Últimas

Orçamento de 2027 é “obra de ficção” e crise está contratada, diz ex-Banco Mundial

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Orçamento de 2027 é “obra de ficção” e crise está contratada, diz ex-Banco Mundial

A inflação está desacelerando, mas ainda não é possível afastar de vez o fantasma da estagflação, cenário que combina inflação alta e baixo crescimento econômico. A avaliação é do economista Carlos Primo Braga, ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial.

Ao analisar a atual conjuntura macroeconômica, ele alerta que o desequilíbrio fiscal e o alto endividamento público e privado criam um ambiente preocupante. “Independentemente de quem for eleito, nós temos um encontro marcado com essa crise em 2027”, afirma Braga, que também é professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC).

Os recentes dados de atividade não surpreendem o mercado financeiro, que já projetava uma desaceleração devido aos juros restritivos por tempo prolongado. O Produto Interno bruto (PIB) do segundo trimestre avançou 0,5% frente ao trimestre anterior, mas foi a queda de -0,4% no consumo das famílias que chamou a atenção.

Segundo Braga, esse recuo reflete diretamente o impacto do alto nível de endividamento, que bateu mais um recorde e ficou em 82% em julho, segundo a Confederação Nacional das Indústrias (CNC). Segundo o Serasa, 83,9 milhões de pessoas estão inadimplentes.

Saiba mais: Diretor do BC diz que é indiscutível que bets são elemento central para endividamento

Esses números ocorrem em meio a um cenário positivo de emprego formal, com taxa de desemprego nas mínimas históricas e avanço da renda real. Braga pondera que, embora 40% da força de trabalho brasileira ainda atue na informalidade, os juros altos impedem que os demais consigam sair das dívidas, com a inflação corroendo o poder de compra. Soma-se a isso a proliferação das bets, que piora o endividamento. 

O peso das dívidas ajuda a explicar a queda de 0,4% no consumo das famílias no segundo trimestre. Como o consumo domiciliar representa a maior fatia do Produto Interno Bruto (PIB) do país, essa asfixia financeira trava a capacidade de expansão da economia. O governo aposta em avanço do PIB de 2% ou mais no ano, mas o relatório Focus aponta taxa menor, na faixa de 1,9%.

Diante disso, o economista prevê a temida estagflação num horizonte próximo. Ele afirma que o Brasil continua preso ao que alguns especialistas chamam de “maldição dos 2%”, uma dificuldade estrutural de crescer acima desse patamar. Aliado a isso, a inflação deve encerrar o ano pressionando o teto da meta, podendo atingir a casa dos 5%, avalia Braga.

“Continuamos com o que alguns economistas chamam a maldição dos 2%, não conseguimos crescer muito acima disso. E com uma inflação próxima ou até um pouco acima do teto da meta, a previsão para 2027 é de estagflação. Essa é a realidade”, avalia.

Leia também: Brasil está mais sujeito a risco cambial em cenário de estresse fiscal, alerta UBS

O controle da inflação esbarra no elevado patamar da taxa Selic. Mesmo com a possibilidade de novos cortes pelo Comitê de Política Monetária (Copom), o Brasil manterá uma das maiores taxas de juros reais do mundo, calculada acima de 9% ao se descontar a inflação. Braga alerta que esse cenário empurra a economia para a dominância fiscal – quando os gastos do governo anulam a capacidade do controle da inflação por meio dos juros.

A única solução viável para reequilibrar o sistema seria “apertar o freio” na política fiscal, ou seja, reduzir gastos e organizar as contas públicas. Mas, frente ao cenário eleitoral, essa medida se torna incerta.

Orçamento de 2027 é “obra de ficção”

Braga critica a proposta orçamentária recém-anunciada pelo governo como uma “obra de ficção” por se basear em expectativas otimistas de crescimento e de aumento de receitas para fazer o superávit. Ao mesmo tempo, o mercado projeta déficits primários contínuos, na ordem de 0,5% do PIB para este ano e de 0,4% para 2027. “Acredite quem quiser. Certamente, o mercado não acredita”.

Ele cita que, desde 2023, as receitas subiram 17% em termos nominais, mas as despesas saltaram 22%. Como resultado desse avanço e dos juros, a dívida bruta atingiu 82% do PIB, e pode chegar a 96% no fim do ano, caso seja utilizada a metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI).

“Será que nós vamos ver uma nova administração Lula na eventualidade da da reeleição do presidente adotar uma política fiscal austera? Tenho minhas dúvidas, porque de certa forma a expectativa do PT continua a ser baseada no conceito de que gasto é vida”, diz Braga.

O ambiente externo adiciona camadas de complexidade aos desafios domésticos, ressalta, com a guerra sem fim no Oriente Médio que pressiona o petróleo e aumenta as preocupações inflacionárias. Sem falar nos juros globais em franca aceleração, apesar do arrefecimento nos últimos dias. Mas ele vê a questão local como central.

“O problema fundamental e mais premente para a macroeconomia brasileira é a necessidade de um rigoroso ajuste fiscal. Uma decisão que depende estritamente de vontade política e liderança, mas que, se adiada, sacramentará a eclosão de uma crise contratada para os próximos anos”, afirma.

The post Orçamento de 2027 é “obra de ficção” e crise está contratada, diz ex-Banco Mundial appeared first on InfoMoney.

Orçamento de 2027 é “obra de ficção” e crise está contratada, diz ex-Banco Mundial — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado