Por Mariana Caminha
Na coluna passada, escrevi sobre como os povos indígenas nunca romperam sua conexão com a natureza – e como essa forma de enxergar o mundo pode nos ensinar muito em tempos de crise climática.
A primeira vez que ouvi isso foi de Daniel Iberê, um indígena Guarani Mbya.
“Para os não indígenas, parentes são pais, avós, tios. Para nós, todos são parentes. O arco é parente da flecha. O remo é parente da canoa. A canoa é parente do rio e de tudo o que vive nele. Por isso, um não indígena jamais entenderá o que significa, para nós, a morte de uma árvore.”
Nunca esqueci essa conversa.
Naquele dia, fiquei pensando por que havia demorado mais de quarenta anos para ouvir algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão transformador.
Talvez porque indígenas e não indígenas ainda se conheçam muito pouco. Não nos reconhecemos como parentes. E, nesse espaço entre nós, perde-se muito.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de indígenas, presentes em todos os estados e no Distrito Federal, vivendo tanto em áreas urbanas quanto rurais. Estão muito mais próximos de nós do que imaginamos.
Ainda assim, permanecem distantes.
Cinco séculos depois da chegada dos europeus, seguimos compartilhando o mesmo território, mas raramente a mesma experiência.
Aprendemos sobre os povos indígenas na escola. Eles aparecem nos livros de História, nas campanhas publicitárias e nas cerimônias oficiais. Mas poucos brasileiros já conversaram longamente com uma liderança indígena, participaram de um ritual tradicional ou ouviram como esses povos compreendem a terra, a floresta e o lugar dos seres humanos no mundo.
Certamente, um dos paradoxos menos discutidos do Brasil. Somos um país profundamente diverso que conhece muito pouco da própria diversidade.
Foi pensando nisso que resolvi oferecer ao meu filho uma oportunidade que eu mesmo nunca tive.
Nesta sexta-feira, levarei Santiago, de 12 anos, à Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros. Durante cinco dias, ele conviverá com povos indígenas de diferentes regiões do Brasil. Vai descobrir que cada povo tem sua própria língua, seus cantos, seus rituais e sua maneira de compreender o mundo.
Imagino que essa experiência ficará na memória dele por muito tempo.
Santiago cresceu entre carros, prédios, shopping centers e telas. Agora terá a chance de aprender diretamente com quem construiu, ao longo de muitas gerações, uma relação profundamente respeitosa com a natureza.
Esse é, para mim, o maior mérito da Aldeia Multiétnica. Ela não foi criada para que observemos o outro. Nasceu para que convivamos com o outro.
E isso tem tudo a ver com a crise climática.
Durante muito tempo, tratamos o aquecimento global como um problema essencialmente tecnológico. Apostamos – e continuamos apostando – em energias renováveis, hidrogênio verde, captura de carbono e inteligência artificial. Sim tudo isso tem o seu valor.
Mas a crise climática também nasceu de uma ideia: a de que os seres humanos estão separados da natureza e podem explorá-la sem limites.
Para muitos povos indígenas, essa separação simplesmente não existe.
O território não é apenas um espaço físico. É memória e identidade.
Foi dessa convivência com a terra que nasceram conhecimentos sobre sementes, plantas medicinais, manejo da floresta, ciclos das chuvas, comportamento dos animais e uso sustentável dos recursos naturais.
Durante muito tempo, esses saberes foram tratados como folclore. Hoje, a ciência começa a reconhecer aquilo que seus detentores sempre souberam.
Segundo o MapBiomas, apenas 1,7% da área desmatada no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu dentro de terras indígenas. Não por acaso, esses territórios permanecem entre as áreas mais preservadas do país. O próprio IPCC reconhece que os conhecimentos indígenas fortalecem estratégias de adaptação às mudanças climáticas e ampliam a conservação da biodiversidade.
Portanto, não estamos falando apenas de preservar culturas ancestrais. Estamos falando de proteger parte das soluções de que o planeta mais precisa.
Durante alguns dias, na Aldeia Multiétnica, pessoas que provavelmente jamais se encontrariam compartilharão refeições, caminhadas, histórias, cantos e longas conversas ao redor do fogo.
Em uma época em que os algoritmos nos aproximam apenas de quem pensa como nós e nos afastam de quem vive de maneira diferente, permanecer no mesmo espaço é quase um ato revolucionário.
Preservar o que ainda nos resta também depende da nossa capacidade de reaprender algo que muitos povos nunca esqueceram: não existe futuro possível para a humanidade separado da natureza.
A partir de sexta-feira, eu e Santiago estaremos entre essas pessoas. Suspeito que voltaremos diferentes.
Para saber mais sobre esta experiência: www.aldeiamultietnica.com.br

