A perspectiva de queda dos juros abre espaço para investidores aumentarem a exposição a ações mais sensíveis ao mercado brasileiro, mas a melhor estratégia não é simplesmente comprar os papéis de maior risco. Para o Itaú BBA, o momento favorece uma busca seletiva por “beta” (medida estatística que compara a volatilidade dos movimentos de preço de uma ação específica com o mercado geral), privilegiando empresas de qualidade e com alavancagem controlada.
Em relatório sobre a melhor forma de adicionar beta às carteiras no Brasil, a equipe de estratégia do banco destacou XP (BDR: XPBR31), B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11), Cyrela (CYRE3), EZTec (EZTC3), Ecorodovias (ECOR3), Localiza (RENT3), Assaí (ASAI3) e RD Saúde (RADL3) entre os nomes que podem se beneficiar de um cenário mais favorável.
O ponto central da análise é que são os juros reais que fazem maior diferença para esse grupo de ações: os cálculos do banco mostram correlação de -0,66 entre as variações dos juros reais e o desempenho mensal de sua cesta de ações de alto beta. Na carteira de empresas mais alavancadas, a correlação chega a -0,69, enquanto na cesta “Beta Brasil” é de -0,64. A correlação dessas estratégias com mudanças na Selic nominal, por outro lado, fica próxima de zero.
Historicamente, essa sensibilidade fez diferença justamente nos períodos de queda dos juros reais. Nesses meses, a carteira High Beta do Itaú BBA apresentou retorno médio mensal de 8,4%, enquanto as cestas High Leverage e Beta Brasil avançaram, respectivamente, 6,6% e 5,7%. O Ibovespa teve retorno médio de 4,8% nesses períodos. Quando os juros reais subiram, contudo, as três estratégias também sofreram mais do que o índice.

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Apesar do potencial de valorização, o banco prefere uma abordagem de beta com qualidade e alavancagem controlada. A cautela está ligada à expectativa da equipe macroeconômica de desaceleração do PIB em 2027. Assim, a preferência é por companhias sensíveis aos juros, mas não excessivamente dependentes da atividade econômica, combinadas a cíclicas de qualidade, infraestrutura e commodities/exportadoras.
Quais setores têm mais beta?
Para tentar medir quais ações apresentam maior elasticidade a um cenário de maior apetite por risco, o Itaú BBA criou um “Beta Scorecard”. O indicador combina quatro pilares: alavancagem, valuation, beta em relação ao Ibovespa e volatilidade.
Entre os setores, os maiores scores ficaram justamente concentrados em segmentos domésticos e sensíveis ao crédito: locação, com 93,3 pontos; educação, com 89,1; incorporadoras, com 76,3; concessões rodoviárias, com 71,6; e consumo discricionário, com 71,4. Na outra ponta aparecem telecomunicações, com apenas 7,9 pontos, e papel e celulose, com 18,8.
O ranking individual reforça que as empresas com maior beta não necessariamente coincidem com as principais recomendações dos analistas. CSN (CSNA3) lidera o score consolidado, com 100 pontos, seguida por Movida (MOVI3), com 99; Ânima (ANIM3), com 98; Vamos (VAMO3), com 97; e Cosan (CSAN3), com 96. Depois aparecem Simpar (SIMH3), MRV (MRVE3), Hapvida (HAPV3), Magalu (MGLU3) e Ecorodovias (ECOR3).
A diferença é importante: o score procura medir a elasticidade dos papéis a movimentos de mercado, enquanto a seleção qualitativa dos analistas incorpora também a atratividade do caso de investimento de cada empresa.
No setor financeiro, a ordem de preferência do Itaú BBA para esse tema é XP, B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11). A XP aparece como a principal escolha porque combina dois motores em um eventual cenário otimista: espaço para expansão de múltiplos, já que ainda negocia abaixo de sua média histórica, e possibilidade de melhora operacional com juros menores.
A B3 também apresenta alta correlação com os juros, mas sua avaliação já voltou à média histórica. Ainda assim, o banco acredita que o múltiplo pode avançar em um cenário mais favorável, ao mesmo tempo em que maior apetite por renda variável pode impulsionar volumes e receitas da bolsa. Já no BTG, cuja avaliação está um desvio-padrão acima da média histórica, o potencial dependeria mais de revisões de lucros do que de expansão de múltiplos.
O Bradesco (BBDC4), por sua vez, poderia funcionar como uma aposta de beta, mas o risco de crédito acrescenta uma fonte de perda potencial que não está presente nos nomes preferidos pelo banco. O Itaú BBA também evita usar as empresas de meios de pagamento como veículo para a tese, apesar da sensibilidade aos juros, devido às tendências operacionais ainda desafiadoras do segmento.
Ecorodovias em destaque
Em transportes, Ecorodovias (ECOR3) e Localiza (RENT3) estão entre as preferidas. A primeira é apontada como a forma mais alavancada de se beneficiar da queda dos juros dentro da cobertura do banco. Segundo a análise, cada redução de 100 pontos-base nos juros de longo prazo poderia representar cerca de 25% de potencial de valorização para a ação. O papel apresenta uma taxa interna de retorno real estimada em 14%.
Localiza, por sua vez, negocia a cerca de 9 vezes o lucro projetado para 2027 e é vista como alternativa líquida para investidores locais e estrangeiros aumentarem o beta da carteira. O contraponto é que as tendências operacionais de curto prazo continuam desafiadoras, especialmente em relação à depreciação.
Para consumo, o banco destaca Assaí (ASAI3) e RD Saúde (RADL3). No atacarejo, a tese passa pela desalavancagem e pelo crescimento dos resultados. O Itaú BBA calcula que a alavancagem do Assaí pode terminar 2026 abaixo de 2 vezes e recuar para menos de 1,7 vez em 2027. O banco projeta ainda crescimento médio anual de 28% do lucro por ação entre 2027 e 2030.
Já a RD Saúde é classificada como uma opção para diferentes cenários: o papel negocia ao redor de 16,5 vezes o lucro de 2027, e o banco vê possibilidade de expansão para 20 a 25 vezes em um ambiente otimista, mas espera sensibilidade limitada em um cenário pessimista.
Cyrela é favorita entre incorporadoras
No imobiliário, a Cyrela (CYRE3) é a principal aposta de qualidade do banco entre as incorporadoras de alta renda. Negociada a aproximadamente 1 vez o valor patrimonial, a ação poderia se aproximar de 1,4 vez em um cenário positivo, contra cerca de 0,8 vez em um ambiente negativo, uma relação considerada favorável pelo banco.
A EZTec (EZTC3) é descrita como a versão mais alavancada dessa mesma tese. Já os shoppings aparecem como uma alternativa diretamente ligada ao fechamento dos juros reais, com perda estimada de 10% a 15% em um cenário desfavorável e alta de 30% a 40% no cenário positivo.
Em energia, o Itaú BBA considera distribuição de combustíveis e Petrobras (PETR4) mais como uma tese associada ao momentum global do que propriamente um veículo de beta doméstico. No caso da Petrobras, porém, a combinação da dinâmica internacional dos preços com desempenho operacional forte e uma perspectiva doméstica de assimetria positiva permite que o papel também funcione como uma aposta de beta.
A discussão também ganhou força nas reuniões recentes do banco com investidores estrangeiros. Em um roadshow nos Estados Unidos com 28 investidores institucionais, o posicionamento em Brasil apareceu entre neutro e levemente acima da média. Embora as valuations relativas sustentem o interesse, investidores ainda aguardam maior visibilidade fiscal antes de elevar de forma mais agressiva a exposição às ações cíclicas domésticas. Nesse contexto, mercado de capitais, Localiza e Cyrela estiveram entre os principais nomes discutidos para capturar uma eventual recuperação doméstica.
O que muda na estratégia
A visão dos estrategistas passa por uma tentativa de encontrar papéis capazes de entregar maior valorização caso os juros reais cedam, sem ignorar riscos específicos das empresas.
Entre as três carteiras quantitativas acompanhadas pelo banco, a preferência é pela Beta Brasil, por reunir maior liquidez e melhores tendências de revisão de resultados. A cesta reúne 15 companhias domésticas e financeiras de maior valor de mercado com beta superior a 1 e inclui, entre outros nomes, Itaú Unibanco (ITUB4), BTG Pactual (BPAC11), Bradesco (BBDC4), Banco do Brasil (BBAS3), B3 (B3SA3), Localiza (RENT3), Raia Drogasil (RADL3) e Cosan (CSAN3).
A preferência combina as ideias de capturar o benefício da queda dos juros reais e, ao mesmo tempo, limitar a dependência de uma aceleração forte da economia. É essa combinação que leva XP, Cyrela, Ecorodovias, Localiza, Assaí e RD a ganharem destaque na seleção setorial dos analistas.
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