Belo Horizonte – Após dois dias seguidos de geada em cidades do Sul de Minas, 54 municípios da região seguem sob alerta de perigo para o fenômeno nesta quinta-feira (16/7).
O fenômeno rende belos cenários, mas produtores rurais de Minas acompanham com apreensão o avanço do frio. Embora as baixas temperaturas ainda não tenham provocado perdas expressivas, culturas como café, morango, hortaliças e batata estão entre as mais vulneráveis ao fenômeno.
O aviso do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê temperaturas mínimas de até 3°C entre 0h e 8h, com risco de perdas em plantações.
O que forma a geada?
Segundo a meteorologista Anete Fernandes, do Inmet, a geada se forma quando há temperaturas muito baixas, massa de ar frio e seco, céu limpo, ventos fracos e baixa umidade. “Se houver muita umidade, forma-se nevoeiro ou névoa úmida, e não geada.”
A especialista explica que o Sul de Minas reúne as condições mais favoráveis para o fenômeno por causa da influência das massas de ar frio e da Serra da Mantiqueira. “Quando a massa de ar frio e seco avança de forma continental, (…) a geada também pode ocorrer no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Oeste, na região de Bambuí, e no Campo das Vertentes. Embora seja incomum, já tivemos registros na região Central, em Bom Despacho.”

Sul de Minas
O município de Maria da Fé, registra geadas praticamente todos os anos. Localizada a 1.258 metros de altitude, na Serra da Mantiqueira, a cidade está entre as mais frias do país.
“De modo geral, o que temos visto neste inverno está dentro do padrão histórico do município. Maria da Fé fica em região propícia à entrada de massas de ar frio do Sul. Por isso, as geadas são frequentes e esperadas entre junho e agosto, praticamente todos os anos”, explicou Flávia Fernanda Azevedo Fagundes, pós-doutora da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).
Segundo a pesquisadora, a primeira geada do ano foi registrada em 8 de junho e, desde então, o município teve novos episódios de frio intenso, incluindo o de 14 de julho, quando a estação da WS Consultoria Climatológica marcou -3°C, a menor temperatura de 2026.
“Nessa quarta (15/7) também tivemos geada, porém mais branda que a do dia 14. (…) O que vivemos neste ano ainda pode ser considerado dentro da normalidade”, acrescentou.
Os impactos
No Sul de Minas, onde são cultivados café, batata, morango, hortaliças e oliveiras, os efeitos da geada variam de uma cultura para outra. Segundo o pesquisador da Epamig Gabriel Koch, o mesmo fenômeno pode causar grandes prejuízos a uma plantação e ter pouco ou nenhum impacto em outra.
“Cada cultura reage de forma diferente ao frio. A batata, por exemplo, tem a parte aérea sensível à geada, que pode queimar as folhas e comprometer o desenvolvimento dos tubérculos, principalmente nos plantios mais recentes. Já as hortaliças de folha, como alface e couve, estão entre as mais vulneráveis, porque têm folhas finas e macias, sem proteção natural contra o gelo, o que faz com que queimem com facilidade quando a temperatura despenca.”
Segundo ele, o morango é uma das culturas mais sensíveis à geada, principalmente durante a floração e a frutificação, quando o frio pode comprometer diretamente a produção.
“Já a oliveira é uma das culturas mais resistentes ao frio e se adapta bem aos invernos rigorosos da região. Ainda assim, geadas muito intensas podem danificar brotações novas e plantas jovens. O café, por sua vez, também é bastante sensível: dependendo da intensidade e da duração do frio, pode haver queimaduras nas folhas, morte de ramos e até prejuízos para a produção da safra seguinte.”

Prejuízo
Apesar de algumas plantações serem mais sensíveis ao frio, Gabriel Koch afirma que, até o momento, a geada causou poucos prejuízos. Ele ressalta, no entanto, que ainda é cedo para medir os impactos.
“Maria da Fé está entre os municípios mais frios de Minas, e as geadas fazem parte da realidade local durante o inverno. Neste ano, porém, ainda foram registrados poucos episódios (…) Até o momento, não há um levantamento que indique perdas expressivas nas principais culturas do município.”
Segundo Vinícius Dantas, presidente da Câmara de Alimentos e Bebidas, as geadas realmente ainda não causaram impactos significativos neste inverno, com registros apenas pontuais.
Ele lembra, no entanto, que o setor mantém a preocupação por causa do histórico de 2021, quando uma forte geada provocou prejuízos ao café, às hortaliças, às frutas e aos viveiros de mudas, afetando a produção e contribuindo para a alta dos preços nos anos seguintes.
“As previsões de geada preocupam o setor. As lavouras estão em fase de desenvolvimento e é importante que a geada não venha para danificar as plantas. Os cafezais ficam em regiões muito suscetíveis, as hortaliças são muito sensíveis e a pecuária leiteira também pode ser afetada pela perda de pastagens. Mas, até o momento, não temos nenhum alerta. O risco ainda é pequeno e acreditamos que, nos próximos dias, o frio comece a perder força.”
Previsão
Segundo a meteorologista Anete Fernandes, do Inmet, as condições para formação de geada devem permanecer até sexta-feira (17/7), com redução do risco a partir do fim de semana. “A princípio, não há perspectiva de entrada de novas massas de ar frio na próxima semana.”
Adaptação
Segundo o pesquisador da Epamig Gabriel, os produtores convivem há gerações com as geadas e, por isso, adaptaram tanto as culturas quanto as técnicas de cultivo. Entre as principais estratégias estão a escolha de plantas mais resistentes ao frio, o planejamento do calendário de plantio para evitar as fases mais sensíveis durante o período de geadas, o uso de estufas e túneis de proteção e o acompanhamento das previsões.
“Ainda assim, é importante dizer que estar adaptado não significa estar imune. Mesmo com toda a experiência acumulada, uma geada mais intensa ou fora do padrão histórico ainda pode surpreender e causar prejuízos, principalmente quando atinge fases críticas do desenvolvimento das plantas.”

