Últimas

Do colchão no chão ao escritório de R$ 12 bi: a trajetória de Alcione Louzada

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Do colchão no chão ao escritório de R$ 12 bi: a trajetória de Alcione Louzada

Durante uma fase da vida de Alcione Louzada, casa e trabalho tinham o mesmo endereço. Hoje, aos 42 anos, ele é planejador financeiro CFP e consultor de valores mobiliários na Nippur Wealth, consultoria ligada à XP, que mantém R$ 12 bilhões sob custódia.

Nascido em Machadinho, no interior do Rio Grande do Sul, Louzada estudou em escola pública e começou a trabalhar ainda adolescente.

Aos 14 anos, entrou nos Correios por meio de um programa voltado a jovens de famílias de baixa renda. Ficou até os 17 anos e 10 meses, limite de idade do programa.

Na agência, fazia atendimento ao público e também saía a pé pelo centro da pequena cidade — de menos de 6 mil habitantes — para entregar cartas e contas de água, luz e telefone. Foi seu primeiro emprego formal e sua primeira fonte de renda.

Parte do dinheiro serviu para pagar um curso de informática. Os instrutores perceberam sua facilidade com o tema e o chamaram para estagiar.

Quando o contrato com os Correios terminou, surgiu uma proposta que mudaria sua rotina: trocar de cidade para dar aulas de informática.

A primeira parada foi Paim Filho, também no Rio Grande do Sul. O lugar onde trabalharia tinha laboratório, recepção, banheiro, cozinha e um pequeno quarto.

Era também onde Louzada passaria a morar. “Era um quartinho, com colchão no chão, onde eu dava aula de informática”, conta.

A rotina se repetiria conforme a rede abria novas unidades. Louzada estudava o conteúdo, preparava as aulas e ensinava os alunos. Quando precisava assumir outra filial, mudava novamente de cidade.

Leia também:
Da Disney ao BankBoston e R$ 1 bi sob custódia: a carreira de André Osowski

De cidade em cidade para dar aulas

O trabalho levou Louzada por diferentes municípios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Depois de Paim Filho, morou em Serafina Corrêa e pegava ônibus diariamente para dar aulas em Casca. Passou ainda por Fontoura Xavier, Salto do Jacuí, Otacílio Costa e Capinzal, além de cobrir professores em outras cidades quando necessário.

Junto com o ensino de informática, passou a coordenar instrutores e estagiários.

Foi também nesse período que decidiu buscar uma graduação. Sem condições de pagar uma faculdade e precisando continuar trabalhando, Louzada fez o Enem e tentou uma bolsa pelo Programa Universidade para Todos (ProUni).

Pensou inicialmente em seguir na área de tecnologia, mas encontrou a oportunidade de cursar Administração gratuitamente.

“Gostei da tal da Administração”, diz. Àquela altura, ele já coordenava pessoas na escola e começou a enxergar outras possibilidades para a carreira.

Leia também:
De psicóloga a sócia: como Aline Rosa construiu uma carteira de R$ 300 milhões

Da informática para vendas e indústria

Em 2011, Louzada mudou-se para Erechim (RS). A experiência como instrutor ajudou na transição para uma empresa de software, onde passou a vender soluções de gestão para companhias do setor têxtil.

O trabalho envolvia prospecção, pesquisa de mercado, apresentações remotas e visitas a clientes de diferentes regiões do Brasil. Louzada ficou cerca de oito meses na empresa.

Depois, voltou à tecnologia, agora como analista de TI em uma indústria. Comprava e instalava equipamentos, consertava computadores e prestava suporte aos funcionários.

A função mantinha uma característica presente nos trabalhos anteriores: o contato com pessoas. Louzada circulava do chão de fábrica à diretoria para resolver problemas dos usuários.

Nesse período, concluiu a graduação em Administração, em 2014. A formação também o levou a considerar outros caminhos profissionais.

Louzada percebeu que teria dificuldades para avançar dentro da área técnica de TI e começou a procurar carreiras em que pudesse aproveitar a experiência de atendimento e relacionamento.

O mercado financeiro apareceu no radar.

Leia também:
A assessora que encontrou na corrida de montanha um diferencial para a carreira

Aos 31 anos, a entrada no Sicredi

A transição não ocorreu de primeira. Louzada precisou tentar diferentes vagas até conseguir entrar no Sicredi, instituição financeira cooperativa com atuação nacional, emprego que àquela altura se tornara sua maior ambição profissional.

A contratação ocorreu em 1º de junho de 2015, quando tinha 31 anos.

Mesmo com graduação concluída e experiência profissional em outras áreas, Louzada deu alguns passos atrás na carreira, para começar no Sicredi como assistente de atendimento — a função era semelhante à ocupada por estagiários e jovens aprendizes.

Depois, Louzada passou a atuar como assistente de negócios para pessoas físicas. Entre os públicos atendidos estavam jovens de 16 a 21 anos e também os clientes aposentados.

O trabalho exigia certificação para a comercialização de produtos financeiros. Foi nesse período que Louzada começou a ampliar os estudos sobre o mercado.

Entre 2016 e 2017, surgiu uma seleção interna para um programa de educação financeira. A vaga exigia facilidade para falar em público, conhecimento de informática e disponibilidade para viajar.

A experiência anterior dando aulas ajudava a preencher esses requisitos. Louzada participou da seleção e foi escolhido.

Leia também:
De bombeiro a consultor de investimentos: ele salvava vidas, hoje protege patrimônios

Da educação financeira aos investimentos

No programa, Louzada passou a realizar palestras e encontros sobre finanças pessoais, comportamento financeiro e educação financeira. As atividades aconteciam em escolas, cursos técnicos, semanas acadêmicas, empresas e entidades empresariais.

Ao mesmo tempo, ele continuou buscando certificações do mercado financeiro. Depois da certificação exigida para a função comercial, obteve a CPA-20 e direcionou os estudos para investimentos.

A mudança seguinte ocorreu em 2019. Naquele ano, Louzada foi convidado a assumir a área de assessoria de investimentos da cooperativa.

A estrutura abrangia 252 profissionais de negócios, entre pessoas que atendiam clientes pessoa física, pessoa jurídica e diferentes faixas de renda.

Louzada fazia treinamentos com essas equipes, participava de reuniões e eventos com investidores e também atuava na prospecção de regimes próprios de previdência social (RPPS). A área cobria regiões de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais.

O trabalho ampliou sua atuação no mercado de investimentos, mas também expôs limitações que ele identificava no modelo de trabalho.

Segundo Louzada, a extensão da área atendida e o volume de demandas dificultavam um acompanhamento mais próximo de determinados clientes.

Assim, em 2021, ele decidiu deixar o Sicredi.

Leia também:
Entre bisturis e patrimônios: a trajetória de um médico no mercado financeiro

A saída do banco e a chegada à Nippur

Naquele momento, Louzada já acumulava estudos e certificações na área de investimentos e também havia atuado como mentor de outros profissionais do mercado financeiro. Foi então para a Nippur, inicialmente como assessor de investimentos.

A mudança para a consultoria começou a ser desenhada posteriormente. Louzada já possuía a certificação CFP e tinha um perfil profissional voltado ao planejamento financeiro.

Em julho de 2022, ele deixou de atuar como assessor e fez o processo para se tornar consultor de valores mobiliários registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A estrutura jurídica da consultoria foi formalizada no ano seguinte, em 2023.

Hoje, Louzada integra a Nippur Wealth, braço de consultoria de investimentos da Nippur. O escritório tem a XP como sócia e soma R$ 12 bilhões sob custódia.

Leia também:
Modelo de remuneração fee fixo cresce mais de 5 vezes no mercado financeiro do Brasil

De ensinar informática a orientar famílias

O trabalho atual vai além da escolha de aplicações financeiras. Louzada atua como ponto de referência para famílias que procuram organizar diferentes dimensões do patrimônio.

O planejamento pode envolver investimentos, finanças comportamentais, aposentadoria, gestão de riscos e seguros e questões fiscais e sucessórias.

Quando uma demanda exige outra especialidade, como contabilidade, o trabalho inclui direcionar o cliente a profissionais da área.

Um exemplo é o atendimento a três integrantes de uma mesma família que, juntos, têm cerca de R$ 40 milhões sob sua consultoria. O relacionamento começou com um cliente e depois chegou à irmã e à mãe dele.

Para Louzada, existe um elemento comum entre trabalhos aparentemente tão diferentes quanto entregar correspondências em Machadinho, ensinar informática, prestar suporte de TI e orientar investidores.

“Se tu olhar minha trajetória, sempre foi estar com pessoas”, avalia.

Segundo Louzada, o trabalho atual também exige compreender as necessidades específicas de cada cliente. “Não tratar todo mundo como igual é entender particularidades”, explica.

Leia também:
Antes dos investimentos, as pessoas: a receita da melhor assessoria em alocação

Formação acompanhou as mudanças

A busca por formação também acompanhou as diferentes etapas da trajetória profissional de Louzada.

Além da graduação em Administração, Alcione tem MBA em Gestão Empresarial pela FGV e formação em Corporate Finance pela Ohio University, nos Estados Unidos.

A formação internacional foi realizada em 2024 e também representou a realização de um objetivo pessoal. Ao falar sobre a própria trajetória, Louzada relaciona as mudanças profissionais à busca por novos caminhos.

Hoje, aos 42 anos, ele trabalha em Passo Fundo (RS).

Sua rotina é diferente dos anos iniciais como aprendiz nos Correios, mas Louzada identifica no trabalho uma característica presente desde os primeiros empregos: ouvir as pessoas, compreender suas necessidades e buscar soluções.

“É empatia, entender a demanda do cliente e formatar uma solução personalizada”, conclui.

Leia também:
O velho “boca a boca” ainda funciona – e levou consultoria do PR ao Top 4 do mercado

The post Do colchão no chão ao escritório de R$ 12 bi: a trajetória de Alcione Louzada appeared first on InfoMoney.

Do colchão no chão ao escritório de R$ 12 bi: a trajetória de Alcione Louzada — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado