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“Se der errado, é pouco”: ainda dá tempo de lucrar com o Tesouro IPCA+?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
“Se der errado, é pouco”: ainda dá tempo de lucrar com o Tesouro IPCA+?

Quem apostou nos títulos públicos atrelados à inflação começou, enfim, a colher resultados. Há 30 dias, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava juro real de 8,15% ao ano, mas já recuou cerca de meio ponto percentual até a quarta-feira (16). O papel com vencimento em 2040 fez caminho parecido, de 7,63% para 7,31%, ambos ajudando a valorizar a carteira de quem já estava investido. Mas ainda dá tempo de entrar? E, se sim, qual é o espaço para ganhos?

A Ghia Multi Family Office analisou a renda fixa atrelada à inflação, e aponta que parte relevante da resposta passa pela eleição presidencial: na leitura da casa, essa história ainda está longe do fim. “A gente acredita que a maior parte do movimento (de fechamento das taxas) ainda não aconteceu”, afirma Bruno de Paula, diretor da Ghia.

No estudo, o family office argumenta que parte relevante das pressões sobre os juros reais está ligada à percepção dos investidores sobre a política fiscal. Em ano eleitoral, essa percepção passa pela orientação econômica dos candidatos. 

Segundo o modelo estatístico da casa, o juro real de 10 anos reage de forma robusta à inflação acumulada em 12 meses e ao CDS (credit default swap) de 5 anos, um ativo que serve de termômetro do risco-país. Já a resposta ao resultado primário é modesta: um aumento de 0,44 ponto percentual na diferença entre receitas e despesas do governo aparece associado a uma queda de apenas 0,0895 ponto percentual nas taxas em três meses.

Bruno de Paula, diretor da Ghia Multi Family Office (Foto: Divulgação)

Para De Paula, isso mostra que o mercado olha mais para a frente do que para o retrato atual das contas. “Não é tanto sobre o que você faz hoje, mas como você sinaliza”, diz. Na visão dele, o prêmio pode cair de forma duradoura com um plano que faça a relação entre dívida e PIB “parar de apontar para cima e começar a apontar para baixo”, mais do que com um esforço fiscal de curtíssimo prazo.

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O exemplo dos vizinhos

A outra frente do estudo observa Chile, Colômbia e Peru. Os três elegeram recentemente governos percebidos como pró-mercado e mais austeros. Nos três casos, os juros de 10 anos caíram antes da confirmação do resultado:

  • Chile: após a vitória de José Antonio Kast, em dezembro de 2025, as taxas se estabilizaram cerca de 30 pontos-base abaixo do patamar anterior.
  • Colômbia: com a vitória apertada de Abelardo de la Espriella, em junho, recuaram do pico de 14,29% para 11,50%.
  • Peru: com a eleição de Keiko Fujimori, também em junho, foram de 6,6% para 5,9%.

O estudo pondera que a análise é qualitativa e feita com juros nominais. Na Colômbia e no Peru, parte da queda reflete o alívio global com a dissipação do conflito no Oriente Médio. No Chile, a eclosão da guerra, no fim de fevereiro, devolveu os juros ao patamar anterior.

Para o Brasil, Bruno avalia que o efeito pode ser ainda mais forte: como a dívida é maior, as expectativas tendem a reagir com mais intensidade. Sobre o recuo das taxas, Gabriel Gonçalves, analista de alocação da Ghia, é cauteloso. Ele vê o acirramento das pesquisas eleitorais desde o fim de julho como “uma evidência muito primária, muito preliminar” de que esse processo estaria em curso. 

De Paula atribui boa parte do movimento à mudança nas pesquisas, somada à desaceleração da atividade e a dados de inflação melhores que o esperado, e diz acreditar que o mercado reagiria bem a qualquer plataforma que não seja a do PT.

Ainda há espaço para queda?

O diretor da Ghia reconhece que existe um limite para a queda dos juros. O Banco Central precisa manter a política monetária em terreno restritivo enquanto a inflação segue distante da meta. “Mas a gente acha que esse limite ainda está longe”, diz, especialmente nos prazos de quatro a cinco anos.

Para dimensionar o potencial, a Ghia montou uma matriz que simula o retorno de cada vencimento em 12 meses diante de diferentes movimentos das taxas. Para a NTN-B 2032, simulada a uma taxa de 8,36%, o retorno seria de 14% com juros estáveis, 19,5% com uma queda de 1 ponto percentual e 8,8% com uma alta da mesma magnitude.

Título Queda de 1 p.p.Queda de 0,5 p.p.Taxa estávelAlta de 0,5 p.p.Alta de 1 p.p.
NTN-B 2032 (8,36%)19,5%16,7%14,0%11,3%8,8%
NTN-B 2040 (7,74%)28,0%20,4%13,3%6,7%0,4%
NTN-B 2050 (7,43%)40,1%25,8%13,0%1,5%-8,7%
Retorno nominal em 12 meses. A simulação considera IPCA de 5,17% e CDI de 14% ao ano
Fonte: Ghia MFO.

Nos prazos mais longos, a distância entre os cenários se amplia. A NTN-B 2040, simulada a 7,74%, iria de 13,3%, com taxas estáveis, para 28% num fechamento de 1 ponto. Numa alta da mesma magnitude, ficaria praticamente zerada, com retorno de 0,4%. Em todos os casos, o ganho com a queda supera a perda com a alta de mesmo tamanho. “Se der errado, é pouco. E, se der certo, você tem muito para capturar”, resume De Paula.

Ele avalia ainda que as simulações da casa foram “relativamente mais tímidas”. Segundo ele, a experiência dos vizinhos mostra “espaço para ser até um pouco mais intenso”. O estudo, porém, faz uma ressalva: boa parte do que pode levar ao fechamento dos juros depende de fatores externos à economia, como o contexto geopolítico e a evolução do ciclo eleitoral.

O que fazer agora?

Mesmo com a leitura construtiva, a Ghia adota cautela com o prazo. Por falta de clareza sobre o futuro, a casa evita vencimentos muito longos e procura ficar perto da duration (prazo médio da carteira) do IMA-B (índice da Anbima que reúne as NTN-Bs), em torno de seis anos. “Se a gente tivesse toda a convicção do mundo, com certeza estaria na maior duration possível, mas não é o caso”, diz, lembrando o risco de um segundo turno em que um dos lados “radicalize”.

Para a pessoa física, Bruno vê nos ETFs que replicam o IMA-B uma forma de acompanhar a tese sem depender de um título específico. Esses fundos mantêm o prazo médio ao longo do tempo, trocando papéis que se aproximam do vencimento por outros mais longos. Segundo ele, é uma gestão que o investidor de varejo dificilmente faria sozinho.

A lógica da casa privilegia o rendimento contratado, e não a aposta em valorização pela marcação a mercado. Para capturar uma eventual queda mais forte dos juros, a Ghia tem preferido outras classes como posições táticas: fundos imobiliários de tijolo, que considera descontados, e ações. Os prefixados seguem de fora – o diretor da Ghia diz não ter carregado esses títulos nos últimos três anos, por ver assimetria ruim, e só trocaria parte da exposição em NTN-B por eles com muita clareza sobre o cenário, algo que considera improvável.

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