A intenção de consumo das famílias paulistanas registrou em agosto o seu quinto recuo mensal consecutivo. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), apurado mensalmente pela FecomercioSP, caiu 1,2% em relação a julho, atingindo 110,9 pontos. Trata-se do recuo mais intenso do indicador desde o início do ciclo de queda em abril.
Embora o índice permaneça no campo otimista (acima de 100 pontos) e acumule alta de 4,4% ante agosto do ano passado, o cenário de curto prazo revela uma conjuntura doméstica sufocada pelos juros elevados, pelo custo do crédito e pelo endividamento.
Segundo Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, a diferença entre a desaceleração mensal e a melhora no comparativo interanual reflete a defasagem entre o ciclo de cortes da taxa Selic e o alívio efetivo no crédito.
Carvalho cita também a conjuntura econômica atual, de crédito mais caro, um alto nível de endividamento, e uma inflação que ainda corrói o poder de compra, apesar da recente desaceleração.
Ela pontua que, apesar de a taxa Selic estar recuando, o efeito dessas quedas demora a ser sentido no bolso da população, que ainda lida com restrições severas de renda.
A pressão no orçamento é tão aguda que consumidores de faixas de renda mais baixas estão recorrendo ao parcelamento no cartão de crédito para a compra de itens essenciais, como alimentos em supermercados, aponta Carvalho.
Atualmente, mais de 70% das famílias da cidade de São Paulo possuem algum tipo de dívida.
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Confiança piora entre aqueles de menor renda
A pesquisa também mostra como o comportamento econômico muda de acordo com recortes demográficos e de renda.
O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) registrou queda de 0,6% em agosto, chegando a 120,8 pontos.
Entre as famílias com renda de até dez salários mínimos, a confiança recuou 1,2%, demonstrando uma exposição maior aos custos básicos.
Em contrapartida, as famílias com renda superior a dez salários mínimos apresentaram um avanço de 0,6% no indicador.
A assessora econômica explica que os consumidores de alta renda possuem maior capacidade de planejamento do orçamento e conseguem acessar o mercado de crédito com mais facilidade, sofrendo um impacto menor das oscilações de curto prazo da economia.
No recorte por idade, o pessimismo se mostrou mais forte entre os mais velhos: consumidores com 35 anos ou mais registraram queda de 3% no ICC, enquanto o grupo mais jovem teve alta de 0,8%.
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Confiança no mercado de trabalho
Na avaliação de Carvalho, o mercado de trabalho tem funcionado como o principal amortecedor da economia paulistana para evitar um colapso no consumo. No entanto, há sinais de alerta.
O subíndice “Emprego Atual“, que avalia a percepção sobre o trabalho dos consumidores, apresentou um leve recuo mensal de 0,4%, demonstrando pouca confiança de que haverá promoções, por exemplo.
No comparativo com agosto do ano passado, o indicador teve alta de 6,3%, refletindo o mercado de trabalho aquecido. O componente foi o que atingiu maior pontuação do ICF, com 141,3 pontos.
Quando perguntados sobre a “Perspectiva Profissional“, o resultado foi um recuo de 10,5% na comparação anual e de 4,5% comparado ao mês anterior.
Carvalho atribui essa deterioração nas expectativas a uma insegurança crescente do trabalhador, impulsionada pelo fechamento de micro e pequenas empresas e pelo aumento nos pedidos de recuperação judicial.
Perspectivas para o fim do ano e 2027
Com a proximidade do último trimestre, período vitrine para o comércio em virtude da Black Friday e do Natal, o clima é de apreensão. O ano de 2026 tem se revelado desafiador, frustrando as apostas de aquecimento que o varejo havia feito com eventos como a Copa do Mundo, que não gerou a tração esperada de vendas, pontua Carvalho.
Ela destaca que o faturamento real do varejo no estado de São Paulo já opera no vermelho. Para as festas de fim de ano, a FecomercioSP projeta uma melhora residual no humor dos compradores pós-eleições, mas ressalta que as vendas devem ser menores do que as do ano anterior. Segundo a assessora econômica, o paulistano não parou de gastar, mas tornou-se seletivo, comparando preços com rigor e evitando o comprometimento com bens duráveis de alto valor.
O horizonte para 2027 exige ainda mais cautela. A especialista alerta que, mantido o cenário atual sem uma definição clara de políticas econômicas que restaurem o poder de compra das famílias, há riscos de um agravamento da crise. Frente a esta conjuntura restritiva, a recomendação é de ajuste de rotas, tanto das famílias quanto das empresas.
Para as famílias, a orientação central é o enxugamento do uso do cartão de crédito, que possui as maiores taxas de juros do mercado, além de um replanejamento financeiro focado na quitação de dívidas e na organização de longo prazo.
Já para as empresas do varejo, a FecomercioSP indica que a saída não está em conceder descontos genéricos que corrompam as margens de lucro, mas em fazer uma gestão de estoque e caixa, focando promoções em produtos encalhados e renegociando prazos com fornecedores para fugir do fantasma da recuperação judicial.
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