A Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo abriu uma investigação sobre o hacker que negocia com o Ministério Público Federal (MPF) um acordo de colaboração para delatar policiais envolvidos em um suposto esquema de espionagem.
No último dia 12 de junho, Patrick Brito, que vive na Sérvia e tenta evitar sua extradição para o Brasil, foi incluído na lista de difusão vermelha da Interpol. Dois meses antes, em abril, a Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria havia instaurado o procedimento, que corre em segredo de Justiça.
A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública (SPP) sobre por que o caso é apurado pelo órgão interno da Polícia Civil, que tem como atribuição investigar crimes envolvendo policiais civis. A pasta informou que Patrick Brito é alvo por “suposta prática do crime de coação no curso do processo“.
No entanto, a decisão que determinou a abertura do procedimento em questão, ao qual o Metrópoles teve acesso, não cita o processo que estaria sendo alvo de coação, fazendo apenas menção a mensagens atribuídas ao hacker enviadas à cúpula da SSP. As conversas são descritas como “ameaçadoras“.
“O Artur Dian colocou o Cotait de volta no cargo. Perfeitamente, eu tenho uma carta na manga contra o Tarcísio. Vou soltar e vai custar seu cargo”, teria escrito Patrick Brito ao secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, em 27 de março.
A mensagem faz referência ao delegado Carlos Henrique Cotait, que naquele dia voltou a chefiar a Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Araçatuba por decisão do delegado-geral Artur Dian. Cotait havia ficado cerca de um ano e meio longe do cargo, ocupando funções administrativas, enquanto era alvo de uma apuração preliminar instaurada com base nas acusações do hacker.
Patrick Brito diz ter sido cooptado pela equipe do delegado para invadir dispositivos de investigados e obter provas de forma ilegal. O caso veio à tona após denúncia feita por um alvo da Operação Raio-X, deflagrada em agosto de 2020 contra suposto desvio de dinheiro em contratos entre prefeituras e organizações sociais.
Após ter o celular apreendido por policiais, o médico Franklin Cangussu Sampaio, que era ligado ao ex-governador Márcio França (PSB), atual pré-candidato a vice-governador de São Paulo na chapa de Fernando Haddad (PT), passou a ser extorquido (leia mais abaixo). Mais tarde, descobriu-se que Patrick Brito seria o responsável pelo crime. O hacker disse ter conseguido as informações usadas para invadir o dispositivo do médico com a equipe de Cotait.
“Comentário pejorativo”
Ao justificar a instauração do procedimento na Corregedoria, o delegado Kleber de Oliveira Granja, da Divisão de Crimes Funcionais, afirma que o autor das mensagens “elabora conteúdo ameaçador direcionado ao Delegado Geral de Polícia, ao Secretário da Segurança Pública e ao Governador do Estado de São Paulo“.
Na decisão, a autoridade policial descreve prints que foram juntados ao procedimento. Em um deles, diz que há “comentário pejorativo” sobre a atuação da Corregedoria e na recondução do delegado Cotait.




Mensagens supostamente enviadas por Patrick Brito
ReproduçãoMensagens supostamente enviadas por Patrick Brito
ReproduçãoMensagens supostamente enviadas por Patrick Brito
ReproduçãoEntre as medidas requisitadas pelo delegado, estão a qualificação do hacker Patrick Brito e a identificação de sua linha telefônica, além da decretação de segredo de Justiça.
Quem é o “hacker de Araçatuba”
- Patrick Brito foi preso pela primeira vez em 22 de janeiro de 2021, em Araçatuba, por invadir o celular do então prefeito da cidade, Dilador Borges (PSDB). Aos 27 anos, o hacker tentou extorquir o político, pedindo R$ 70 mil para não divulgar informações comprometedoras.
- Após a prisão, ele teria sido chamado para uma conversa com o delegado Carlos Henrique Cotait, na sede da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic).
- Patrick Brito afirma que, na ocasião, o policial teria prometido “aliviar” no inquérito sobre as extorsões, caso ele ajudasse a “prender pessoas” em outras apurações. O rapaz teria concordado e deixou a delegacia com R$ 10 mil e seu passaporte, que haviam sido apreendidos.
- O hacker diz que, a partir desse momento, passou a atuar para a equipe de Cotait, indo algumas vezes à delegacia para trocar informações sobre investigados e depois colaborando à distância, após se mudar para a Sérvia.
- Ele afirma, inclusive, que era remunerado pelos serviços, por meio da entrega de envelopes com dinheiro deixados na casa de sua mãe, na periferia de Araçatuba.
- Com o objetivo de comprovar sua relação financeira com os policiais, juntou a diferentes inquéritos um comprovante de transferência bancária de R$ 60 feita pela investigadora Cindy Orsi Nozu, braço direito do delegado, para uma conta da avó de Patrick.
- Em áudio enviado a um colega em 2022, a mulher disse que fez o depósito porque ficou “com dó” de Patrick Brito. Segundo ela, o hacker estava “dormindo na rua” por não pagar o aluguel.
- A transcrição da gravação consta de um outro inquérito, da Polícia Federal, que apura uma suposta fraude cometida pela investigadora, com ajuda do hacker, em um concurso em que ela pretendia ser aprovada como delegada da instituição.
Márcio França como alvo
A invasão do celular do médico Franklin Cangussu, que fez com que Brito fosse descoberto, teria ocorrido a partir de uma determinação do delegado Carlos Henrique Cotait, como indicam os prints de conversas entre o hacker e a investigadora Cindy Orsi Nozu, hoje delegada da PF. Ela supostamente teria dado orientações para que Brito invadisse o dispositivo de suspeitos, inclusive do ex-governador Márcio França.
“Levanta tudo o que você conseguir dele e me avisa”, escreveu a policial. Questionada por Brito, a mulher disse que essa teria sido uma determinação de Cotait: “Foi ele quem falou para te passar”.
Dias depois, após o hacker enviar uma série de informações sobre Cangussu, Cindy diz que estava usando o material para fundamentar um mandado contra o médico, com o objetivo de atingir o então governador Márcio França.
“Já estou escrevendo um relatório que já passou de cinquenta páginas e a gente vai usar para pedir a prisão preventiva do Cangussu para ver se ele delata o Márcio França”, afirmou, segundo os prints das mensagens entregues pelo hacker. Ela ainda teria sugerido que Brito hackeasse o próprio político: “Será que não dá para hackear o Márcio França direto, haha”.
Além de ter os dispositivos invadidos, Cangussu passou a ser extorquido pelo hacker e começou a desconfiar do envolvimento dos policiais que aprenderam seu celular. Ele, então, registrou uma denúncia na Divisão de Crimes Cibernéticos (DcCiber).
Ao descobrir a existência desse inquérito, que defendeu a instauração de um procedimento na Corregedoria, a equipe de Cotait fez um relatório dizendo que Brito havia invadido um drive usado pela polícia e tido acesso a arquivos sigilosos. Mais tarde, o delegado colocaria a culpa no agente Edison Rodrigues, com base em uma foto tirada dentro da delegacia da tela do celular de Cangussu, que teria possibilitado hackeamentos.

