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13º salário: pagar dívidas ou aproveitar a Black Friday? Veja o que compensa

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
13º salário: pagar dívidas ou aproveitar a Black Friday? Veja o que compensa

Novembro chegando e com ele vem também o pagamento do tão esperado 13º salário. Mas às vésperas da Black Friday e do Natal, as duas datas mais importantes para o comércio, o apelo por compras pode ser bem intenso. Por isso, o InfoMoney foi ouvir economistas e planejadores financeiros para saber o que é melhor fazer com esse dinheiro. Aproveitar as promoções para comprar algum bem importante e presentes ou usar o dinheiro para reduzir dívidas e organizar as contas do próximo ano?

Todos dizem que é preciso ter muita calma nessa hora e não se levar pela empolgação de final de ano. Especialmente em um cenário de juros elevados e orçamento apertado, onde um deslize pode custar caro. A melhor resposta nesses momentos, segundo os especialistas, é o planejamento financeiro.

Se há dívidas, o consumo pode esperar, principalmente para quem já está pagando caro pelo crédito, como cartões ou cheque especial. Por outro lado, gastar todo o benefício só para quitar dívidas também pode ser um erro, especialmente se não houver recursos para enfrentar as despesas mais pesadas que virão em janeiro, incluindo impostos, material didático, uniforme e até a fatura do cartão de crédito gasto em dezembro.

Uma parcela expressiva da população brasileira deve ser afetada por esse dilema. Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Embora o indicador tenha recuado em relação aos 82% de agosto, o comprometimento médio da renda com dívidas aumentou de 29,3% para 29,6%.

A situação é ainda mais delicada para quem está inadimplente. Segundo a CNC, 29,6% das famílias tinham contas não pagas em setembro, e o tempo médio de atraso chegou a 65,3 dias, o maior desde novembro de 2024. Entre as famílias inadimplentes, 48,9% acumulavam débitos vencidos havia mais de 90 dias.

Esses números só confirmam que, apesar de uma pequena melhora nos indicadores de endividamento e inadimplência, o orçamento das famílias continua pressionado. E o 13º salário, que muitas vezes é tratado como um dinheiro extra para consumo, pode representar uma oportunidade de reorganização financeira.

Para a economista e planejadora financeira Mara Bernardes, o primeiro passo é abandonar a ideia de que o benefício está inteiramente disponível para gastar. O 13º faz parte da remuneração anual do trabalhador e precisa ser incorporado ao planejamento do orçamento. Ela alerta que usar todo o dinheiro só para quitar dívidas pode provocar um novo ciclo de endividamento logo no início do ano. “Se a pessoa tem um 13º de R$ 5 mil, deve R$ 5 mil e vai lá e paga tudo pode ser ruim, porque, quando chegar janeiro, como vai pagar IPTU, IPVA, material de escola, uniforme?”, questiona.

Na avaliação da especialista, o ideal é calcular primeiro as despesas previsíveis dos próximos meses, reservar recursos para imprevistos e estabelecer um limite para os gastos de Natal. Só então é possível determinar quanto poderá ser destinado à quitação de dívidas sem comprometer novamente o orçamento.

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Juros altos

A recomendação muda de prioridade quando o consumidor tem dívidas com juros muito elevados, como as do cartão de crédito rotativo e do cheque especial. Segundo o Banco Central, a taxa média do rotativo chegou a 442,4% ao ano em junho de 2026. No mesmo período, os juros do cheque especial estavam em 139,8% ao ano, enquanto o crédito pessoal não consignado registrava taxa média de 127,3% ao ano.

Para Heraldo Fonseca, planejador financeiro certificado pela Planejar, dificilmente uma promoção de fim de ano compensa o custo de manter uma dívida nessas condições. “Os juros no Brasil fazem uma dívida crescer muito rápido, e ela sai do controle antes que a pessoa perceba. Não existe desconto de Black Friday que compense isso. Quem quita o rotativo está, na prática, fazendo o melhor investimento disponível no mercado hoje”, afirma.

Uma taxa anual de 442,4% equivale a aproximadamente 15,1% ao mês, em juros compostos. Isso significa que, em uma simulação puramente matemática, uma dívida de R$ 2 mil submetida a essa taxa durante um mês teria cerca de R$ 302 de juros, desconsiderando encargos adicionais e as regras específicas aplicáveis ao crédito.

Há, porém, uma proteção legal importante. Para dívidas de cartão de crédito rotativo e parcelamento da fatura originadas a partir de 3 de janeiro de 2024, o total de juros e encargos financeiros não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. A limitação não torna o crédito barato, mas impede que o custo acumulado ultrapasse esse teto.

Para Fonseca, quem já está endividado deve avaliar o benefício de eliminar uma obrigação cara antes de assumir novos compromissos com presentes e promoções. “Para quem está no rotativo, a melhor promoção da Black Friday é a dívida quitada”, resume.

Quitar tudo ou guardar dinheiro?

Embora concordem que dívidas caras devem ser combatidas, os especialistas ouvidos defendem que o destino do 13º depende da situação financeira de cada família. Mara Bernardes considera essencial reservar recursos para as despesas de início de ano, evitando que o trabalhador quite uma dívida em dezembro e precise contratar outro empréstimo em janeiro.

O planejamento deve incluir IPVA, IPTU, matrícula, material escolar e outras despesas sazonais. Também é preciso prever os gastos extras com alimentação e presentes de Natal. Para ela, o erro mais comum é analisar apenas o valor da parcela de uma dívida, sem considerar os juros e o custo total da operação.

A planejadora cita o caso de um cliente que tinha saldo devedor de R$ 120 mil em um financiamento imobiliário, com prestação mensal de R$ 2.226 e dez anos restantes para pagamento. Antes de recomendar a quitação, ela pediu informações sobre a taxa de juros e o seguro embutido na prestação. “Tem que ver a taxa de juros para saber se vale a pena ou não. Não basta olhar a parcela”, explica.

Assim a decisão pode ser diferente para quem tem um financiamento relativamente barato e para quem está pagando juros elevados no cartão. No primeiro caso, preservar liquidez pode fazer sentido. No segundo, a dívida tende a consumir rapidamente qualquer rendimento obtido com aplicações financeiras conservadoras.

Heraldo Fonseca propõe uma ordem de prioridades: quitar dívidas caras ou atrasadas, separar dinheiro para as contas de janeiro, formar uma reserva de emergência e, apenas depois, destinar recursos ao consumo. Na prática, as recomendações convergem em um ponto: o trabalhador precisa olhar o orçamento completo, e não apenas o saldo disponível na conta quando o benefício cair.

Renegociar pode ser saída

Para Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas, o 13º também pode fortalecer a posição do consumidor em uma negociação com os credores. Com dinheiro disponível para pagamento à vista, é possível buscar descontos ou condições mais vantajosas para regularizar débitos, segundo ele. Além disso, novembro costuma concentrar campanhas de renegociação, impulsionadas justamente pela proximidade do pagamento do benefício. “Em um cenário de juros elevados e endividamento persistente, a primeira pergunta que o consumidor deveria fazer é quanto custa manter as dívidas que já tem, antes de assumir novos compromissos”, afirma.

Quando o valor recebido não é suficiente para eliminar todas as pendências, a recomendação é comparar as taxas e priorizar aquelas com maior custo financeiro, sem deixar de considerar contas essenciais e consequências de eventuais atrasos.

Casagrande lembra que alternativas como consignado privado e empréstimos com garantia de imóvel ou veículo podem oferecer taxas menores do que modalidades de crédito sem garantia. Mas trocar uma dívida por outra exige cautela. O consumidor deve comparar o Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros e demais encargos, verificar o valor total a pagar e avaliar se a nova prestação cabe no orçamento.

No caso de empréstimos com garantia, existe um risco adicional, porque a inadimplência pode levar à perda do imóvel ou do veículo oferecido na operação. “Isso não significa que contratar um novo empréstimo seja sempre a melhor saída. A renegociação só representa uma melhora efetiva quando reduz o custo da dívida e cria condições para que o consumidor consiga cumprir o novo acordo”, ressalta Casagrande.

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Black Friday

As promoções de novembro não precisam ser descartadas, desde que as compras já estejam previstas no orçamento e não comprometam despesas essenciais. Fonseca recomenda que o consumidor faça uma lista dos produtos realmente necessários e acompanhe a evolução dos preços antes da Black Friday. A estratégia ajuda a identificar descontos reais e evitar ofertas baseadas em preços artificialmente elevados.

O especialista também chama a atenção para a forma de pagamento. Parcelamentos anunciados como sem juros podem ser vantajosos em determinadas condições, especialmente quando o consumidor tem dinheiro para pagar à vista e consegue mantê-lo aplicado. Mas a comparação precisa considerar o desconto oferecido à vista, o rendimento líquido da aplicação e a capacidade de pagar todas as parcelas.

Se houver juros no parcelamento, a análise deve considerar o CET da operação. Mara Bernardes recomenda ainda a mesma disciplina para as compras de Natal. “Antes de ir às compras, o consumidor deve definir quem pretende presentear e quanto pode gastar com cada pessoa, incluindo no cálculo os gastos adicionais que terá também com alimentação e confraternizações”, disse.

A preocupação é evitar que compras aparentemente pequenas se acumulem na fatura de janeiro, no mesmo momento em que chegam os impostos e as despesas escolares.

Para Casagrande, o consumo só deve entrar no planejamento depois de avaliadas as dívidas existentes e a capacidade de pagamento nos meses seguintes. “O objetivo não deve ser apenas começar o ano com menos dívidas, mas construir condições para não voltar a se endividar”, afirma.

Quando cai o 13º salário em 2026?

Para trabalhadores contratados pela CLT, a primeira parcela do 13º salário deve ser paga até 30 de novembro. A segunda tem prazo legal até 20 de dezembro, mas, como a data cai em um domingo neste ano, a orientação é antecipar o depósito para sexta-feira, 18 de dezembro.

Em regra, a primeira parcela corresponde à metade da remuneração de referência, sem descontos de INSS e Imposto de Renda. Os descontos cabíveis são calculados na segunda parcela, que, portanto, pode ser menor do que a primeira. O benefício é proporcional ao tempo trabalhado no ano para quem não completou os 12 meses de vínculo.

A diferença entre os valores das parcelas é mais um motivo para planejar os gastos com antecedência, evitando assumir compromissos com base em um valor líquido maior do que aquele que efetivamente será recebido.

No fim das contas, o 13º pode ajudar a aliviar o orçamento, mas não resolve sozinho um desequilíbrio financeiro persistente. Para quem paga juros elevados, reduzir dívidas tende a trazer um benefício maior do que aproveitar descontos. Para quem está com as contas em dia, reservar dinheiro para janeiro e consumir de forma planejada pode ser uma alternativa. Assim, o desafio é fazer com que o dinheiro recebido no fim do ano produza algum alívio duradouro, em vez de se transformar em novas parcelas a pagar ao longo de 2027.

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