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Pequena gestora vira peça-chave da aposta dos EUA nas riquezas minerais da Venezuela

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Pequena gestora vira peça-chave da aposta dos EUA nas riquezas minerais da Venezuela

Em um porto próximo a Nova Orleans, na segunda-feira (5), o secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, recebeu a primeira remessa de alumínio venezuelano para o país em quase uma década.

A carga, de cerca de 15 mil toneladas, proveniente da maior fundição de alumínio da Venezuela, marcou um dos primeiros marcos da iniciativa do governo Trump para garantir o acesso das cadeias produtivas americanas aos vastos recursos minerais venezuelanos.

Ao lado de Burgum estavam os fundadores da Heeney Capital, empresa de investimentos que se associou à gigante suíça de commodities Mercuria Energy Group para transportar alumínio da estatal venezuelana Venalum e vendê-lo a fabricantes dos Estados Unidos.

Mesmo no relativamente pequeno universo da mineração e da indústria de metais, poucos conhecem a Heeney Capital, sediada em Nova York. A empresa de capital fechado, cujo site é acessível apenas a investidores cadastrados, se descreve como investidora em projetos minerários em estágio inicial. Em questão de meses, seus cofundadores, Henry Heeney, de 38 anos, e Sean Pi, de 36, passaram de apresentações para integrantes do governo Trump a protagonistas dos esforços de Washington para reativar investimentos americanos em mineração na Venezuela.

“Eles são uma empresa muito pequena e relativamente desconhecida”, disse Alexis Harmon, diretora associada do Global Energy Center, do Atlantic Council. “Mas o portfólio de que estão falando é enorme.”

A rápida ascensão da Heeney reflete uma característica da estratégia de Washington de reabrir os setores de commodities da Venezuela ao investimento americano. Desde que o governo Trump capturou o ex-presidente Nicolás Maduro, empresas menores e independentes, como Pacific Coast Energy, Augusta Capital e Gold Reserve Ltd., correram para aproveitar oportunidades que muitas grandes companhias ainda evitam devido aos riscos econômicos e políticos.

Heeney e Pi se conheceram enquanto trabalhavam como analistas em Nova York na Evercore. Depois de deixarem o banco de investimentos, tornaram-se sócios e montaram um portfólio de depósitos minerais em estágio inicial por meio de aquisições, além de fundarem empresas como a Mayfair Gold, que possui um ativo no Canadá, e a Siguiri Gold, na Guiné.

Pi e Heeney não responderam a pedidos de comentários.

Pi foi incluído de última hora em uma delegação americana que visitou Caracas em março com o objetivo de impulsionar negócios no setor de metais na Venezuela, mas que teve dificuldades para atrair grandes mineradoras dos Estados Unidos. A Alcoa, maior produtora de alumínio do país, recusou um convite para participar da viagem, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Um porta-voz da empresa se recusou a comentar.

Durante a visita, Pi reuniu-se com autoridades americanas, incluindo Jarrod Agen, chefe do Conselho Nacional para Dominância Energética da Casa Branca, e David Copley, ex-executivo da Newmont que se tornou uma das principais autoridades do governo para investimentos em mineração.

Além dos acordos de transporte, a Heeney busca obter o controle operacional da fundição Venalum, a maior do país. Os fundadores também anunciaram em setembro um acordo para investir até US$ 1 bilhão no desenvolvimento e operação da mina de ouro Choco ao longo dos próximos 30 anos. Segundo a empresa, a mina pode produzir até 200 mil onças de ouro por ano, equivalentes a cerca de US$ 820 milhões nos preços atuais.

A Venalum e o Ministério da Informação da Venezuela não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.

A Heeney também avalia oportunidades em outros minerais, como carvão, e pretende usar seus acordos na Venezuela para construir uma trading de metais sediada nos Estados Unidos, segundo fontes familiarizadas com o assunto.

Caso consiga acesso à Venalum, a empresa terá de investir cerca de US$ 500 milhões para restaurar a capacidade total da planta, de 430 mil toneladas anuais de alumínio. O processo pode levar entre cinco e sete anos. Atualmente, a fundição opera com apenas uma pequena fração dessa capacidade.

Pouco se sabe publicamente sobre as finanças da Heeney ou sua capacidade de captação. Segundo um documento apresentado em março, a empresa administra ao menos um fundo privado com patrimônio bruto de US$ 20 milhões. Em depoimento à Câmara dos Representantes dos EUA em fevereiro, Sean Pi afirmou que a companhia apoia um portfólio de cerca de US$ 1,2 bilhão em ativos, distribuídos por nove projetos de mineração em seis países fora dos Estados Unidos. Entre eles estão projetos de aço e vanádio em Trinidad e Tobago e um empreendimento de minério de ferro na República do Congo.

Ao contrário do setor de petróleo e gás, que registrou uma onda de negócios recentes, a mineração venezuelana continua amplamente subdesenvolvida. O país possui grandes reservas de ouro, bauxita, minério de ferro e carvão, mas anos de crise econômica e isolamento reduziram significativamente a atividade formal do setor. Também há pouca informação independente sobre o tamanho real dessas reservas, o que torna os investimentos mais arriscados.

Empresas privadas como a Heeney têm maior liberdade para assumir riscos na Venezuela sem enfrentar a pressão de grandes acionistas institucionais ou os rigorosos processos de diligência adotados pelas gigantes da mineração. Ainda assim, precisam lidar com a persistente incerteza política do país.

A mina de ouro Choco é considerada especialmente delicada. As áreas de mineração de ouro ao redor de El Callao, onde o projeto está localizado, há anos são dominadas por organizações criminosas que controlam minas e impõem suas regras por meio da violência. O governo venezuelano, liderado pela presidente interina Delcy Rodríguez, tentou retomar o controle dessas regiões enviando tropas e helicópteros armados para a área em junho. Analistas, porém, afirmam que o Estado ainda não conseguiu estabelecer controle duradouro sobre o território.

“Os grandes veteranos da mineração, como Newmont, Barrick Mining ou BHP, não vão entrar nas ruínas fumegantes da Venezuela para assumir ativos de terceiros”, disse Christopher Ecclestone, estrategista da consultoria especializada em mineração Hallgarten & Company. “Eles sabem que há problemas pela frente.”

Newmont e Barrick se recusaram a comentar. A BHP não respondeu aos pedidos de comentário.

Um porta-voz da Casa Branca afirmou que os investimentos americanos ajudarão a estabilizar a indústria de mineração venezuelana.

“Durante anos, a mineração da Venezuela foi saqueada do povo venezuelano e utilizada para sustentar grupos criminosos perigosos e apoiar agentes nocivos ao redor do mundo”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers. “Os Estados Unidos estão ajudando a resolver esse problema histórico. Estamos limpando a indústria de mineração da Venezuela. Empresas ocidentais estão melhorando e legitimando o setor.”

As empresas que agora estudam entrar na Venezuela estão concentradas inicialmente nos chamados ativos brownfield, hoje operados por estatais venezuelanas. A infraestrutura já existente permite acelerar a produção e reduzir riscos de investimento.

Pi resumiu a estratégia da Heeney para atuar em jurisdições de alto risco como a Venezuela durante um painel do setor em junho.

“O desafio da nossa indústria é que precisamos ir onde estão as rochas. Não podemos ser muito seletivos”, disse. “Isso significa atuar em jurisdições que muitos investidores ocidentais olham e dizem: ‘isso está fora do nosso mandato’.”

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