiadas sobre rotas e cargas.
Segundo a Polícia Civil, após os roubos, os medicamentos eram reinseridos no mercado por meio de empresas de fachada. Em alguns casos, os produtos retornavam à rede pública de saúde, onde eram adquiridos por meio de licitações na modalidade de tomada de preços.
A investigação aponta que cerca de 25 empresas de fachada, distribuídas entre Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Pará, integravam a engrenagem financeira da organização. Elas eram utilizadas para emitir documentos fiscais, receber pagamentos e dar aparência de legalidade aos medicamentos roubados, revendidos por valores inferiores aos praticados no mercado.
A PCERJ alerta que o esquema representava risco direto à saúde pública. “Medicamentos oncológicos e imunossupressores precisam ser mantidos sob rígido controle de temperatura durante o transporte. Quando armazenados de forma inadequada, podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até colocar pacientes em risco” disse a corporação por meio de nota.
A operação mobiliza equipes da DRFC-CAP, da Core, dos departamentos especializados da Polícia Civil, da Polícia Militar e conta com apoio das polícias civis de São Paulo, Goiás e Pará, além da Rede Cargas, do Ministério da Justiça.
As investigações continuam para identificar outros integrantes da organização e o destino final dos medicamentos roubados.

