“A persistência de juros reais no patamar de 8% e o avanço da dívida pública em relação ao PIB configuram uma trajetória insustentável, e a margem para evitar um ajuste conduzido pela inflação é cada vez menor”, afirmou Pierre Jadoul, diretor-executivo e gestor responsável pela estratégia de crédito privado da ARX Investimentos, sobre os riscos macroeconômicos e o mercado de crédito.
A avaliação de Jadoul foi feita durante entrevista ao programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo. Na conversa, o executivo alertou que um cenário de dívida alta somado a taxas de juros expressivas demandaria um nível de crescimento econômico que o Brasil historicamente não entrega.
Ele acredita que, caso não ocorra um reequilíbrio das contas públicas, a alternativa final tende a ser o ajuste via alta dos preços, momento em que o câmbio deprecia e a inflação avança.
Além disso, Jadoul afirma que a margem de manobra do país para gerir o endividamento atual é menor do que em crises fiscais anteriores, o que pressiona a gestão da dívida pelo Tesouro Nacional.
“Eu acho que, talvez antes disso, o governo vá parar de emitir NTN-B. Já está começando a acontecer um pouco agora: começa a emitir cada vez mais pós-fixado porque não quer chancelar seja um pré muito alto, seja principalmente uma NTN-B superalta. O próximo passo é começar a encurtar a emissão de dívida, emitir títulos cada vez mais curtos”, disse.
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Segundo o executivo, embora a disparada dos preços não seja o seu cenário-base (cuja aposta principal recai sobre uma correção de rota fiscal no próximo ciclo), a probabilidade desse desfecho de cauda tem aumentado.
Bancos mantêm solvência, mas papéis subordinados exigem atenção
Apesar do ambiente macroeconômico difícil, a deterioração observada no balanço de grandes instituições financeiras ainda se mantém distante de gerar um risco sistêmico de insolvência no setor bancário.
Segundo Jadoul, os grandes bancos continuam operando com rentabilidade e capacidade de geração de capital para cumprir os requisitos de Basileia, enquanto bancos públicos contam com suporte estatal implícito.
Entretanto, o executivo ressalta que a complacência do mercado em relação a papéis emitidos por instituições financeiras com menor prioridade de recebimento em caso de liquidação.
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Ao mesmo tempo, as instituições financeiras têm adotado posturas mais seletivas para a concessão de empréstimos, elevando as exigências de garantias e competindo por emissões de grandes empresas com alta qualidade de crédito (high grade).
Gestão foca revisão de portfólio e descarta produtos sem histórico
Frente às incertezas do cenário econômico, a estratégia de alocação no mercado de crédito tem priorizado a revisão rigorosa de ativos já existentes nas carteiras em detrimento do ingresso em novas teses ou setores de maior volatilidade.
Jadoul destacou a rejeição a empresas de perfil operacional sem ativos tangíveis (asset-light), com margens reduzidas e dependência excessiva de capital de giro, cujas taxas de recuperação são baixas em processos de reestruturação.
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A cautela também se aplica a modalidades recentes de financiamento ao consumo lançadas via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), a exemplo do novo consignado privado originado por empresas sem histórico consolidado na modalidade.
“Eu prefiro. Eu olho aquilo e falo: ‘Operacionalmente ainda não está 100% ajeitado, as garantias não estão 100% ajeitadas, ninguém tem track record porque é um negócio supernovo'”, disse Jadoul.
Para manter rentabilidade sem assumir exposição a modelos não testados em períodos de desaceleração econômica, a opção do especialista tem sido concentrar o risco em grandes grupos corporativos que apresentem boa capacidade de captação bancária e liquidez adequada, ainda que operem com níveis mais elevados de alavancagem.
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