A taxa dos títulos de 10 anos do Tesouro americano, conhecidos como Treasuries, fechou a quarta-feira (23) em 5,11%, o maior nível desde julho de 2007, em pressão que continuou nesta quinta-feira (24), quando a taxa do título de 30 anos chegou a 5,44%, a maior desde 2004. Tratando-se da maior economia do mundo, o movimento mexe com o mercado inteiro, e chega até o investidor brasileiro.
A alta veio depois de dados mais fortes que o esperado sobre a economia americana. O PMI, índice que mede a atividade das empresas, mostrou em setembro o maior ritmo de crescimento em mais de cinco anos, com os custos subindo por causa de combustíveis e transporte. Na quarta, o diretor do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) Michael Barr disse que novas altas de juros devem ser necessárias, e o mercado passou a ver cerca de 70% de chance de outro aumento em outubro. O petróleo acima de US$ 100 por barril, sem avanço nas negociações entre EUA e Irã, ajuda a piorar o panorama.
Os motivos da alta estavam à vista havia tempo, e o mercado não deveria se surpreender mais, avalia Mohamed El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz. “O que está tendo um papel muito maior do que deveria é a ancoragem psicológica”, escreveu em publicação no LinkedIn, em referência ao hábito formado por mais de uma década de juros artificialmente baixos. Em leitura parecida, o Bank of America afirma avalia que o juro mostra que os investidores ainda não se sentem confortáveis com Treasuries num cenário de Fed voltando a subir juros, conflito no Oriente Médio e consumo americano resiliente.
Mais do que o patamar de 5% em si, é a rapidez da alta que começa a incomodar a bolsa. Em nota a clientes nesta quinta, o Goldman Sachs lembra que as ações costumam reagir mal quando os juros sobem forte em poucas semanas, e avalia que o mercado está perto desse ponto. O banco observa ainda que os juros mais altos já vinham pesando sobre o preço das ações americanas antes mesmo do salto desta semana.
Para o investidor brasileiro, o efeito aparece porque o Treasury segue como a principal referência de investimento de baixo risco no mundo, mesmo depois do rebaixamento da nota de crédito dos EUA. Quando essa referência sobe, sobe junto o retorno mínimo exigido de qualquer outro investimento, explica João Arthur, CIO da Suno Consultoria. “Se o governo americano paga 5 [por cento ao ano], o governo brasileiro tem que pagar mais”, diz.
Segundo ele, a pressão não fica restrita aos títulos públicos e chega também aos títulos de empresas, às ações e aos fundos imobiliários. O especialista lembra que o juro real, ou seja, o ganho acima da inflação, está elevado tanto nos títulos brasileiros atrelados ao IPCA quanto nos equivalentes americanos, as TIPS, o que, segundo ele, eleva a régua de todos os ativos no mundo.
No Tesouro Direto, a pressão aparece principalmente nos prefixados. O Tesouro Prefixado 2032 subiu de 14,11% no fechamento de quarta para 14,14% na manhã desta quinta, segundo o InfoMoney. Já o IPCA+ 2032 ficou praticamente estável, em 7,68%.
A alta lá fora também pode limitar o espaço para novos cortes da Selic. Não é de hoje que o cenário externo vem explicando boa parte da alta dos juros longos no Brasil.
Mas nem todos veem os juros americanos mais altos como ameaça ao Brasil e a outros países emergentes. Alejo Czerwonko, CIO para mercados emergentes do UBS Global Wealth Management, argumenta que o volume de dinheiro circulando no mundo pesa mais sobre esses mercados do que as decisões do Fed. “O ciclo atual de aperto representa um vento contrário administrável, e não uma ameaça fundamental, para as economias e os ativos emergentes”, escreve em relatório.
O executivo destaca que as ações de países emergentes estão baratas, tanto em relação à própria história quanto em relação às bolsas de países desenvolvidos. Ele lembra também que esses países, entre eles o Brasil, dependem hoje muito menos de dívida em moeda estrangeira do que em ciclos anteriores de alta de juros nos EUA. O risco, segundo ele, seria um Fed obrigado a subir os juros bem mais do que o mercado espera, com o dólar se fortalecendo ao mesmo tempo.
O que fazer com a carteira?
Na renda fixa americana, as recomendações divergem quanto ao prazo dos títulos. A BlackRock prefere títulos públicos de prazo curto e médio e está underweight (equivalente a venda) em Treasuries longos. A gestora avalia que os investidores devem exigir mais retorno para carregar esses papéis diante da inflação persistente e do alto endividamento americano. Entre os emergentes, a BlackRock está overweight (equivalente a compra) em títulos de dívida local, na visão de um investidor em dólar.
João Arthur, por outro lado, vê na taxa atual uma porta de entrada para quem está com dinheiro parado em aplicações de curtíssimo prazo, como os fundos de money market, de resgate imediato. “Para quem tem caixa é um bom patamar para você alocar, porque essas taxas de 5% no Tesouro americano são raras”, afirma. “Eu vejo mais chance de permanecer nesse patamar, ou até reduzir, do que de ir para 6%, 7% e ter mais marcação a mercado negativa.”
A marcação a mercado é a variação diária no preço dos títulos, que cai quando os juros sobem. É por isso que quem já tem títulos muito longos vê perdas no papel neste momento. Ainda assim, a recomendação do especialista é não mexer por impulso, porque a carteira distribuída entre vários tipos de investimento tende a se proteger melhor. Segundo ele, até a bolsa, que costuma sofrer nesse cenário, vem segurando o valor graças aos bons resultados das empresas. “A proteção da carteira passa pela boa e velha diversificação”, resume.
Para o investidor brasileiro, porém, a taxa mais alta lá fora não basta para superar o CDI. Um Treasury de 10 anos pagando 4,95% ao ano rende cerca de 2,2% líquidos em 12 meses para o investidor brasileiro, se o dólar ficar parado, segundo cálculo de Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, considerando taxa ainda em 4,95%. Pela conta, o dólar precisaria subir perto de 10% para empatar com a renda fixa brasileira.
Por isso, a dolarização faz mais sentido como proteção contra um cenário ruim no Brasil do que como busca por rentabilidade. “O investidor não se protege do cenário médio, se protege do cenário ruim”, diz Trevisan, que sugere manter entre 15% e 20% do patrimônio em dólar para o investidor de perfil moderado. Ele recomenda evitar produtos com proteção cambial, que anulam justamente o efeito da alta do dólar.
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