O maior hack de criptomoedas da história começou com um ensaio.
Enquanto as negociações seguiam na Binance no meio da semana, hackers executavam silenciosamente sequências de código em contas que controlavam na blockchain Ethereum — apenas alguns dólares por vez.
Segundo analistas de cibersegurança, eles estavam testando um programa projetado para tomar o controle de contas pertencentes à maior exchange de criptomoedas do mundo e desviar seus ativos para outros endereços.
Pouco depois das 16h de quinta-feira, no horário de Nova York, eles atacaram.
Em pouco tempo, os invasores drenaram mais de US$ 6 bilhões de carteiras em pelo menos quatro blockchains diferentes, desencadeando um esforço mundial para conter os danos.
De Nova York a Abu Dhabi e Kiev, pesquisadores de segurança e executivos da Binance correram para rastrear o dinheiro roubado, congelar contas e entender como os atacantes invadiram a exchange e realizaram um assalto que abalou a confiança na indústria cripto, enquanto ela tenta conquistar maior aceitação no mercado financeiro tradicional.
“É o maior assalto a banco da história da humanidade”, disse Ari Redbord, chefe global de políticas e assuntos governamentais da TRM Labs, uma empresa de análise de blockchain.
A empresa de Redbord foi uma das várias que se mobilizaram após o início do ataque.
“Eu literalmente não dormi e não parei.”
Enquanto a Binance dizia publicamente na sexta-feira que poderia facilmente reembolsar quaisquer perdas do ataque, funcionários expressavam dúvidas em conversas privadas sobre se receberiam bônus este ano, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.
Ataque à Binance surpreendeu até veteranos do mercado cripto
A indústria cripto não é estranha à ação de agentes mal-intencionados.
Há apenas um mês, a exchange de criptomoedas Bitget foi alvo de um ataque cibernético que drenou US$ 388 milhões. Em fevereiro de 2025, hackers roubaram quase US$ 1,5 bilhão da exchange de criptomoedas Bybit.
Mas a dimensão do ataque desta semana chocou até mesmo veteranos do setor.
Assim que o exploit foi desencadeado, Taylor Monahan, que trabalha em Los Angeles como pesquisadora na empresa sem fins lucrativos SEAL, estava em um grupo de chat com outros investigadores de cripto quando alguém da empresa de segurança blockchain zeroShadow enviou uma mensagem sobre transações estranhas na Binance.
“Vou continuar otimista de que está tudo bem”, Monahan disse a si mesma.
Mas ela sabia que, se as coisas não estivessem bem, seriam muito ruins.
“É tipo um hack — tipo, um bem grande.”
Às 16h38, Monahan suspeitou do pior e entrou em contato com a Tether, empresa que emite a stablecoin lastreada em dólares USDT.
“No fundo, sabíamos que era um hacking”, disse ela.
A Tether respondeu imediatamente, mas não reconheceu que havia uma invasão. Menos de 30 minutos depois, a empresa iniciou o processo de congelamento de transações envolvendo seus tokens, assim como a Circle, emissora da stablecoin USDC.
Binance monta ‘sala de guerra’ com cerca de 100 pessoas
Yi He, cofundadora e co-diretora executiva da Binance, estava em casa em Abu Dhabi quando percebeu pela primeira vez que algo estava errado.
A executiva, que está grávida de sete meses, havia saído do trabalho e estava navegando pelo X antes de ir dormir, por volta das 0h30 em Abu Dhabi, às 16h30 em Nova York.
Postagens na rede social a alertaram sobre problemas.
Alarmada, ela voltou ao sistema e viu que as equipes de segurança e carteira da Binance — que têm poder para agir em ataques sem a aprovação dos executivos — já estavam trabalhando para tentar evitar mais perdas.
Em poucos minutos, a empresa criou uma “sala de guerra” que cresceu para cerca de 100 pessoas ao redor do mundo.
Yi e centenas de funcionários da Binance permaneceram acordados durante a noite, coordenando esforços dentro da empresa, com outras companhias de cripto e com autoridades, incluindo o Federal Bureau of Investigation (FBI) e o Serviço Secreto dos EUA.
Tether e Circle congelam mais de US$ 2,3 bilhões
Às 17h15, a Binance reconheceu publicamente estar ciente de um “possível problema de segurança” e informou que investigava a suposta violação.
Às 17h18, o CEO da Circle, Jeremy Allaire, anunciou que a empresa havia congelado mais de US$ 800 milhões associados a um “potencial exploit envolvendo a Binance”.
Sete minutos depois, o CEO da Tether, Paolo Ardoino, anunciou que sua empresa havia congelado mais de US$ 1,5 bilhão “relacionado a um possível ataque à exchange da Binance”.
Logo, empresas de criptomoedas de todos os tipos começaram a inundar as redes sociais para assegurar que estavam seguras.
Concorrentes da Binance como Kraken, Coinbase e Bybit afirmaram que não sofreram danos.
Empresas apontam Coreia do Norte como responsável pelo ataque
As empresas de inteligência blockchain TRM Labs, Chainalysis e Elliptic afirmaram que a Coreia do Norte está por trás do assalto.
Elas observaram fundos roubados da Binance se misturando com criptomoedas apreendidas no ataque à Bitget, que pesquisadores já haviam atribuído à República Popular Democrática da Coreia.
A Chainalysis classificou o incidente como “o maior da história das criptomoedas e um dos maiores crimes financeiros de todos os tempos”.
Ainda assim, mesmo com o assalto ganhando maior repercussão, os hackers continuaram drenando fundos da Binance.
O código usado pelos atacantes lhes deu acesso a contas em blockchain pertencentes à Binance e permitiu que as esvaziassem enquanto os sistemas da exchange continuavam reabastecendo essas contas.
As estimativas do valor roubado aumentaram, chegando posteriormente a US$ 6,3 bilhões.
Hack ocorre em momento de maior aproximação entre cripto e finanças
O ataque ocorre em um momento inoportuno para uma indústria que recebe apoio sem precedentes do governo dos EUA.
A administração Trump tem pressionado pela adoção generalizada de criptomoedas e da tecnologia blockchain, inclusive por meio de seus reguladores.
Em setembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA aprovou uma regra que permite que ações de empresas públicas sejam negociadas em blockchains.
O ataque à Binance pode minar esses esforços, temem especialistas.
Odysseas Lamtzidis, fundador da empresa de segurança blockchain Phylax Systems, estava em um avião viajando de Nova York para Miami quando viu um chat no Telegram discutindo o ataque.
“Foi muito assustador. Lembro de respirar pesado, porque havia enormes quantidades de capital circulando e as pessoas no avião perguntavam se eu estava bem”, disse ele.
Ele observou os atacantes passarem de uma carteira para outra e continuou publicando no X para alertar os usuários.
“Acho isso muito assustador para as organizações e para a adoção de cripto, porque esse tipo de evento deveria ser impossível de acontecer, não improvável”, disse. “Ainda é um Velho Oeste.”
Binance promete cobrir perdas e reforçar segurança
Yi e seu co-CEO, Richard Teng, enfrentaram na sexta-feira o potencial dano reputacional que o ataque poderia causar.
Em um vídeo publicado no X, Yi prometeu que a Binance continuaria trabalhando com as autoridades para encontrar os agressores.
A empresa prometeu reembolsar qualquer usuário que tenha perdido fundos no hack.
“Não vamos deixar os hackers tirarem o impulso que essa indústria merece”, disse ela em seu vídeo, falando em mandarim.
“Claro, há áreas em que poderíamos ter feito melhor. Deveríamos ter investido mais em segurança antes e estabelecido padrões mais rigorosos. Daqui para frente, não vamos nos segurar, seja investindo em segurança ou combatendo hackers.”
Questionado sobre as preocupações com os bônus dos funcionários, um porta-voz disse que a Binance também não espera impacto nesse aspecto.
Traders buscam oportunidades durante a turbulência
Em meio à turbulência, alguns traders encontraram oportunidades.
Morten Christensen, trader de criptomoedas que também administra o AirdropAlert.com, um site que monitora distribuições gratuitas de criptomoedas, ganhou dezenas de milhares de dólares na quinta-feira.
Ele estava no México, em uma chamada no Discord com seis amigos, pensando em estratégias para tirar vantagem do hack.
Eles haviam decidido vender criptomoedas a descoberto, enquanto os preços começavam a cair, quando a mulher dele entrou no escritório.
Ele pediu que ela saísse.
“A Binance foi hackeada, amor”, disse. “Preciso me concentrar.”
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