“O BNDES está entregando muito ao Brasil. A instituição é uma casa íntegra, criada em 1952, quando havia a compreensão de que o planeta precisava se desenvolver de forma mais equilibrada e que a América Latina precisava se industrializar. Nos últimos três anos e meio, aprovamos R$ 863 bilhões em crédito para a economia brasileira”.
Foi com essa mensagem que o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, abriu o evento “BNDES 74 anos: um novo banco de desenvolvimento para a construção de um novo mundo”, promovido na última segunda-feira (22/6), em comemoração ao aniversário da instituição.
Na cerimônia, que contou com a participação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do vice-presidente, Geraldo Alckmin, entre outras autoridades, Mercadante também anunciou um aporte de R$ 140 bilhões à Nova Indústria Brasil (NIB), em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Com o anúncio, a NIB alcançará mais de R$ 750 bilhões em recursos disponíveis para investimentos entre 2023 e 2026.
“As nossas metas já batemos ainda no fim do ano passado quando injetamos R$ 300 bilhões na NIB. Agora, Finep e BNDES anunciam mais R$ 140 bilhões para a indústria brasileira”, destacou o presidente do Banco. “São investimentos que fortalecem a soberania produtiva em áreas decisivas para o futuro como fertilizantes, inteligência artificial, biofármacos e minerais críticos, gerando inovação, empregos qualificados e maior competitividade para a economia.”
Mercadante ressaltou ainda que os ativos do Banco, que somavam cerca de R$ 650 bilhões há 3,5 anos, chegaram a R$ 1,015 bilhão no dia 31 de maio. “Os ativos são o que dão estabilidade à instituição financeira.”
Em sua fala, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, cumprimentou brevemente os participantes do evento e passou a palavra ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que parabenizou os funcionários do BNDES e afirmou que os bons resultados obtidos pelo Banco se devem, em especial, à retomada da confiança dos técnicos durante a atual gestão da empresa.
Ele defendeu ainda que os setores público e privado sigam cumprindo os papéis para o desenvolvimento do país.
“Estamos assistindo hoje a uma demonstração de que o Brasil não pode mais comportar aquele discurso atrasado que opõe a competência pública à competência privada. O que é público e funciona tem de continuar público e funcionando. O que é privado e funciona tem que continuar sendo privado e funcionando. O que importa é que os dois produzam. O que é público e funciona bem precisa continuar sendo valorizado.”
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
R$ 450 milhões em crédito de carbono
Durante a celebração dos 74 anos, o BNDES também anunciou os vencedores do primeiro leilão do ProFloresta+, programa de créditos de carbono para restauração da Amazônia. Foram selecionadas três empresas desenvolvedoras de projetos: Systemica, brCarbon e re.green.
O leilão prevê a aquisição, pela Petrobras, de 5 milhões de créditos de carbono originados de projetos de restauração ecológica com espécies nativas no bioma amazônico.
A iniciativa deverá mobilizar cerca de R$ 450 milhões em investimentos, gerar 6,3 mil empregos verdes, viabilizar o plantio de mais de 25 milhões de árvores nativas e capturar 5 milhões de toneladas de carbono.
BNDES e Petrobras firmaram ainda parceria para construção de iniciativas em pesquisa e desenvolvimento relacionadas a minerais críticos e estratégicos vinculados às cadeias de transição energética e de óleo e gás.
O instrumento permitirá a troca de informações e realização de análises das principais lacunas de capacidade produtiva ou tecnológica.
“Nenhum país vai liderar a indústria do futuro sem dominar o conhecimento sobre seus recursos estratégicos e tecnologias aplicadas. Analisar a capacidade produtiva de minerais críticos é o primeiro passo para desenvolver oportunidades de investimento, agregar valor às nossas riquezas naturais e posicionar o Brasil nas cadeias globais de maior conteúdo tecnológico.”
Aloizio Mercadante, presidente do BNDES
85 mil e-bikes para entregadores
Ainda no evento de aniversário, o BNDES anunciou um financiamento de R$ 340 milhões para a empresa Tembici adquirir até 85 mil bicicletas elétricas (e-bikes) que serão alugadas a entregadores de plataforma digitais com custo 25% menor do que o atual.
Com recursos do Fundo Clima, o projeto inovador de micromobilidade urbana combina relevante impacto social e climático. Atualmente, 5 mil e-bikes estão disponíveis para locação por entregadores no país.
“São 85 mil bicicletas elétricas que vamos disponibilizar. A parte social é ainda mais importante, porque o menino que entrega hoje de bicicleta vai para a elétrica. Se quiser comprar, vai comprar com desconto. Se quiser arrendar, vai pagar apenas R$ 71,25 por semana e fica com a bicicleta elétrica no final de semana”, afirmou o presidente Aloizio Mercadante. “Isso vai aumentar muito o retorno por corrida, a remuneração e muito mais qualidade em relação ao esforço que o entregador precisa fazer.”

BNDES mais estratégico
Também presente na celebração, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ponderou que, na atual gestão, o Banco recuperou seu papel estratégico na indução do crescimento econômico e do desenvolvimento nacional.
Ao destacar o apoio à inovação, foi anunciado que, em 2026, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) receberá R$ 440 milhões em recursos. A expectativa é que o aporte ajude a alavancar investimentos privados e viabilize a contratação de mais de 500 projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em parceria com empresas.
Já o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, comentou sobre a atuação conjunta da pasta com o BNDES e complementou que a retomada do protagonismo do Banco tem sido perceptível na formulação e execução das políticas públicas.
“Interagimos diariamente com o BNDES e percebemos uma presença cada vez mais próxima do Banco nas estratégias de desenvolvimento e no planejamento do país. Os resultados são visíveis, com o crescimento da economia e a retomada da indústria”, afirmou.
O ministro Marcio Elias Rosa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), citou a importância dos bancos públicos de fomento para o crescimento econômico e a transformação produtiva do país.
Segundo ele, é por meio da harmonia e da convergência entre diferentes instituições que se constrói um futuro melhor. “Nenhum país pode abrir mão de um banco de desenvolvimento.”
Rosa ressaltou ainda o papel do Banco no financiamento de setores considerados essenciais para o desenvolvimento nacional. Para ele, o BNDES atua como um catalisador do investimento privado e um importante indutor do desenvolvimento sustentável, especialmente em áreas estratégicas da economia brasileira.

Transição energética
Além dos anúncios, o evento contou com uma série de debates na parte da tarde, sobre áreas fundamentais para o desenvolvimento do país em que o Banco atua.
Luciana Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do Banco, ressaltou que o BNDES hoje é pragmático e reconhece os papéis dos setores público e privado. “Retiramos o subsídio da taxa de juros para que fossem alocados na inovação, restauração e nas novas tecnologias.”
De acordo com ela, o BNDES atua no mercado de capitais com o objetivo de ampliar a escala de atuação e catalisar o investimento privado em projetos estratégicos para o Brasil.
Já Luiz Trabucco, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, ressaltou que, “ao longo de décadas, o BNDES esteve presente na expansão da infraestrutura e no fortalecimento da competitividade”.
Erasmo Couto, CEO da De8 Energia, afirmou que a empresa sempre manteve proximidade com o BNDES em projetos estratégicos e destacou o papel do banco em viabilizar investimentos ao longo dessa trajetória. Segundo ele, o apoio da instituição foi fundamental para a realização de diferentes iniciativas.
Miguel Setas, CEO da Motiva, destacou a importância do BNDES para a empresa – com financiamento de R$ 10,75 bilhões do Banco, a empresa está executando a modernização da Rodovia Presidente Dutra, maior projeto rodoviário da história do país. Setas afirmou ainda que o país vive um momento de forte expansão dos investimentos.
“Dobramos os aportes em infraestrutura em áreas como transporte, logística, energia elétrica, saneamento e telecomunicações. Essa é uma excelente notícia, e temos consciência de que podemos ir além, chegando a cerca de R$ 600 bilhões em investimentos em infraestrutura anualmente”, contou.
Investimentos internacionais
Marcos Almeida, managing partner da Brookfield, há 27 anos no país, elogiou a iniciativa do BNDES voltada ao financiamento de projetos de clima e transição energética. Para ele, a chamada pública lançada pelo Banco neste ano, com o compromisso inicial de investir R$ 1 bilhão no setor, tem potencial para mobilizar até R$ 15 bilhões em investimentos.
O executivo destacou ainda que a Brookfield decidiu ampliar a participação na iniciativa e se comprometeu a aportar mais R$ 3 bilhões. “Isso só foi possível porque temos o BNDES ao nosso lado, atuando como parceiro e indutor de investimentos.”
Managing director e head de Real Assets para a América Latina da CPP Investments, Ricardo Szleif destacou a tradição brasileira na atração de investimentos privados para projetos de interesse público. Segundo ele, o país possui um histórico de décadas de convivência bem-sucedida entre o capital privado e os modelos de parceria público-privada, fator que contribui para ampliar os investimentos em infraestrutura e desenvolvimento econômico.
“Do ponto de vista do mercado, diria que o trabalho que vem sendo feito pelo BNDES é extraordinário. Saímos de cerca de R$ 170 bilhões em investimentos há cinco anos para um patamar próximo de R$ 300 bilhões atualmente”, afirmou Flávio Souza, CEO do Itaú BBA, durante o evento.
BNDES: verde por natureza, azul por inspiração
O conselheiro do BNDES e cientista Carlos Nobre destacou o papel dos biomas brasileiros no combate às mudanças climáticas e defendeu soluções baseadas na natureza, ressaltando a atuação do Banco no financiamento de iniciativas de preservação ambiental.
Ele chamou a atenção para o fato de que os últimos três anos registraram temperatura média global de 1,5°C acima dos níveis históricos, limite que a comunidade científica buscava evitar há mais de três décadas.
Acompanhando o raciocínio, Bernardo Strassburg, fundador da re.green, defendeu o papel central do BNDES no desenvolvimento do país e afirmou que o setor de restauração ecológica deve muito ao Banco, especialmente por apoiar iniciativas pioneiras há mais de 25 anos.
De acordo com ele, o Brasil reúne todas as condições para liderar globalmente a restauração ambiental, com territórios de enorme potencial.
Já Valmir Ortega, CEO da Belterra Agroflorestas, falou sobre a operação de financiamento do BNDES ao sistema agroflorestal de cacau de responsabilidade da empresa. Ele ressaltou os desafios envolvidos e destacou a dedicação da equipe do BNDES. “É um time que bota a mão na massa, diferente de um banco ao qual você entrega o projeto e depois descobre se ele foi aprovado ou não”, comentou.
Nesse contexto, a diretora socioambiental do banco de fomento, Tereza Campello, destacou os resultados da estratégia BNDES Florestas, que já mobilizou R$ 14,1 bilhões para projetos ambientais.

Neoindustrialização
José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, relembrou o anúncio de mais recursos para a Nova Indústria Brasil, destacando a articulação entre o Banco e a Finep para atuarem de forma conjunta no fortalecimento da indústria brasileira.
Estão previstos R$ 140 bilhões em recursos para este ano, destinados ao apoio à indústria, à inovação e às iniciativas de descarbonização da economia.
Ao citar a participação da Finep no anúncio (com R$ 37,5 bilhões), o presidente da entidade, Luiz Antônio Elias, avaliou que a iniciativa ocorre em um contexto estratégico, marcado pelo redesenho das cadeias globais de produção e pelas transformações em curso na economia internacional.
Já André Roncaglia, diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), defendeu que o Brasil fortaleça a resiliência econômica. Para ele, o conceito não se restringe à capacidade de reação a um choque localizado, mas engloba também a transformação estrutural das redes produtivas para responder a choques sistêmicos. Por fim, avaliou que os países bem-sucedidos não serão exportadores de commodities verdes, mas de soluções verdes, e que o BNDES contribui fortemente para o Brasil seguir nesse caminho.
Digital e Inclusivo
Maria Fernanda Coelho, diretora de Crédito Digital para MPMEs e Gestão do Fundo Rio Doce do BNDES, destacou a importância do acesso ao crédito para micro, pequenas e médias empresas. De acordo com ela, o financiamento é um instrumento fundamental para fortalecer os negócios, ampliar a capacidade de investimento, estimular a inovação e gerar emprego e renda.
A diretora ressaltou ainda que a ampliação do crédito, especialmente por meio de soluções digitais e mecanismos de apoio direcionados às micro, pequenas e médias empresas, contribui para aumentar a competitividade e impulsionar o desenvolvimento econômico em diferentes regiões do país.
Adriano Laureano, chefe da Assessoria Especial do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, ressaltou que o BNDES tem papel de protagonismo para garantir que as políticas públicas cheguem à ponta, especialmente aos pequenos negócios.
Segundo ele, as cooperativas funcionam como plataformas de tecnologia e distribuição de crédito, ampliando o alcance das políticas de fomento. Laureano destacou ainda que cada real financiado gera impacto direto na renda e na geração de emprego, reforçando a importância do crédito direcionado para o fortalecimento da economia local e dos pequenos empreendimentos.
Tânia Regina Zanella, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), afirmou que a agenda de inovação e tecnologia, aliada ao uso de plataformas de integração, tem potencial para ampliar significativamente o alcance das cooperativas em todo o país.
Para ela, onde há presença de cooperativas, observa-se uma maior capilaridade do desenvolvimento, com impactos positivos em indicadores sociais e econômicos. Nesses territórios, há evidências de melhores índices de desenvolvimento humano (IDH) e maior dinamismo no Produto Interno Bruto (PIB), reforçando o papel do cooperativismo no fortalecimento das economias locais.
Presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, defendeu também que os pequenos negócios exerçam um papel fundamental na economia brasileira. Segundo ele, o desempenho do setor tem sido positivo, refletindo o dinamismo do empreendedorismo no país.
Soares destacou que, até abril deste ano, foram abertas cerca de 2 milhões de empresas, o que demonstra a força dos pequenos empreendimentos na geração de atividade econômica. Ele acrescentou que a economia segue aquecida, impulsionada em grande parte por esse segmento.

