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Dia do Funk: gênero resiste a projetos de lei e mantém identidade

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Dia do Funk: gênero resiste a projetos de lei e mantém identidade

“Vai começar a putaria!”, gritou Mr. Catra em um dos funks mais emblemáticos dos anos 2000. Mais de duas décadas depois, o gênero se consolidou no Brasil sem abandonar letras sobre sexo e a realidade das comunidades. Na contramão da explosão de ouvintes, porém, o funk passou a ser alvo de iniciativas legislativas que tentam restringir bailes e a atuação de artistas.

Neste domingo (12/7), o Brasil celebra o Dia Nacional do Funk, criado por lei em 2024. Apesar da comemoração, desde 2019 cresceu o número de propostas legislativas que tentam barrar manifestações culturais ligadas ao gênero. Levantamento da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial aponta que, somente no primeiro semestre de 2025, foram apresentados 63 projetos — quase metade de todas as iniciativas protocoladas desde 2002.

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Tati Quebra Barraco foi uma das pioneiras a levar o funk para o grande público com letras sobre desejo e a realidade das favelas
Anitta se manifesta sobre reunião com Daniel Vorcaro; leia a nota
O funkeiro Wagner Domingues Costa, mais conhecido como Mr. Catra
MC Marcinho posa de óculos escuros
Internautas acusaram a cantora de exagerar nas plásticas
Metrópoles
Kevin o Chris é um dos principais nomes da nova geração do funk e defende o gênero como expressão cultural das periferias
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Kevin o Chris é um dos principais nomes da nova geração do funk e defende o gênero como expressão cultural das periferias

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Tati Quebra Barraco foi uma das pioneiras a levar o funk para o grande público com letras sobre desejo e a realidade das favelas
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Tati Quebra Barraco foi uma das pioneiras a levar o funk para o grande público com letras sobre desejo e a realidade das favelas

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Anitta se manifesta sobre reunião com Daniel Vorcaro; leia a nota
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Anitta se manifesta sobre reunião com Daniel Vorcaro; leia a nota

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O funkeiro Wagner Domingues Costa, mais conhecido como Mr. Catra
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O funkeiro Wagner Domingues Costa, mais conhecido como Mr. Catra

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MC Marcinho posa de óculos escuros
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MC Marcinho posa de óculos escuros

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Internautas acusaram a cantora de exagerar nas plásticas
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Internautas acusaram a cantora de exagerar nas plásticas

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MC Livinho é um cantor brasileiro
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MC Livinho é um cantor brasileiro

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Valesca Popozuda
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Valesca Popozuda

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Pedro Sampaio
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Pedro Sampaio

Parada SP/Divulgação

Uma das propostas de maior repercussão ficou conhecida como Projeto de Lei Anti-Oruam, de autoria da vereadora Amanda Vettorazzo  (União Brasil), de São Paulo. O texto proíbe a prefeitura de contratar shows que façam apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas, associação que a parlamentar costuma fazer ao funk, sobretudo nas redes sociais.


Entenda

  • O Brasil celebra o Dia Nacional do Funk em 12 de julho, criado por lei em 2024.
  • Apesar do crescimento do gênero, aumentaram as propostas legislativas que tentam restringir manifestações ligadas ao funk.
  • Só no primeiro semestre de 2025, foram apresentados 63 projetos relacionados ao tema, segundo levantamento da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial.
  • Apesar disso, o funk foi o gênero que mais cresceu no Spotify mundial em 2025, com alta de 36%, segundo o relatório Loud & Clear.
  • Pesquisadores apontam que a rejeição ao funk repete padrões de perseguição a manifestações culturais periféricas e de matriz africana, como ocorreu com samba e capoeira.
  • Artistas defendem que o gênero vai além das letras sexuais e reúne vertentes como funk consciente e melody.
  • Especialistas afirmam que o preconceito contra o funk está ligado à forma como a sociedade recebe manifestações culturais de grupos periféricos.

“Uma exposição no Museu da Língua Portuguesa exaltando o crime organizado, putaria e tudo que há de ruim no Brasil”, escreveu sobre a mostra Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade. “Estamos pagando para exaltar a cultura de um grupo que ocupa de forma ilegítima o território brasileiro.”

Vettorazzo foi convidada para participar da reportagem, mas não respondeu ao convite do Metrópoles.

O funk carioca surgiu nas comunidades na década de 1970, com letras que retratavam a vivência nos morros do Rio de Janeiro. Movimentos culturais de populações periféricas, no entanto, são alvo de leis restritivas há séculos. As Ordenações Filipinas, legislação portuguesa que vigorou no Brasil, proibiam, em 1603, que pessoas negras “vivessem por si” ou “fizessem bailes”. Já o Código Penal de 1890 criminalizou a prática da capoeira.

Thiagson, doutor em musicologia e estudioso do funk, avalia que o estigma contra o gênero não é novidade, mas uma atualização do racismo estrutural que historicamente perseguiu manifestações culturais de matriz africana e periférica. Segundo ele, o mesmo ocorreu com o samba e a capoeira, hoje reconhecidos como patrimônio da cultura brasileira.

“A passagem do tempo vai legitimando as práticas culturais, mas, como o mesmo processo de exclusão continua acontecendo, vão surgindo outras coisas. Quando o funk for legitimado, vai surgir outra manifestação que ocupará esse lugar, que vai ser rebelde e trazer novas questões”, afirma.

Enquanto ainda enfrenta preconceito dentro e fora das casas legislativas, o funk foi o gênero que mais cresceu no Spotify mundial em 2025 no mundo, com alta de 36%, segundo o relatório Loud & Clear.

Para além da putaria

Um dos principais argumentos usados por críticos do funk é a presença de letras explícitas sobre sexo, característica que ficou conhecida como funk putaria. Artistas ouvidos pelo Metrópoles reconhecem a existência dessa vertente, mas ressaltam que o gênero também reúne diferentes estilos, como o funk consciente e o melody.

Antes da explosão comercial do funk nos últimos 15 anos, Tati Quebra Barraco, de 46 anos, foi uma das primeiras mulheres a alcançar o grande público com sucessos como Boladona (2004). Como artista que canta abertamente sobre desejo, ela reforça que o ritmo também é um espaço para retratar a realidade das favelas.

“O problema é que muita gente reduz o funk à putaria por preconceito. Quando outros gêneros falam de sexo, isso é visto de outro jeito. No funk, essa linguagem sempre foi uma forma de liberdade e de falar a verdade, sem filtro”, opina.

Músicas que falam abertamente sobre sexo têm perdido espaço nas paradas. Levantamento da New Musical Express mostra que apenas 13% das faixas presentes no Top 50 do Spotify em 2026, até o momento, receberam a classificação de conteúdo explícito, ante 74% em 2018. Na contramão dessa tendência, o funk preserva a “putaria” das letras como uma das características mais marcantes.

Kevin o Chris, de 28 anos, colocou Tá OK entre as 25 músicas mais tocadas do mundo em 2023. “Funk é música”, resume. Para ele, assim como acontece em outros estilos, letras sobre sexo refletem experiências dos compositores e também representam uma forma de explorar o próprio corpo por meio da dança, por exemplo.

“O funk não morre se parar de fazer baile de prefeitura, porque o funk é a comunidade. A comunidade nunca vai deixar de ter funk. A comunidade nunca vai acabar, então o funk nunca vai morrer”, diz.

Outro consenso entre os músicos ouvidos é que outros gêneros, como MPB e sertanejo, também abordam o sexo, mas o preconceito recai com mais força sobre o funk. Thiagson avalia que o funk putaria expõe a forma como grupos racializados falam sobre desejo sem recorrer aos filtros adotados pela elite, que adota uma linguagem mais “polida” para cantar sobre desejo.

“Um grupo mais elitizado, branco, tem uma autorização maior para falar de putaria. Não é tão polêmico. Agora, quando um grupo favelado, preto, racializado, fala sobre isso, a recepção é outra”, reflete.

A cineasta Ana Rieper é uma das milhares de admiradoras do funk que não cresceram nas comunidades. Ela dirigiu Massa Funkeira (2025), documentário que aborda como o gênero expressa resistência, desejo e prazer. Para a diretora, o avanço de propostas contra o funk também reflete a força e aceitação popular que o movimento conquistou ao longo dos anos.

“As pessoas querem falar sobre sexo, querem viver as mil questões, meandros, comédias e dramas envolvidos na vida sexual”, reflete. “Uma produção cultural do tamanho do funk, que bota o pé na porta da sociedade, sem concessões e sem moralismos, não é uma coisa simples de se fazer.”

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