O resultado do primeiro turno das eleições acelerou o fechamento da curva de juros, com alguns vencimentos de DI recuando mais de 100 pontos-base em um único pregão, enquanto o crédito privado isento, que já vinha em direção contrária desde setembro, passou a pagar prêmios maiores ao investidor.
Diante dessa mudança, a XP Investimentos recomenda migrar gradualmente para uma exposição a debêntures incentivadas. “Nossa preferência é por uma realização parcial dos ganhos acumulados nos títulos públicos e uma entrada gradual em crédito privado isento high grade”, escrevem os analistas Lucas Genoso e Maria Luisa Paolantoni, em relatório. A casa não indica sair integralmente do risco soberano nem entrar de forma concentrada em crédito.

Gestores veem risco e oportunidade na possível tributação de debêntures isentas
Para parte do mercado, a escassez de papéis isentos valoriza os títulos já emitidos, enquanto outros alertam para o impacto no financiamento de projetos de longo prazo

Título de infra isento de IR passa a pagar mais e vira aposta após a eleição
Juros das debêntures incentivadas voltou a subir com menor oferta e resgates em fundos, enquanto mercado avalia volta da possibilidade de taxação
Pela classificação da XP, são considerados high grade os emissores com ratings entre AAA e AA, faixa que reúne companhias com elevada qualidade de crédito e menor probabilidade de inadimplência.
O movimento ganhou força no pregão de 5 de outubro, quando a taxa do DI para janeiro de 2029 caiu de 13,75% para 12,65%, um recuo que, segundo a XP, não era observado havia mais de uma década. Nas NTN-Bs, a taxa do vencimento 2035 passou de 7,65% para 7,04% no mesmo dia.
Para quem comprou os papéis em níveis mais altos de taxa, a queda se traduz em valorização, sobretudo nos vencimentos mais longos. Entre 1º de setembro e 7 de outubro, o Tesouro IPCA+ 2050 acumula valorização bruta de 17%, enquanto o IPCA+ 2040 sobe 11% no período.
A XP afirma que não espera uma reversão da curva nem considera esgotado o espaço para novas quedas de taxa. A sustentação do movimento, segundo a casa, depende da evolução do debate econômico nas próximas semanas, em especial das propostas para a política fiscal, da composição das equipes econômicas e da trajetória da dívida pública.
Spreads de incentivadas voltam a abrir
No crédito, o IDEX-Infra, indicador de spreads das debêntures incentivadas, iniciou outubro em 101 pontos-base sobre a NTN-B de referência, depois de uma abertura de 44 pontos-base em setembro.
A alta atingiu também os emissores de melhor qualidade e se espalhou por diferentes setores, com destaque para Telecom e Agro & Insumos, cujos spreads subiram 55 e 54 pontos-base entre agosto e setembro, respectivamente.
Entre os papéis acompanhados pela XP, o spread da debênture da São Martinho (SMTO24) passou de 38 pontos-base em 31 de agosto para 103 pontos-base em 7 de outubro. O título negocia a uma taxa indicativa de IPCA+7,96%, o equivalente a IPCA+9,56% considerando a isenção de Imposto de Renda.
Para a casa, a abertura reflete principalmente fatores técnicos. Os resgates dos fundos dedicados à classe aumentaram a oferta de papéis no mercado secundário em um momento de menor demanda, o que pressionou os spreads sem deterioração dos fundamentos de crédito na mesma proporção.
A XP acrescenta que uma queda dos juros mais intensa do que a esperada anteriormente tende a reduzir as despesas financeiras das companhias e aliviar a pressão sobre a geração de caixa. Em uma simulação ilustrativa, que considera toda a dívida atrelada ao CDI, um corte de 1 ponto percentual reduziria em cerca de R$ 168 milhões por trimestre a despesa financeira da Axia.
Ainda é cedo para que esses efeitos apareçam nos balanços, mas, na avaliação dos analistas, “os spreads abriram em um momento em que a pressão financeira sobre as empresas pode estar, enfim, próxima do seu pico”.
A casa pondera que os spreads ainda podem abrir mais, especialmente se os resgates continuarem levando os fundos a vender posições no secundário. Por isso, defende uma alocação gradual, que preserve espaço para ampliar as posições caso o prêmio volte a subir, enquanto a manutenção de parte da carteira em títulos públicos garante exposição a um eventual novo fechamento da curva.
Para a XP, a seleção individual dos emissores continua fundamental, mesmo dentro do universo high grade, e eventuais mudanças no tratamento tributário das incentivadas devem permanecer no radar. Segundo o relatório, alterações nas regras para novas emissões podem aumentar a atratividade relativa dos papéis já emitidos sob as regras atuais.
“No fim, a proposta é menos sobre sair de títulos públicos e mais sobre o que fazer com um ganho que já apareceu”, concluem os analistas.
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