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Prefeitura de SP contratou 23 shows de banda de secretário em um ano

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Prefeitura de SP contratou 23 shows de banda de secretário em um ano

A banda Névula, que tem como guitarrista o secretário municipal da Fazenda em exercício de São Paulo, foi contratada pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para ao menos 23 apresentações durante um período de um ano. Isso representa praticamente um show a cada dois finais de semana. Em um ano, o cachê disparou 500%: de R$ 5 mil para R$ 30 mil, porque a banda passou a apresentar como preço de referência notas fiscais emitidas contra microempresas do guitarrista, como se elas tivessem contratado a banda.

As contratações pararam depois de o Tribunal de Contas do Município (TCM) passou a investigá-las. Relatório da área técnica aponta que há “ausência de comprovação da notoriedade dos três profissionais contratados, requisito indispensável à configuração da inexigibilidade de licitação“. Ou seja: que a banda não poderia ser contratada sem licitação, nem receber mais do o preço da tabela municipal: R$ 5 mil por um grupo com três músicos.

Mas, entre agosto de 2024 e outubro de 2025, a Névula fez um total de 28 apresentações, com cachê somado de R$ 584,5 mil.

A banda, porém, nunca foi contratada por qualquer outro ente público do país, somente pela prefeitura de São Paulo, que tem Fabiano Martins de Oliveira, guitarrista do grupo, como número 2 da Secretaria de Fazenda – ele ocupa o cargo de secretário atualmente, nas férias do titular.

Documentos acessados pela coluna mostram que em todas as contratações Fabiano Oliveira é citado pela própria Secretaria de Cultura como membro da banda, com o apelido “Tenente” e a função de guitarrista. Após a relação entre banda e secretário ser revelada pelo Metrópoles, a banda apagou as redes sociais. Voltou com uma nota afirmando que Fabiano não faz parte da banda desde 2024.

Questionada sobre o fato de tê-lo apresentado à prefeitura como membro da banda em 28 ocasiões,  a banda explicou que ele não é membro, mas participou de todas as apresentações.

A coluna localizou duas ocasiões em que Fabiano informou a Secretaria de Cultura que é servidor da Fazenda e que se apresentaria de forma “graciosa” (gratuita), sem cobrar cachê e fora do horário do serviço. Isso aconteceu na primeira vez que a Névula foi contratada, em maio de 2024, para a Virada Cultural, com cachê de R$ 5 mil, e em uma das últimas, em outubro de 2025, quando a banda já era alvo do Tribunal de Contas.

Cachê inflado para contratações sequenciais

A Névula foi fundada em 2023 e passou a ser contratada pela prefeitura de São Paulo antes de lançar sua primeira música. Na primeira apresentação o cachê foi calculado pela tabela municipal que estabelece R$ 5 mil como cachê para uma apresentação de três músicos.

Quatro meses depois, passou a ser contratada dentro da exceção para artistas consagrados, usando como preço de referência notas fiscais emitidas para a Consulproj Serviços Especializados, uma firma de apoio administrativo, e para a NT Serviços e Comércio de Informática, que comercializa equipamentos de informática. As duas empresas têm o mesmo dono: Fernando Augusto Pires, o Fernando Marreta, baterista da banda.

À coluna, a banda disse que existem registros destes shows, mas que não pode compartilhá-los por sigilo imposto pelo contratante: no caso, o baterista da banda.

O cachê disparou depois que Marreta supostamente contratou sua própria banda por R$ 42 mil, pagando a João Bustamante Junior Apoio Administrativo, do baixista Buxta, para um show da Névula. Então a prefeitura de São Paulo, onde o guitarrista Tenente tem cargo de grande influência, passou a considerar que o cachê de mercado da Névula subiu. 

Isso aconteceu durante um período em que a Secretaria de Cultura escolheu a Névula para uma sequência de shows. Entre 28 de agosto e 14 de dezembro, a banda fez 10 apresentações, várias delas repetidas. Foram quatro em semanas quase consecutivas na Casa de Cultura Chico Science, duas em uma loja de rock no centro da cidade, outras duas em datas consecutivas na “Avenida Santos Dumont”, sem qualquer detalhamento maior, e até duas na mesma data em locais distintos.

Depois, a banda ainda se apresentou na Virada Cultural de 2025 e voltou a ser contratada com frequência em junho de 2025. Em sete semanas, foram 10 shows, a maioria em teatros praticamente vazios, conforme fotos compartilhadas nas redes sociais. Ali, o cachê já havia chegado a R$ 30 mil graças a nota fiscal emitida pela Refinata Eventos, empresa em nome de Matheus Inácio do Nascimento, que assina como presidente da Associação Consciência Cultural, que tem Buxta como principal operador e que organizou a maior parte dos eventos em que a Nevula se apresentou paga pela prefeitura. Novamente, a banda disse à coluna não poder compartilhar comprovação de que o show ocorreu por cláusula de sigilo.

Ao justificar tantas contratações para o TCM, a Secretaria de Cultura disse que “a banda Névula possui ampla notoriedade e reconhecimento, tanto pela crítica especializada quanto pelo público em geral, evidenciado pelo número expressivo de seguidores em suas redes sociais, como o perfil oficial no Instagram e por matérias jornalísticas e conteúdos produzidos por influenciadores especializados em rock”. A banda tem 10 mil seguidores.

O TCM refutou o argumento apontando que a matéria citada era um release com a lista das bandas que tocariam em um evento: “(A SCM) menciona como exemplo de consagração pela crítica uma notícia que cita o nome da banda entre as participantes de um evento específico, sem qualquer análise ou informação adicional a respeito da banda”.

A coluna procurou a Névula a partir do seu líder, Buxta e pediu para falar com os três componentes da banda. Ele pediu perguntas por escrito. Mas não respondeu.

A prefeitura disse que “as contratações artísticas são realizadas sem qualquer influência externa” e que, no caso da Névula, elas incluíram declaração de não-remuneração ao secretário-adjunto da Fazenda. A coluna só localizou duas declarações do tipo, em 28 contratações.

“Os shows mencionados integraram a programação do Circuito Municipal de Cultura, iniciativa que prevê a realização de uma mesma atração em diferentes regiões da cidade. Sobre as apresentações em frente a uma loja, a SMC destaca que os eventos ocorreram em vias e praças públicas. Nos processos administrativos, é utilizado como referência o endereço do imóvel mais próximo”, disse a Secretaria de Cultura.

A pasta disse ainda que desde janeiro de 2025, utiliza o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) para a pesquisa de cachês, complementada pela comprovação da compatibilidade dos valores com apresentações anteriores realizadas sem vínculo com o Município. A prefeitura não respondeu qual o procedimento quando uma banda não aparece no PNCP, caso da Névula, que, no lugar, apresentou notas de shows supostamente contratados pelo próprio baterista.

Confira lista de shows da Névula contratados pela prefeitura de São Paulo:

Virada Cultural 2024 – R$ 5 mil
Casa de Cultura Ipiranga – 28 de agosto de 2024 – R$ 12 mil
Casa de Cultura Ipiranga – 14 de setembro de 2024 – R$ 12 mil
Woodstockk Rock Store – 22 de setembro de 2024 – R$ 16 mil
Woodstockk Rock Store – 13 de outubro de 2024 – R$ 16 mil
Casa de Cultura Chico Science – 13 de outubro de 2024 – R$ 16 mil
Casa de Cultura Chico Science – 19 de outubro de 2024 – R$ 16 mil
Casa de Cultura Chico Science – 9 de novembro de 2024 – R$ 16 mil
Casa de Cultura Chico Science – 30 de novembro de 2024 – R$ 16 mil
Avenida Santos Dumont – 15 de dezembro de 2024 – R$ 12 mil (por 50 minutos de show)
Avenida Santos Dumont  – 14 de dezembro de 2024 – R$ 12 mil (por 50 minutos de show)
Centro Cultural São Paulo – 13 de abril de 2025 – R$ 18,5 mil
Virada Cultural – 25 de maio de 2025 – R$ 24 mil
Teatro Eiró – 10 de junho de 2025 – R$ 22,5 mil
Teatro Alfredo Mesquita – 24 de junho de 2025 – R$ 22,5 mil
Teatro Arthur de Azevedo – 1 de julho de 2025- R$ 22,5 mil
Teatro Arthur de Azevedo – 15 de julho de 2025- R$ 22,5 mil
Teatro Cacilda Becker – 22 de julho de 2025 – R$ 22,5 mil
Praça Mikado – 1 de junho de 2025 – R$ 22,5 mil
Casa de Cultura São Miguel – 16 de junho de 2025 – R$ 30 mil
Teatro Paulo Eiró – 26 de agosto de 2025 – R$ 30 mil
Centro Cultural São Paulo – 17 de junho de 2025 – R$ 30 mil
Viaduto do Chá – 13 de julho de 2025 – R$ 30 mil
Centro Cultural São Paulo – 8 de julho de 2025 – R$ 30 mil
Rua Silva Bueno – 28 de setembro de 2025 – R$ 24 mil
Teatro Centro Cultural Penha – 9 de outubro de 2025 – R$ 30 mil
Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso – 14 de outubro de 2025 – R$ 30 mil
Casa de Cultura Chico Science – 23 de outubro de 2025 – R$ 30 mil

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