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Risco de restrição pontual de diesel volta ao radar diante de defasagem da Petrobras

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Risco de restrição pontual de diesel volta ao radar diante de defasagem da Petrobras

RIO DE JANEIRO/SÃO PAULO, 16 Set (Reuters) – A nova escalada dos preços internacionais do diesel neste mês ampliou para níveis recordes a defasagem em relação aos valores praticados pela Petrobras (PETR3;PETR4) no Brasil, levando importadores no país a adiar decisões de compra e aumentando preocupações com restrições localizadas de oferta e distorções regionais no mercado brasileiro, segundo executivos do setor de distribuição e importação.

Para o próximo mês, quando sazonalmente há um pico de consumo de diesel no Brasil, em momento de plantio da safra de verão, estão previstas por ora importações de 120 mil metros cúbicos (m³) do combustível pelo país, sendo cerca de 75% da Petrobras, segundo dados do “line up” da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Para setembro, a Abicom estima 870 mil m³ de importações de diesel programadas, das quais 40% seriam realizadas pela Petrobras. O volume, com o mês caminhando para sua segunda metade, já é mais próximo do total que o país importa normalmente nesta época, de pouco mais de 1 milhão m³.

A programação de embarcações importadoras, entretanto, é um retrato do momento e pode mudar, dependendo da tomada de decisão de agentes do mercado nas próximas semanas, ponderaram especialistas.

“A demanda de outubro normalmente é maior do que a demanda de setembro, e as refinarias (no Brasil) não vão produzir mais em outubro do que produziram em setembro, porque elas já estão operando perto do limite máximo”, disse o presidente da Abicom, Sérgio Araujo, à Reuters.

“Ainda vejo um risco até de navio, que a gente está prevendo chegar aqui na última semana de setembro, de repente não chegar, porque o mercado internacional está pagando muito mais caro (pelo diesel)”, alertou, explicando que a presença no “line up” não evita que os navios sejam desviados para suprir outras regiões que ofereçam lances mais altos.

O petróleo Brent, referência internacional, fechou acima de US$108 o barril na terça-feira, com alta de US$3,07 ante a sessão anterior e acima dos cerca de US$93 no início do mês. Os futuros do diesel nos Estados Unidos fecharam na terça-feira em nível recorde.

Na terça-feira, os preços do diesel praticados pela Petrobras — principal supridora do produto no país — ficaram R$3,89/litro abaixo dos valores praticados no mercado internacional, uma defasagem em patamar recorde, segundo a Abicom. Isso reduz a atratividade econômica das importações por agentes independentes e aumenta os riscos da operação, disse Araujo.

Atualmente, cerca de 30% do mercado brasileiro de diesel é atendido por importações.

A Petrobras tem mantido seus preços estáveis, enquanto participa de programa de subvenção do governo federal para evitar impactos da guerra do Oriente Médio no consumo de combustíveis do Brasil, em um ano importante de eleição presidencial. Além do conflito no Irã, o diesel está em alta no mercado internacional por conta da redução da oferta russa, diante de ataques ucranianos às refinarias.

Procurada, a petroleira afirmou em nota que prevê importações de diesel em volumes compatíveis com a demanda para setembro e outubro, considerando a sazonalidade típica do período, influenciada, entre outros fatores, pelo escoamento das safras.

“As entregas de diesel pelas refinarias da Petrobras seguem conforme o planejado e de acordo com os compromissos comerciais vigentes. A companhia está cumprindo integralmente suas obrigações junto às distribuidoras, entregando todo o volume contratado”, afirmou a petroleira estatal.

A petroleira observou, entretanto, que o mercado nacional também é atendido por outros agentes, como distribuidores, importadores e outros produtores, que complementam a oferta de combustíveis.

A Petrobras não costuma comentar sobre defasagens apontadas pelo mercado nos preços de combustíveis, afirmando que conta com uma logística mais eficiente.

RESTRIÇÕES PONTUAIS

A expectativa no mercado é que haja um cenário semelhante ao verificado em março, após o início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, quando as grandes distribuidoras que atuam no país atenderam aos contratos, assumindo riscos com volumosas importações, mas houve restrições pontuais, segundo agentes do setor.

Nesta semana, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) afirmou em nota ter notificado a reguladora do setor de petróleo e combustíveis (ANP) sobre “profunda preocupação com os novos relatos de restrições e atrasos na entrega de óleo diesel aos produtores rurais gaúchos, justamente no momento em que se inicia o plantio da safra de verão”. 

A notificação da Farsul foi vista com surpresa por alguns agentes do mercado, uma vez que a demanda gaúcha é praticamente 100% suprida pela refinaria da Petrobras Refap, no Estado.

Uma fonte do setor de distribuição, entretanto, afirmou ter recebido relatos de que clientes do Paraná e de Santa Catarina, que dependem mais de produto importado, estão indo ao Sul buscar diesel mais barato, o que poderia estar causando alguma perturbação no mercado.

“Se tiver uma outra alternativa mais barata, naturalmente todo mundo vai correr para a alternativa mais barata e, se essa alternativa mais barata for muito mais barata, gente de mais longe vai querer ir lá buscar o produto”, afirmou a fonte, na condição de anonimato.

Procurada, a ANP disse que, em contatos realizados pela agência com a Petrobras e com os principais distribuidores que atuam no Rio Grande do Sul, os agentes informaram que as entregas estão ocorrendo normalmente, dentro dos volumes contratados entre as partes e que, até o momento, a agência não identificou a existência de risco de desabastecimento no Estado.

Apesar do cenário de preocupação e restrição de produto, agentes do mercado descartam no momento riscos de desabastecimento sistêmico. 

“Tudo indica que o começo de outubro vai ser provavelmente o mais baixo do ano (em estoques)… Longe de ser um país seco, longe de haver escassez de produtos, mas é um momento em que você começa a ver um pouco de falta de produto em um local ou no outro”, disse uma segunda fonte do setor de distribuição na condição de anonimato.

“Não vejo um problema de abastecimento no Brasil, longe disso, mas eu vejo um mercado mais apertado.”

O especialista de Inteligência de Mercado da StoneX Bruno Cordeiro destacou que o Brasil reconstruiu estoques ao longo deste ano. Após situações de aperto em março, a produção maior e a importação acabaram por superar a demanda interna, o que evidenciou a capacidade do país de passar por crises “via queima de estoques”, acrescentou ele. 

“É um cenário apertado, mas não há preocupação com um desabastecimento amplo”, disse.

Uma terceira fonte do setor de distribuição que falou no anonimato ressaltou que ainda dá tempo para a contratação de novos volumes. “Acho que na última hora acaba chegando navio”, afirmou.

“Quem está importando banca a diferença; está se arriscando, mas não tem custo mais alto do que não ter produto. Há incerteza, mas acho que não vai ter desabastecimento sistêmico”, afirmou.

Procurada, a associação de distribuidoras regionais Brasilcom afirmou que as empresas associadas vêm fazendo um esforço diante de incertezas para poder manter o mercado abastecido.

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