O forte rali dos ativos brasileiros da véspera após o primeiro turno das eleições não provocou uma reprecificação do Ibovespa. Para grandes bancos internacionais, o novo cenário político começa também a mudar quais ações devem liderar uma eventual próxima etapa da alta da Bolsa, com uma rotação em direção às companhias domésticas e mais sensíveis à queda dos juros.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) ficou cerca de 2 pontos percentuais à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno: 47,03% contra 45,16%. A percepção dos profissionais do mercado era de que uma virada no segundo turno, marcado para 25 de outubro, é pouco provável. Flávio é visto como um nome mais propenso a priorizar o ajuste das contas públicas, ainda que seus planos para a área não estejam claros, enquanto Lula enfrenta a desconfiança de uma parcela relevante do mercado.
Neste cenário, em relatórios publicados após a votação, Morgan Stanley, JPMorgan e UBS convergem na avaliação de que a maior possibilidade de ajuste fiscal favorece uma combinação de real mais forte, redução do prêmio de risco e juros menores.
A consequência, para a Bolsa, é uma mudança de liderança, com financeiras, varejistas, construtoras, utilities e outros ativos domésticos passando a ganhar relevância relativa, enquanto empresas exportadoras perdem.
A rotação é mais explícita na visão do Morgan Stanley, uma vez que depois de uma alta da disparada das ações brasileiras no dia seguinte ao primeiro turno, o banco elevou o Brasil para overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) e aumentou o beta (indicador de volatilidade) das carteiras, afirmando enxergar possibilidade de mais 15% a 20% ou mais até o fim de 2026 e espaço adicional em 2027 em direção ao seu bull case de 250 mil pontos para o Ibovespa.
O Morgan Stanley diretamente aumentou o beta e girou a carteira em direção às empresas domésticas, diante da maior probabilidade de uma mudança na política econômica brasileira.
A instituição aumentou as posições em B3 (B3SA3), XP (BDR: XPBR31) e BTG Pactual (BPAC11) por considerar que os serviços financeiros oferecem a melhor relação risco-retorno para capturar tanto um rebalanceamento da economia quanto um ciclo potencialmente mais profundo de redução dos juros. Também acrescentou exposição a Nubank, Mercado Livre e Vamos (VAMO3).
Na direção contrária, Suzano (SUZB3) foi retirada da carteira, uma vez que o real potencialmente mais forte representa um vento contrário à companhia. A posição em Vale (VALE3) também foi reduzida, em um movimento que o banco descreve explicitamente como uma rotação de exportadoras para ações domésticas. Na segunda-feira de rali do Ibovespa, exportadoras como Suzano, Embraer (EMBJ3) e WEG (WEGE3) viram suas ações registrarem baixa também em meio à queda do dólar na sessão passada, de mais de 4%, e a visão é de menos atratividade para os papéis se a baixa da divisa persistir.
Entre os maiores aumentos de peso relativo da carteira brasileira aparecem B3, Vamos e BTG, com acréscimos de 1,1, 1 e 1 ponto percentual, respectivamente. Nubank, Mercado Livre e XP tiveram aumentos de 0,5 ponto cada. Vale teve redução de 0,9 ponto percentual, enquanto Suzano foi zerada.
Isso não significa que o banco esteja abandonando completamente as exportadoras, já que o Morgan Stanley continua favorável, de maneira seletiva, a Embraer (EMBJ3), JBS (BDR: JBSS32) e São Martinho (SMTO3). Mas a casa afirma que, diante da maior possibilidade de mudança de política, prefere ações domésticas a commodities.
Por que a rotação pode ir além do primeiro rali?
O argumento do Morgan é que uma consolidação fiscal poderia alterar a própria forma como o crescimento brasileiro é financiado. O banco chama esse processo de “Great Rebalancing”. A tese prevê uma migração de capital da renda fixa para ações no mercado financeiro e, na economia real, uma passagem de um modelo sustentado pelo gasto público e consumo para outro mais dependente do investimento privado.
Nesse processo, serviços financeiros têm uma posição privilegiada, com gestores de patrimônio e recursos podem ganhar mais com uma migração para ações, enquanto a própria B3 se beneficiaria da expansão da atividade do mercado de capitais.
Entre as ações relacionadas pelo banco à mudança de política aparecem Petrobras (PETR4), Mercado Livre (BDR: ROXO34), Nubank (BDR: ROXO34), Axia Energia (AXIA3), B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11), XP, Banco do Brasil (BBAS3), Equatorial (EQTL3), Vibra (VBBR3), Rumo (RAIL3), Cyrela (CYRE3), Motiva (MOTV3), Energisa (ENGI11) e Vivara (VIVA3).
Mas o banco recomenda evitar simplesmente comprar companhias muito alavancadas que também tenham operações problemáticas, ainda que esses papéis possam reagir inicialmente à perspectiva de juros menores. A preferência está nas empresas capazes de transformar a mudança do cenário econômico em melhora operacional.
JPMorgan também busca ações sensíveis aos juros
O JPMorgan reforça a mesma mudança de direção, voltando a elevar o Brasil para overweight, após ter cortado o país para neutro em agosto. A casa apontou esperar que o MSCI Brazil avance inicialmente 12% e caminhe posteriormente para ganho de 20%, considerando esse potencial superior ao oferecido pelos demais mercados latino-americanos.
O banco destaca dois mecanismos para essa reprecificação: uma valorização do real pode permitir cortes mais rápidos da Selic, enquanto a possibilidade de uma política macroeconômica mais favorável ao fiscal abre espaço para expansão dos múltiplos.
Nas contas do banco o Brasil estava negociando a 8,9 vezes o lucro projetado para 12 meses e poderia avançar para 10,9 vezes com a redução do risco. Em um cenário de reformas estruturais e ambiente externo favorável, o múltiplo poderia chegar a 13 vezes.
Neste cenário, as ações mais sensíveis aos juros são justamente as que mais agradam neste momento. No setor financeiro, o JPMorgan continua vendo bom desempenho para seus nomes preferidos do mercado de capitais, incluindo BTG Pactual (BPAC11) e XP, e avalia que bancos digitais, como Nubank e Inter, também podem se beneficiar, assim como empresas de pagamentos. Seguradoras aparecem como retardatárias.
A lista se espalha por outros setores, com preferência indicada por Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3). Em transportes, aparecem Localiza (RENT3), Movida (MOVI3), Vamos (VAMO3), Simpar (SIMH3), Azul e EcoRodovias (ECOR3).
No varejo e saúde, o banco aponta exposição a beta por meio de Assaí (ASAI3), Magazine Luiza (MGLU3), Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3), enquanto RD Saúde (RADL3) e Smart Fit (SMFT3) aparecem como apostas de duration. Em utilities, as escolhas são Sabesp (SBSP3), Energisa (ENGI11) e Eneva (ENEV3).
Petrobras (PETR3;PETR4) permanece como a ação preferida do analista de petróleo do banco, enquanto PRIO (PRIO3), Vibra (VBBR3) e Ultrapar (UGPA3) são destacadas como fontes de recursos para a rotação por já terem subido significativamente.
O UBS acrescenta que, depois do primeiro turno, o cenário classificado anteriormente pela casa como de“ajuste fiscal mais profundo e duradouro” passou a ser o cenário-base.
Para a instituição, ações domésticas, juros locais e real, nessa ordem, devem se beneficiar materialmente da maior probabilidade desse quadro fiscal.
Assim, a casa vê espaço para a rotação continuar além da reação inicial. Antes do primeiro turno, o Ibovespa acumulava alta de cerca de 14% no ano até a sexta-feira anterior à eleição, mas as ações brasileiras excluindo as produtoras de petróleo avançavam apenas 5,75%.
O mercado também negociava a aproximadamente 8,7 vezes os lucros futuros, abaixo da média de dez anos de 9,7 vezes. Se o cenário fiscal for confirmado, o UBS acredita que as ações poderiam caminhar para um múltiplo de aproximadamente 11,8 vezes. Juntamente com o efeito de juros reais mais baixos sobre os lucros, isso poderia representar mais de 30% de potencial para o índice nos meses seguintes.
Os setores de maior sensibilidade apontados pelo banco são bancos, varejo, construtoras, utilities, educação, saúde e small caps.
Petróleo não é mais o hedge preferido?
O UBS é direto ao afirmar que espera desempenho inferior das ações de petróleo caso o cenário fiscal mais favorável seja confirmado. Segundo a casa, essas companhias já incorporam preços de petróleo elevados por mais tempo e perderiam parte da função de proteção preferida do mercado contra o risco doméstico. Por isso, para o banco, uma rotação de petróleo para ações cíclicas domésticas permanece o principal trade em Bolsa.
É uma conclusão que conversa com a mudança realizada pelo Morgan Stanley ao reduzir Vale (VALE3) e zerar Suzano (SUZB3) para aumentar a exposição às empresas domésticas.
Outra razão para a rotação continuar vem da possível volta do investidor estrangeiro, que ainda não participou de forma relevante da alta.
O Morgan Stanley observa que investidores locais continuam com exposição muito baixa às ações, enquanto gestores globais de mercados emergentes já carregam Brasil perto da parte superior da faixa histórica de posicionamento.
Caso juros menores estimulem uma volta do dinheiro doméstico, o banco estima que alguns papéis podem receber recursos relevantes em relação à liquidez negociada. Entre as ações com recomendação overweight, destaca Smart Fit (SMFT3), Vibra (VBBR3) e BTG Pactual (BPAC11). Equatorial (EQTL3), Energisa (ENGI11), B3 (B3SA3) e Sabesp (SBSP3) também figuram entre os potenciais beneficiários.
No cenário extremo em que a participação dos fundos de ações no patrimônio total da indústria brasileira retornasse ao pico histórico de 15%, o Morgan Stanley estima um fluxo potencial de R$ 945 bilhões, aproximadamente R$ 950 bilhões. Com participação de 12%, seriam R$ 615 bilhões; com 8%, R$ 176 bilhões.
2ª perna do rali pode ser diferente da primeira
A leitura sugere que o rali eleitoral pode estar entrando em uma fase mais seletiva. O primeiro movimento foi uma redução abrangente do prêmio de risco mas, para uma eventual próxima etapa, a composição das carteiras dos bancos indica uma aposta maior nas empresas que possam capturar diretamente os efeitos de juros menores, real mais forte, recuperação do mercado de capitais e maior investimento privado.
Nesse mapa, serviços financeiros aparecem como uma das apostas mais recorrentes. Morgan Stanley reforçou B3 (B3SA3), XP e BTG Pactual (BPAC11), enquanto o J.P. Morgan também cita BTG e XP entre seus nomes preferidos do mercado de capitais e espera bom desempenho de Nubank e Inter.
Construtoras e varejistas também entram na rotação, principalmente por sua sensibilidade aos juros. Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3) estão entre as preferências do J.P. Morgan, enquanto o UBS coloca construtoras e varejo entre os setores de maior sensibilidade ao novo cenário.
Utilities formam outro bloco relevante, com Sabesp (SBSP3), Energisa (ENGI11), Eneva (ENEV3) e Equatorial (EQTL3) aparecendo nas análises das casas.
Na ponta oposta, a visão é de que parte do dinheiro pode sair dos papéis usados como proteção para o risco doméstico e migrar para empresas mais expostas ao Brasil. O Morgan Stanley reduz Vale e sai de Suzano; o UBS aposta em desempenho inferior das petroleiras frente às cíclicas locais; e o JPMorgan privilegia explicitamente as ações sensíveis aos juros.
Contudo, além do resultado das urnas, o Morgan Stanley ressalta que a consolidação fiscal é necessária para garantir um custo de capital estruturalmente menor, enquanto o UBS aponta como riscos a eventual mudança na preferência dos eleitores antes do segundo turno, a composição da futura equipe econômica, a ambição do plano fiscal e a capacidade de aprovar reformas no Congresso.
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