Uma pessoa entregava dinheiro em São Paulo, enquanto outra recebia o valor equivalente em Lisboa, Miami ou Assunção. Segundo a Polícia Federal (PF), esse era um dos mecanismos usados pela rede atribuída ao empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, que teria operado como uma espécie de banco clandestino internacional. Ele está foragido desde o último dia 3, quando teve a prisão decretada pela Justiça.
Brasil, Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Argentina e Colômbia aparecem nas operações e negociações descritas em uma decisão da Justiça Federal. De acordo com as investigações, o grupo movimentava reais, dólares e euros por meio de entregas de dinheiro em espécie, transferências bancárias e criptoativos, à margem do sistema oficial de câmbio.





Victor Shimada é considerado foragido
Divulgação/Polícia CivilAmauri Henrique de Oliveira (de camiseta branca, à frente), tio de Victor Shimada (ao fundo, à esq) integram esquema de lavagem de dinheiro bilionário, segundo a PF
Arte Metrópoles/Lara AbreuDinheiro não precisava cruzar fronteira
O sistema era baseado em compensações. Em vez de enviar o dinheiro diretamente de um país para outro, um operador recebia o valor em determinado local e outro integrante liberava o equivalente no destino indicado pelo cliente.
Em uma das conversas analisadas pela PF, um investigado perguntou a Shimada se ele poderia receber em Assunção, no Paraguai, o equivalente a US$ 50 mil (R$ 258 mil) em guaranis (dinheiro paraguaio). Em troca, o cliente receberia reais no Brasil por meio de uma transferência bancária.
Outra tratativa envolvia um cliente que teria 1 bilhão de pesos argentinos depositados na Argentina. A proposta era entregar os pesos gradualmente em Buenos Aires e receber o equivalente em reais no Brasil, usando a cotação do mercado paralelo. O valor ultrapassaria R$ 3,4 milhões.
O documento também descreve entregas de euros em Portugal. Um dos operadores teria recebido € 70 mil (R$ 412.736,45) em Cascais, contado as notas e guardado o dinheiro até que Shimada indicasse o destinatário.
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Planilha nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, uma planilha atribuída ao grupo registrava operações que somavam mais de US$ 7,5 milhões (R$ 38,7 milhões). Os valores estavam distribuídos por cidades como Houston, Chicago, Denver, Atlanta, Cleveland, Nashville, Memphis e Los Angeles.
Os registros indicavam datas, cidades, quantias solicitadas, valores efetivamente contados, taxas de câmbio e saldos. Em uma mensagem, um dos investigados afirmou que havia US$ 2 milhões para retirar em Houston e outros US$ 5 milhões em Chicago.
A Colômbia aparece em um áudio no qual um operador relata ter participado de uma reunião sobre novos valores que deveriam ser recolhidos nos Estados Unidos.
Papel, “azul” e tokens
As mensagens mostram que a rede utilizava diferentes formas de movimentar os recursos. Dinheiro em espécie era chamado de “papel” ou “vivo”, enquanto “azul” seria uma referência a dólares. Os operadores também negociavam tokens e transferiam criptomoedas, principalmente USDT.
Em uma das operações, um investigado enviou inicialmente US$ 2 milhões (R$ 10,3 milhões) em criptomoedas para testar o endereço eletrônico informado. Após a confirmação, transferiu mais de 179 mil USDT (ativo digital que acompanha a cotação do dólar).
Segundo a PF, a combinação entre dinheiro vivo, contas bancárias, empresas e criptoativos permitia que o grupo atendesse clientes em diferentes países e dificultasse o rastreamento dos valores.
Operação Exchange
Shimada é apontado pela PF como o operador financeiro central da estrutura investigada na Operação Exchange. A ação foi deflagrada em 3 de julho para apurar a lavagem de recursos provenientes do tráfico internacional de drogas.
As análises identificaram movimentações superiores a R$ 10 bilhões. A Justiça autorizou o bloqueio e o sequestro de até R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos dos investigados.
O empresário, que foi sancionado pelo governo dos Estados Unidos dois dias antes da operação, não foi localizado durante o cumprimento dos mandados. Fontes da PF afirmaram que a divulgação antecipada do nome e da fotografia dele prejudicou as diligências para prendê-lo.
MPSP desconhece elo com o PCC
As autoridades norte-americanas atribuem a Shimada uma ligação financeira com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O promotor Lincoln Gakiya, principal investigador da facção no Ministério Público de São Paulo, afirmou, porém, que o órgão não possui informações que relacionem o empresário ao grupo criminoso.
A defesa de Shimada nega envolvimento com organizações criminosas e afirma que analisará os elementos da investigação.

