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Gigantes dos EUA cruzam o Atlântico em busca de dívida mais barata para financiar IA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Gigantes dos EUA cruzam o Atlântico em busca de dívida mais barata para financiar IA

Um número sem precedentes de empresas americanas emitiu títulos de dívida na Europa nesta quarta-feira (9), atraídas pela liquidez e pelas condições mais favoráveis do mercado europeu, enquanto o mercado doméstico dos EUA sofre pressão devido à enxurrada de endividamento ligada aos investimentos em inteligência artificial.

A Amazon concluiu a emissão de seu primeiro título denominado em libras esterlinas, enquanto a Uber finalizou sua estreia no mercado de dívida em euros. Outras quatro companhias americanas também realizaram operações neste mesmo dia. Segundo dados compilados pela Bloomberg, é a primeira vez que a Europa registra um volume tão grande de emissores dos EUA em um único dia.

Empresas americanas, incluindo bancos, estão buscando fontes alternativas de financiamento à medida que o maior mercado de títulos do mundo sente os efeitos do enorme volume de captações realizadas por companhias envolvidas na corrida pela inteligência artificial. A avalanche de emissões das chamadas hyperscalers, gigantes de tecnologia com extensas operações de computação em nuvem, reduziu o espaço para outros emissores e é apontada como um dos fatores que contribuíram para a alta dos rendimentos dos Treasuries.

Mesmo antes das operações desta quarta-feira, empresas americanas já haviam emitido €149 bilhões (US$ 173 bilhões) em títulos na Europa em 2026, volume inferior apenas ao recorde histórico registrado em 2025, segundo dados da Bloomberg.

“Para as empresas, faz sentido buscar financiamento onde ele estiver disponível”, afirmou Juan Valencia, estrategista de crédito do Société Générale. Segundo ele, as companhias americanas estão se tornando ativas em qualquer mercado que ofereça boa liquidez, e o mercado em euros é atualmente a melhor alternativa ao dólar.

O custo de carregar dívidas em euros continua significativamente menor para empresas com grau de investimento do que o custo de financiar-se em dólares, um fator especialmente relevante para multinacionais que geram parte importante de suas receitas na Europa.

Ainda assim, captar recursos em euros e depois converter o montante para dólares por meio de operações de hedge cambial tem custado praticamente o mesmo que emitir dívida diretamente na moeda americana nas últimas semanas, segundo cálculos da Bloomberg.

Além do custo, a Europa oferece outra vantagem às empresas dos EUA. As avaliações permanecem relativamente atraentes porque a maior parte das emissões das hyperscalers ocorreu nos Estados Unidos. Alguns investidores, contudo, alertam que esse benefício pode diminuir caso o mercado europeu absorva um volume muito maior de novas dívidas.

Embora o mercado em libras esterlinas não ofereça condições tão competitivas quanto o mercado em euros, o Reino Unido continua atraindo estreantes. A Amazon levantou £4,25 bilhões (US$ 5,8 bilhões) em sua primeira emissão na moeda britânica, tornando-se uma das maiores operações do mercado no período recente. Situação semelhante ocorreu com a Alphabet, controladora do Google, no início deste ano.

A Amazon, que deve investir cerca de US$ 220 bilhões em 2026, já havia concluído suas necessidades de financiamento em dólares para este ano com uma emissão de US$ 25 bilhões realizada em julho. Novas emissões na moeda americana, portanto, seriam apenas oportunísticas.

“As pressões técnicas no mercado de títulos em dólar têm sido dolorosas”, escreveram analistas da CreditSights liderados por Jordan Chalfin em relatório divulgado nesta quarta-feira. Segundo eles, grandes emissões nos Estados Unidos costumam exigir prêmios elevados aos investidores, tornando o financiamento mais caro. Como resultado, as hyperscalers estão diversificando suas fontes de recursos.

Apesar disso, a participação de empresas americanas no mercado europeu de títulos corporativos de alta qualidade aumentou menos de um ponto percentual desde o início de 2025, já que companhias europeias também vêm aproveitando a forte demanda dos investidores por crédito corporativo.

Ainda assim, a expectativa é que as emissões de empresas americanas no exterior, especialmente das gigantes de tecnologia, continuem crescendo à medida que as projeções de gastos com infraestrutura de inteligência artificial seguem aumentando. Além disso, muitas companhias buscam reduzir a exposição à volatilidade política nos EUA.

“Mais emissões ligadas à construção da infraestrutura de IA, além da antecipação de captações antes das eleições francesas, devem ter um impacto líquido relevante no mercado”, afirmou Marco Stoeckle, chefe de estratégia de crédito do Commerzbank.

© 2026 Bloomberg L.P.

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