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BC diz não ver sinais de propagação inflacionária do choque recente do petróleo

Radar Olhar Aguçado(há 34 minutos)
BC diz não ver sinais de propagação inflacionária do choque recente do petróleo

Não há, até esse momento, evidências de que o recente choque nos preços do petróleo e derivados vá gerar uma propagação inflacionária relevante por meio de efeitos de segunda ordem na economia brasileira. A conclusão está em uma das análises especiais que o Baco Central apresentou nesta quinta-feira (24) em seu Relatório de Política Monetária referente ao segundo trimestre de 2026.

Os efeitos de segunda ordem, são impactos que decorrem dos efeitos primários e que afetam a formação de preços e salários. Os relacionados à formação de preços se manifestam principalmente quando as empresas elevam seus preços em proporção superior aos aumentos de custos direta e indiretamente associados ao choque. Isso pode ocorrer quando as empresas antecipam aumentos futuros de custos e decidem reajustar seus preços antes mesmo que tais aumentos se concretizem.

Esse aumento da inflação decorrente dos efeitos primários pode induzir reajustes salariais maiores, na tentativa de recompor perdas observadas ou mesmo esperadas de salário real. E esses reajustes, por sua vez, também podem dar origem a efeitos de segunda ordem caso sejam posteriormente repassados aos preços.

Dessa forma, as pressões inflacionárias tornam-se mais disseminadas e persistentes, o que faz com que os efeitos de segunda ordem sejam usualmente objeto de resposta por parte das autoridades monetárias.

Na avaliação do BC, no entanto, embora o relatório admita que os efeitos de segunda ordem podem levara algum tempo para se materializarem, é que não se observam no momento sinais de aumento da inflação em segmentos presumidamente pouco expostos ao aumento dos preços de petróleo e derivados. E no canal de formação de salários, diferentes medidas da dinâmica salarial tampouco apontam para aceleração disseminada após o início do conflito no Oriente Médio.

O Relatório de Política Monetária do lembra que o preço do petróleo oscilou consideravelmente ao longo do 2º trimestre, assim como sua trajetória prospectiva, que considera queda mais acentuada após alta no quarto trimestre de 2026.

Logo após a data de corte do RPM de junho, destaca o texto, os preços de petróleo recuaram substancialmente, repercutindo um memorando de entendimento entre os EUA e o Irã que poderia resultar no fim do conflito. Isso contribuiu para que o preço médio do Brent no terceiro trimestre seja menor que o considerado no Relatório anterior.

Porém, também é lembrado que a manutenção desse acordo provou-se difícil e as tensões voltaram a subir, ainda em julho. Ao mesmo tempo, novos desenvolvimentos no conflito entre Rússia e Ucrânia adicionaram mais pressão nos mercados de energia. Seguindo a governança das projeções do cenário de referência apresentada no apêndice metodológico, o preço do petróleo tipo Brent parte de um valor médio de US$ 90 observado ao longo do terceiro trimestre de 2026, tem pico no quarto trimestre, volta a cair até o segundo trimestre de 2027, para cerca de US$ 84, e em seguida passa a crescer 2% a.a.

“A trajetória de preços a partir desse trimestre é cerca de 2% mais baixa do que a considerada no RPM anterior. A projeção continua a incorporar uma normalização gradual das margens de refino (crack spreads) dos derivados de petróleo, que ainda permanecem bastante elevadas, e o fim das subvenções e desonerações aplicadas recentemente aos combustíveis, conforme seu prazo legal”, diz o relatório do BC.

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O BC admite que há indicadores que mostram condições potencialmente mais favoráveis à materialização do mecanismos de propagação dos preços mais altos, em especial, as expectativas de inflação de empresas e consumidores, bem como as expectativas das firmas para o crescimento dos custos de mão de obra, que aumentaram após o início do conflito.

Além disso, parte das condições iniciais da economia aponta para um cenário potencialmente menos benigno. “Em particular, a inflação encontra-se próxima ao limite superior do intervalo de tolerância ao redor da meta, as expectativas estão desancoradas e a economia opera com hiato do produto positivo e mercado de trabalho aquecido”, diz o BC.

Mas a autoridade monetária comenta que esse risco é mitigado pela política monetária em território restritivo e pela ausência de aumentos persistentes da atenção do público a temas relacionados à inflação.

O BC destaca a ausência de aumentos mais persistentes na atenção do público a temas relacionados à inflação. E cita dados do Google Trend: “embora os termos ‘preço do petróleo’ e, em menor medida, ‘preço da gasolina’ tenham registrado aumento nas buscas após o início do conflito no Oriente Médio, esse movimento foi concentrado e de curta duração”.

Resultado semelhante é observado na pesquisa “What Worries the World”, da Ipsos, em que o percentual de pessoas que cita a inflação entre os três temas mais preocupantes também não mostra elevação significativa após o início do conflito. “Esse comportamento sugere que, até o momento, o choque recente não tem sido acompanhado por aumento significativo da atenção das famílias à inflação, o que tende a limitar sua influência sobre expectativas inflacionárias e, consequentemente, sobre a materialização de efeitos de segunda ordem.”

Dessa forma, os riscos de propagação não podem ser descartados. Nesse contexto, além de acompanhar a própria evolução do atual choque de preços de petróleo e derivados e seus efeitos primários, é fundamental continuar monitorando possíveis sinais de sua propagação por meio de efeitos de segunda ordem.

Formação de preços

O BC destaca ainda que os resultados das últimas rodadas da Pesquisa Firmus não corroboram um cenário de risco elevado na formação de preços. Na verdade, as empresas têm relatado dificuldade para repassar integralmente o aumento dos custos decorrente do choque nos preços do petróleo e derivados.

“No segundo trimestre de 2026, ampla maioria das firmas reportou aumento dos custos associados a derivados de petróleo e a frete e logística, além de elevação nos custos de outros insumos. Apesar disso, apenas 43% das empresas relataram aumento dos preços de venda, o que sugere que parte do choque estaria sendo absorvida por compressão de margens”, diz o texto.

As expectativas de inflação das firmas coletadas pela Pesquisa Firmus, por outro lado, apresentam um contraponto a esse diagnóstico mais benigno. Entre fevereiro e agosto de 2026, houve aumento das expectativas para todos os horizontes pesquisados.

“O ajuste foi particularmente expressivo para a inflação esperada para 2026, mas também alcançou 2027 e 2028. Esse movimento sugere um ambiente potencialmente mais propício à materialização de efeitos de segunda ordem, embora as evidências mais diretamente relacionadas ao processo de formação de preços, discutidas nos parágrafos anteriores, apontem para limitada capacidade de repasse do choque até o momento”, pondera o BC

Formação de salários

O aumento da inflação decorrente dos efeitos primários pode induzir reajustes salariais maiores, na tentativa de recompor perdas observadas ou mesmo esperadas de salário real, diz o RPM. Esses reajustes, por sua vez, podem dar origem a efeitos de segunda ordem caso sejam posteriormente repassados aos preços.

Mas o BC diz que os dados sugerem uma contribuição limitada desse canal para a propagação do choque atual, ao menos até o momento. Apesar de os dados da PNAD Contínua continuarem indicando crescimento interanual expressivo em termos nominais, observa-se moderação nos aumentos após o início do conflito, tanto em termos nominais quanto reais.

“Por exemplo, o rendimento médio nominal habitual de todos os trabalhos cresceu 8,0% em termos interanuais no trimestre encerrado em julho, após expansão de 9,6% no trimestre encerrado em abril. As variações trimestrais reais dessazonalizadas apontam na mesma direção: o rendimento médio real habitual de todos os trabalhos recuou 0,6% no trimestre encerrado em julho, após crescimento de 0,7% no trimestre encerrado em abril.”

Os dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) também não apresentam evidências de aceleração dos salários após o choque nos preços do petróleo e derivados, diz o BC. “Os salários reais de admissão, em termos dessazonalizados, recuaram 0,1% no trimestre encerrado em julho, após redução de 0,3% no trimestre encerrado em abril. Na comparação interanual, os salários nominais de admissão continuam apresentando crescimento expressivo, ligeiramente inferior a 6% na média trimestral, mas sem sinais de aceleração após o início do conflito”, detalha.

Por fim, o BC diz que os dados de negociações coletivas tampouco apontam de forma inequívoca para pressões salariais crescentes. Considerando a data de registro das negociações, a média dos reajustes nominais observados nas Convenções Coletivas de Trabalho (CCT) alcançou 5,1% em agosto, ante 5,7% em fevereiro.

“Em contraste, os dados por data de vigência mostram algum aumento dos reajustes nominais a partir de abril, possivelmente refletindo o canal usual de inércia inflacionária. Ainda assim, os níveis atuais permanecem abaixo dos registrados em janeiro e fevereiro. Além disso, as informações por data de vigência estão sujeitas a revisões futuras, especialmente para os períodos mais recentes.”

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