A economia brasileira terá uma recessão em 2027, com risco de estagflação (retração combinada com inflação alta), provocada por fatores externos e internos, avalia João Peixoto, CEO da Ouro Preto Investimentos, uma das maiores gestoras de crédito privado do país. Segundo ele, esse cenário vai afetar as empresas e o mercado de crédito privado, o que exige mais cautela de gestores e investidores.
“Todas as nuvens mostram que vem tempestade, a economia já está parando e algumas empresas reduziram a tomada de crédito, pois já chegaram no limite do endividamento”, afirma Peixoto.
“Se o governo mantiver mesma lógica, de não ter preocupação com esse equilíbrio fiscal ou achar que resolve só continuar subindo imposto, o juro vai continuar alto e podemos ter uma grande crise interna”, acrescenta.
Para o executivo, a recessão pode não começar logo no início do ano, “mas em meados do ano, com certeza”. Ele avalia que, qualquer que fosse o resultado da eleição, o país teria uma crise em 2027.
“Temos a crise mundial, as guerras na Ucrânia e no Irã continuam e corremos o risco de ter uma crise do petróleo como a de 1973, fora a desaceleração da economia na China, que vai afetar preços de commodities, minério e agrícolas”, lembra. “E tem a crise que o próprio Lula ajudou a criar, que é o descontrole fiscal.”
Com os juros ainda altos, a situação de empresas e famílias endividadas tende a se complicar. “As empresas e famílias vão continuar buscando crédito para rolar as dívidas, mas com taxa alta é mais difícil”, explica.
Ajuste pela receita
Para ele, a expectativa agora é que o ajuste fiscal venha pelo aumento de impostos, como já ocorreu em outras crises, inclusive no Plano Real. “Mas o país já está no limite, pois a carga tributária já está alta e, se subir mais, é capaz de a arrecadação cair e o país colapsar”, alerta. “Não basta fazer só um plano [econômico] inteligente, é preciso fazer um ajuste fiscal, mas isso sempre foi feito pelo lado da receita.”
Na visão de Peixoto, a saída seria o governo adotar medidas para aumentar a produtividade da economia e enfrentar uma nova reforma da Previdência Social. Ainda assim, ele espera um ajuste mais modesto das contas públicas, sem cortes de despesas, o que deve manter os juros reais altos.
No curto prazo, esse cenário tende a deixar as aplicações em crédito privado mais atrativas do que eram antes, como os fundos de recebíveis, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). “Mas no longo prazo, isso vai ter um custo”, alerta.
Na comparação com outras aplicações, porém, o título público leva vantagem. “Hoje o melhor para o investidor é colocar o dinheiro em um título público, com uma taxa de juro altíssima, mas o governo deve fazer tudo para baixar essa taxa, o que eu concordo”, diz.
Peixoto defende a queda dos juros, mas com uma condição. “Eu discordo dos economistas, acho que tem de baixar a taxa de juros, mas antes o governo teria de mostrar que é responsável em termos fiscais”, afirma.
Apesar de defender juros menores, o executivo não vê motivo para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afrouxar a política monetária no curto prazo. “Se ele não fez antes para beneficiar Lula, agora tem menos motivo para fazer”, lembra.
Para Peixoto, mesmo uma eventual troca de diretores já no começo do ano não deve significar juros mais baixos. Ele cita como exemplo o próprio Galípolo, que também foi indicado por Lula e manteve uma política monetária dura.
FIDCs crescendo, crédito seletivo
Peixoto acredita que o mercado de FIDCs vai continuar crescendo em 2027, mesmo com a economia em retração, por causa da desintermediação financeira. “Os bancos vão continuar reduzindo os empréstimos e deixando o mercado de capitais ocupar mais espaço no crédito para empresas e pessoas”, diz.
Segundo ele, a expansão não virá do crescimento da economia. O avanço deve vir da migração de operações dos bancos para o mercado e do crescimento vegetativo dos FIDCs, impulsionado pelos juros altos.
Peixoto também espera que o governo interprete os sinais dados pela forte reação negativa dos mercados após a eleição e pelo receio de recessão. “O risco é ele [o governo] perceber só tardiamente esses sinais e achar que dá para levar a coisa do jeito que está, mas vamos saber em seis meses, quando tivermos os ministros empossados e trabalhando como vai ser a política do novo governo”, diz.
Para Peixoto, o investidor vai continuar procurando a renda fixa por falta de opção. A procura por FIDCs deve seguir grande, já que esses fundos entregam rentabilidade na casa de 110% do CDI. Ele espera, porém, mais cautela de quem investe em crédito.
“A preferência vai ser por bons papéis de primeira linha dos bancos, e bons FIDCs, pois vai ser preciso separar bem o joio do trigo, pois com juro alto devemos ter problemas de inadimplência, isso é estatístico”, afirma. “O ideal também é selecionar bem os FIDCs e buscar uma diversificação, não concentrar os recursos em um único fundo, para reduzir os riscos.”
Entre os setores mais expostos aos juros altos, Peixoto cita o varejo tradicional nacional. Segundo ele, o segmento ainda enfrenta a concorrência dos sites internacionais e deve sofrer bastante. As instituições financeiras também devem ser afetadas, pela retração do mercado de capitais e pela inadimplência.
O agronegócio, por sua vez, enfrenta a retração da economia chinesa e a alta nos custos de fertilizantes e combustíveis causada pela guerra no Irã, apesar dos ganhos com o dólar mais alto na exportação. “E o agro já está muito endividado, já estava em dificuldade e tem ainda o El Niño”, diz.
Em 2026, a Ouro Preto deve ampliar em cerca de 30% seu patrimônio sob gestão e espera um resultado parecido em 2027. Esse avanço deve ser impulsionado pela transferência de operações do mercado bancário e pelos juros altos. Até o fim deste ano, a gestora pretende concluir novas operações de FIDCs de cerca de R$ 1 bilhão, mas o resultado vai depender do apetite do investidor após as eleições.
“Vimos o impacto muito ruim nas bolsas, mas acredito até que esse ambiente pode tornar os FIDCs mais atraentes, pois o investidor em bolsa está comprando um resultado futuro e o FIDC é mais o presente”, afirma. “Mas as empresas vão cortar investimentos, vão ser mais cautelosas diante das incertezas.”
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