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Tratar a bola como "Excelência" enterrou a Seleção

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Tratar a bola como "Excelência" enterrou a Seleção

Eu tinha entre quatro e cinco anos de idade quando ouvi falar pela primeira vez em Gentil Cardoso. À época, ele já era um técnico famoso por ter comandado o Fluminense, o Flamengo, o Vasco da Gama e o Botafogo, além de ter descoberto um garoto de pernas tortas chamado Mané Garrincha.

Gentil fora contratado para levar o Sport Club do Recife ao título do Campeonato Pernambucano em 1955, o ano do seu cinquentenário, e conseguiu. Como filho e neto de remadores do Sport, era esse o time pelo qual eu torcia — e ainda torço.

Gentil Cardoso antecipou alguns fundamentos do futebol que se joga hoje em várias partes do mundo. Ele fez isso cunhando frases que se tornaram inesquecíveis, como:

“A bola é de couro, o couro vem da vaca, a vaca gosta de grama. Então joga rasteiro, meu filho.”
“O craque trata a bola de você, não de excelência.”
“Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência.”
“Quem não faz, leva.”
O VAR remeteu para o arquivo outro ensinamento que Gentil Cardoso gostava de repetir: “Daqui pra frente, quero todo mundo indo pra cima e chutando a bola pra dentro da área de qualquer ângulo. Sabe como é: contra time pequeno, bola na bunda é pênalti.”

Mas o chute para dentro da área de qualquer ângulo sobreviveu. Ele continua a ser praticado em momentos de desespero e, principalmente na Europa, com jogadores de estatura gigante.

Não foi o gigante da Noruega que tirou o Brasil da Copa com seus dois gols. Foi o Brasil que se retirou da Copa por se negar a ficar com a bola, tratando-a como “excelência”, e não como “você”. O time renunciou a dominá-la.

A seleção teve pelo menos três grandes oportunidades de marcar e as perdeu. Deu-se ao luxo de perder um pênalti logo no início da partida. Resultado: quem não faz, leva. Saiu de campo humilhado por um adversário que não era lá grande coisa.

Pudera: depois de um jejum de 26 anos sem título, o Brasil, antigo país do futebol, também não era lá grande coisa. Ou melhor: era inferior a ele mesmo em Copas passadas. Ninguém mais o teme.

O peso de sua camisa agora só abate quem a usa, não quem a enfrenta. E assim será, no mínimo, por mais quatro longos, longuíssimos anos. Espero ver a redenção do Brasil antes de completar 81 anos de idade.

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