Dados do desemprego apontam recuo a 5,2% na taxa de população desocupada no trimestre encerrado em setembro, o menor nível para o período desde que a série histórica começou, em 2012. A informação é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada hoje (30), pelo IBGE. No segundo trimestre, a taxa era de 5,4% e, no mesmo período do ano passado, 5,6%.
Apesar do reflexo favorável no curto prazo, a síntese das avaliações de bancos e corretoras aponta para um cenário de cautela. O mercado de trabalho apertado eleva os riscos para a inflação de serviços e restringe o espaço para o Banco Central acelerar o ciclo de cortes na taxa Selic nas próximas reuniões.

Consumo resiliente e recorde na ocupação
O aumento no número da população ocupada e o incremento da massa salarial seguem como os principais motores da atividade econômica atual.
De acordo com o economista Leandro Padulla, do ASA, o rendimento efetivo real avançou 1,7% no trimestre e a massa de rendimentos subiu 2%. “Os números interrompem a percepção de perda mais persistente de dinamismo da renda e indicam que o mercado de trabalho ainda tende a oferecer sustentação ao consumo das famílias”, afirma Padulla.
Os rendimentos médios da população registraram o quarto aumento consecutivo acima da inflação, de acordo com a consultoria 4Intelligence. Ela projeta a manutenção da massa de ganhos em níveis elevados, impulsionada pela política de valorização do salário mínimo e por negociações sindicais.
Pressão sobre a inflação e ritmo de juros
Se por um lado o pleno emprego garante as vendas no varejo, por outro impõe uma barreira rígida para o controle de preços. Segundo os analistas, a escassez de mão de obra infla os salários e encarece os custos das empresas prestadoras de serviços, repassando a conta para o consumidor final.
Isso deixa pouco espaço para o ciclo de corte de juros, destaca André Matos, CEO da MA7 Capital. “O problema é que um mercado de trabalho apertado mantém a pressão sobre salários e sobre a inflação de serviços, que é a parte mais difícil de baixar”, explica o executivo.
Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, diz que o país entrará no próximo ano com uma base firme, mas cada vez mais dependente de tecnologia e eficiência. “Com menos trabalhadores disponíveis, a expansão da atividade pode elevar salários e pressionar os preços dos serviços caso a produção não acompanhe a demanda”, ressalta.
Sinais de perda de fôlego à frente
Com recordes atrás de recordes nos dados de emprego, os economistas já mapeiam uma perda gradual de ritmo na abertura de postos de trabalho, por entenderem que não há mais espaço para abertura de vagas frente à desaceleração da economia.
A consultoria 4Intelligence pontua que a taxa de participação na força de trabalho estagnou em 62,2% e não deve retornar ao patamar pré-pandemia. Segundo a análise, “a tendência de cada vez mais pessoas fora da força de trabalho está relacionada à questão demográfica, já que a população brasileira envelhecerá e tende a ter menor participação nas próximas décadas”.
Alguns segmentos já mostram esse recuo na abertura de vagas na comparação anual, destaca Rodolfo Margato, economista da XP, como em serviços domésticos e indústria de transformação. “Projetamos que a taxa de desemprego atingirá 5,4% ao final de 2026 e 6,5% ao final de 2027”, afirma, precificando o esfriamento da economia.
André Valério, economista sênior do Inter, reforça vê estagnação da taxa de informalidade em 37,5% e estabilidade da renda habitual. “Nossa leitura é que vemos um mercado de trabalho muito próximo do pico e com pouco espaço para continuar melhorando”, pontua Valério.
A 4Intelligence nota, ainda, discrepâncias entre posições formais, que cresceram 1,8% na variação interanual, e informais, com alta de apenas 0,2%. O diagnóstico é reforçado pela XP, que registrou recuo de 0,1% no emprego informal na comparação mensal, contrapondo a alta entre os trabalhadores formais.
António Ricciardi, do Banco Daycoval, destaca que a desocupação, quando ajustada sazonalmente, orbita em 5,4% desde o início do ano. O dado comprovaria a projeção de que o dinamismo laboral vai ceder lentamente conforme o alto custo do crédito passe a pesar mais sobre o caixa das empresas.
The post Menor nível em 14 anos, desemprego a 5,2% sustenta consumo, mas pressiona Selic appeared first on InfoMoney.


