Belo Horizonte – O latrocínio de um casal por uma diarista em um bairro de classe média alta da capital mineira gerou uma crise social. Os patrões estão com medo de contratar prestadores de serviço e profissionais como faxineiras estão com mais dificuldades para conseguir trabalho.
A reconstituição do crime nessa quarta (8/7) virou o assunto do bairro São Pedro e expôs o problema. Vizinhas do casal assassinado por Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, afirmaram que, após o crime, passaram a desconfiar mais da contratação de diaristas e outros prestadores de serviço.
Algumas vizinhas disseram à reportagem do Metrópoles que pretendem exigir referências antes de permitir a entrada de profissionais em casa. Uma das vizinhas relatou estar com muito medo, inclusive porque precisará contratar alguém, pois a prestadora de serviço que está com ela há 40 anos vai se aposentar. “Como que eu vou mudar de ajudante agora. Como que eu vou contratar outra pessoa?”, questiona uma moradora do bairro.
Ao mesmo tempo, diaristas, que acompanharam, na tarde dessa quarta-feira (8/7), a movimentação durante a reconstituição do duplo latrocínio, lamentaram que o caso tenha afetado toda a categoria. “Ninguém confia mais”, afirmou uma profissional com cerca de 20 anos de experiência.
Mesmo com todos os cuidados, ainda assim, a preocupação é grande. O caso da diarista Paola mostra exatamente isso, pois ela foi indicada por um parente do casal, para quem Paola já prestava serviço há algum tempo e não havia desconfiança em relação à conduta dela.
Reconstituição da morte do casal
A reconstituição da morte do advogado Cláudio Atala Inácio, de 75, e da empresária aposentada Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, é considerada uma das etapas finais do inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). O procedimento durou cerca de três horas e foi acompanhado por investigadores, peritos, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), imprensa e dezenas de moradores que se concentraram em frente ao edifício.
Chegada da diarista foi marcada por hostilidade
A movimentação começou no início da tarde, quando Paola chegou ao prédio escoltada por policiais e usando algemas. Assim que desceu da viatura, foi recebida sob forte hostilidade.

Moradores, vizinhos e curiosos, que acompanhavam a movimentação em frente ao prédio, passaram a gritar palavras como “assassina”, “bandida” e “vagabunda”. Alguns também pediam que o cabelo da investigada fosse cortado e desejavam que ela “ardesse no fogo do inferno”.
Durante toda a tarde, a presença da imprensa e o isolamento da área chamaram a atenção de quem passava pelo local. Em alguns momentos, Paola também foi vista na janela do apartamento durante a reprodução dos fatos, conversando com investigadores responsáveis pelo procedimento.
Investigada se emocionou durante reprodução dos fatos
Após o encerramento da reconstituição, o advogado de defesa Bruno Corrêa afirmou que a participação da cliente foi marcada por forte abalo emocional.
Segundo ele, Paola precisou interromper o procedimento em diversos momentos devido ao nervosismo e à dificuldade para recordar parte dos acontecimentos.
“A Paola não estava tranquila. Em diversos momentos nós tivemos que pausar a reprodução dos fatos por conta de nervosismo e emoção”, afirmou.

Ainda conforme o advogado, em alguns momentos a investigada não conseguiu reconstruir toda a dinâmica do que aconteceu dentro do apartamento. Ele disse, porém, que a reprodução simulada é importante para registrar tanto a versão apresentada pela investigação quanto os pontos contestados pela defesa.
Bruno Corrêa também prestou solidariedade aos familiares das vítimas e afirmou que continuará trabalhando durante toda a instrução do processo.
Defesa pede incidente de insanidade mental
Depois da reconstituição, a defesa informou que protocolou um pedido para que a Polícia Civil represente pela instauração do incidente de insanidade mental da investigada, conforme prevê o Código de Processo Penal.
Segundo o advogado, o requerimento foi fundamentado em documentos médicos, receituários, histórico de atendimentos em unidades de saúde, relatos de familiares, episódios de confusão mental, esquecimentos e pensamentos suicidas.
Ele ressaltou, entretanto, que apenas médicos peritos poderão avaliar a condição psicológica da investigada e definir eventual incapacidade.
Comoção marcou saída da investigada
Se a chegada já havia sido cercada por revolta, a saída da diarista provocou uma reação ainda mais intensa.
Quando deixou o prédio escoltada por policiais, Paola voltou a ser alvo de gritos, xingamentos e pedidos de justiça feitos por moradores e pessoas que acompanharam toda a movimentação ao longo da tarde.
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A comoção tomou conta da rua e refletiu o sentimento de indignação provocado por um dos crimes de maior repercussão em Belo Horizonte neste ano.
Investigada presta depoimento após reconstituição
Após participar da reconstituição do crime na tarde desta terça (8/7), Paola foi levada para o Departamento de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri), na Gameleira, região Oeste da capital mineira, para prestar depoimento. No início da noite, a diarista foi levada pelos agentes da Polícia Civile Penal ao presídio José Abranches Gonçalves, em Ribeirão das Neves, na Grande BH, onde cumpre prisão preventiva.
Relembre o caso
Segundo as investigações da Polícia Civil, Paola Stefany trabalhava pela primeira vez na residência do advogado Cláudio Atala e sua esposa Maria Clotilde, quando decidiu cometer o crime, no dia 29 de junho.
A investigação aponta que ela levou comprimidos de clonazepam até o apartamento, dopou o casal, esperou que as vítimas perdessem a capacidade de reação e, em seguida, desferiu dezenas de golpes de faca.
Após os assassinatos, a diarista ainda tomou banho, vestiu roupas da idosa e deixou o imóvel levando joias, relógios de luxo, celulares, R$ 18 mil em dinheiro, tênis, bracelete e outros objetos de valor.
Nos últimos dias, a investigação ganhou novos elementos. Peritos localizaram a faca utilizada nos homicídios após uma nova perícia no apartamento com auxílio de luminol, que revelou vestígios de sangue invisíveis a olho nu.
Além disso, parte dos objetos roubados foi recuperada pela Polícia Civil. Entre os materiais apreendidos estão relógios, um bracelete e dois pares de tênis, entregues espontaneamente por compradores que adquiriram os itens após o crime.

As investigações também apuram se Paola pode ter utilizado o mesmo modo de agir em outros furtos e roubos praticados durante serviços como diarista. Pelo menos duas pessoas procuraram a polícia após reconhecerem a suspeita e relatarem desaparecimento de dinheiro e objetos de valor.
Com a realização da reconstituição, a expectativa é que a Polícia Civil conclua o inquérito nos próximos dias e encaminhe o caso à Justiça.
Antes disso, a corporação deverá analisar o pedido da defesa para instauração do incidente de insanidade mental, que, se acolhido, resultará na realização de perícia médica para avaliar as condições psicológicas da investigada.

