A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno levou o JPMorgan a promover uma ampla revisão de suas recomendações para os setores de construção civil, shopping centers e bens de capital. Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco argumenta que a disparada dos juros de longo prazo e a desvalorização do real devem manter um ambiente de “juros mais altos por mais tempo”, exigindo uma realocação das preferências dos investidores.
Como resultado, o banco rebaixou as recomendações de Cyrela (CYRE3), Eztec (EZTC3), Iguatemi (IGTI11), Multiplan (MULT3) e Allos (ALOS3) de overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) para neutra. Ao mesmo tempo, elevou Cury (CURY3), Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3) para overweight, enxergando maior resiliência nessas empresas diante do novo cenário macroeconômico.
No segmento de bens de capital, o JPMorgan também rebaixou Marcopolo (POMO4) para neutra e estabeleceu preço-alvo de R$ 9 por ação, citando perspectiva de resultados mais fracos e falta de catalisadores no curto prazo.
Segundo o banco, a principal mudança de cenário ocorreu após a forte abertura da curva de juros, com as taxas longas avançando cerca de 240 pontos-base para 15,1%, ao mesmo tempo em que o real se depreciou aproximadamente 9%. Nesse ambiente, empresas mais dependentes do crédito doméstico e de valuations sustentados por juros baixos tendem a sofrer mais pressão.
“A incerteza política e fiscal deve manter os juros futuros elevados e as avaliações das empresas próximas dos pisos observados em 2022”, afirmam os analistas liderados por Marcelo Motta.
Minha Casa Minha Vida vira porto seguro
A principal mudança de posicionamento do JPMorgan foi em favor das construtoras voltadas para baixa renda.
O banco elevou Cury (CURY3), Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3) para overweight por entender que a forte exposição dessas companhias ao programa Minha Casa Minha Vida tende a proteger seus resultados. Os analistas também revisaram os preços-alvo para R$ 43 por ação para a Cury, R$ 53 para a Direcional e R$ 28 para a Tenda. Segundo os analistas, mais de 80% dos lançamentos dessas empresas estão vinculados ao programa habitacional, que deve continuar recebendo apoio do governo Lula.
O JPMorgan destaca que, mesmo em um cenário de inflação e juros elevados, o governo pode amenizar os impactos por meio de aumentos nos tetos dos imóveis financiáveis e condições mais favoráveis de crédito.
No caso da Cury, o banco ressalta ainda o dividend yield estimado de 12% para 2027, retorno sobre patrimônio superior a 70% e negociação a apenas 5,8 vezes lucro projetado. Já a Direcional é vista como uma opção descontada em relação à Cury, enquanto a Tenda ganhou destaque após elevar seu guidance e negociar ao menor múltiplo de lucro entre as construtoras de baixa renda cobertas pelo banco.
Shoppings e média renda perdem espaço
Na outra ponta, shopping centers e incorporadoras de média e alta renda deixaram de figurar entre as preferidas. Para Allos (ALOS3), Multiplan (MULT3) e Iguatemi (IGTI11), o JPMorgan vê impacto negativo tanto da alta dos juros de longo prazo sobre os múltiplos quanto de uma possível desaceleração do consumo, que afeta receitas de aluguel variável.
Entre as construtoras de média renda, os rebaixamentos de Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3) refletem a expectativa de desaceleração da demanda, diante da piora na acessibilidade ao crédito imobiliário e da tendência de os bancos privados elevarem as taxas de financiamento habitacional.
Os preços-alvo definidos pelo banco são de R$ 30 para Allos, R$ 26 para Multiplan e R$ 28 para Iguatemi. Os novos preços-alvo são de R$ 33 para Cyrela e R$ 16 para Eztec.
O banco manteve visão neutra para MRV (MRVE3), citando a elevada alavancagem e os riscos ainda associados à operação americana Resia.
Exportadoras ganham preferência
Além das construtoras populares, o JPMorgan reforçou a preferência por empresas exportadoras ou com forte geração de receita no exterior, que tendem a se beneficiar de um real mais depreciado.
As principais escolhas do banco passam a ser Embraer (EMBJ3), WEG (WEGE3), Tupy (TUPY3), Iochpe-Maxion (MYPK3), além de Cury (CURY3), Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3). Segundo os analistas, essas companhias combinam resiliência de lucro com maior proteção ao ambiente macroeconômico doméstico.
Já entre os menos preferidos seguem Randoncorp (RAPT4) e Fras-le Mobility (FRAS3), ambas com recomendação underweight devido à maior exposição à economia brasileira, pressão sobre resultados e, no caso da Randon, elevada alavancagem financeira.
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