Últimas

Nova regra do Banco Central ‘infla’ calotes e asfixia crédito a PMEs, mostra estudo

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Nova regra do Banco Central ‘infla’ calotes e asfixia crédito a PMEs, mostra estudo

As micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) brasileiras são as responsáveis por quase nove em cada dez reais dos empréstimos do setor em atraso no país. Em junho de 2026, dos R$ 85,1 bilhões de crédito concedido para empresas e sem pagamento há mais de 90 dias, essas empresas concentravam R$ 75,6 bilhões, ou 88,9% do total. A conta inclui tanto os atrasos efetivos quanto os potenciais, que entram no balanço dos bancos após uma mudança regulatória para evitar uma exposição excessiva do setor à falta de pagamentos.

Isso faz com que a taxa de inadimplência também seja maior neste segmento. Em junho, o índice das MPMEs atingiu 5,71%, contra apenas 0,66% das grandes companhias. A distância de 5,05 pontos percentuais é uma das maiores registradas pelo Banco Central (BC) desde agosto de 2017.

O peso das menores no saldo devedor ocorre mesmo com uma divisão equilibrada na concessão: elas respondem por 48% do saldo da carteira de pessoas jurídicas, enquanto as grandes ficam com os 52% restantes.

Os números são do estudo “Crédito estressado: quem compra, quem vende e quem deve”, da Safegold, divulgado com exclusividade para o InfoMoney.

Leia também: O varejo quebrou? O que está por trás das RJs de Casas Bahia e Marabraz

Mudança de regra infla números

Apesar dos juros altos e da inadimplência contaminando a economia, pesa nesse retrato das empresas do país uma mudança de regra recente. Segundo o Banco Central, 70% do aumento de 0,78 ponto percentual na taxa de inadimplência do sistema financeiro até junho de 2025 tem origem em uma mudança contábil: a Resolução CMN nº 4.966.

A norma, em vigor desde o início de 2025, obrigou os bancos a substituírem o modelo de reconhecimento de “perda incorrida” pela metodologia de “perda esperada”. Na prática, a instituição financeira precisa provisionar, ou seja, separar recursos para cobrir eventuais prejuízos a partir de indicativos de risco futuros, em vez de esperar o atraso de 90 dias.

“A inadimplência vem crescendo de forma consistente e ininterrupta, mas essa resolução impulsionou o registro dessa inadimplência, a contabilização, o provisionamento dela”, explica Silvia Wilbert, diretora jurídica e sócia da Safegold Gestão Empresarial. Segundo Wilbert, os outros 30% da alta decorrem do próprio cenário econômico.

Leia também: Itaú, Bradesco, Santander e BB: o que balanços do 2T dizem sobre cautela do setor?

Sob a nova regra, o banco deve monitorar a operação durante toda a sua vigência. Se uma empresa que está com as contas em dia pedir a renegociação de parcelas para aliviar o fluxo de caixa ou sofrer alterações societárias que desestabilizem as contas, o credor é obrigado a acender um alerta, podendo reclassificar o risco e provisionar até 100% da dívida como ativo problemático.

Juros e falhas graves de gestão

E, para se proteger de atrasos, os bancos costumam aumentar o spread bancário, que é a diferença entre os juros que o banco paga para pegar dinheiro de investidores ou correntistas e o que ele cobra para emprestar dinheiro para pessoas e empresas. “O banco precifica o risco de as empresas ficarem inadimplentes e cobram juros mais altos para elas”, explica.

Wilbert aponta que as micro, pequenas e médias empresas pagam mais juros que as grandes, para compensar o risco, já que elas não têm garantias robustas de pagamento que o topo da pirâmide costuma ter.

Ao custo do dinheiro soma-se a falta de profissionalização empresarial. Um outro levantamento da Safegold com 300 empresas de médio e grande porte da região Sul, divulgado em abril de 2026, aponta que mais de 63% das empresas não sabem a taxa efetiva de juros que pagam aos bancos e que 75% dos empresários não têm clareza sobre os próprios números financeiros. A pesquisa também apontou que muitas empresas usam o crédito para capital de giro para comprar máquinas, o que imobiliza o recurso. Além disso, boa parte dessas empresas não faz uma precificação correta de produtos e desrespeita margens de lucro vitais para a sustentação do negócio.

Para a diretora da Safegold, ter uma gestão transparente tornou-se inegociável, já que os bancos rechaçam análises baseadas apenas em balanços contábeis. “O contábil é para inglês ver. Se os bancos colocassem a análise de crédito dele só dentro do contábil, você pode ter certeza que não teríamos mais bancos no Brasil”, diz Wilbert.

Venda de dívidas e um futuro de restrições

Com os credores bancários mais rigorosos, o mercado secundário de dívidas estressadas (non-performing loans, ou NPL) deve assumir parcela expressiva das carteiras de risco. Ao precificar a dificuldade de recebimento frente às provisões já realizadas, os bancos têm cedido essas operações com desconto para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e securitizadoras.

Uma pesquisa da Deloitte aponta que as intenções de venda para 2026 alcançam R$ 52,3 bilhões no setor. Quando essa transação ocorre, a obrigação da empresa não desaparece, mas a titularidade da dívida muda de mãos, inaugurando uma nova rodada de cobranças que costuma envolver propostas com deságios.

Leia também: Crédito próprio do varejo sobe 113% e é saída para fidelizar cliente e manter consumo

As projeções indicam que as empresas devem se preparar para continuar com o cinto apertado. Com a Selic mantida em patamar alto, atualmente em 14% ao ano, e as complexidades impostas pela reforma tributária — incluindo o mecanismo de split payment, que fará o recolhimento na fonte e drenará o capital de giro que antes circulava livremente no mês —, a pressão na ponta será severa.

“Nós consideramos que ocorrerá uma piora na economia e em especial para as médias alavancadas”, projeta Wilbert. “E isso significa sim mais recuperações judiciais, mais empresas inadimplentes, endividadas, mais empresas com problemas”.

The post Nova regra do Banco Central ‘infla’ calotes e asfixia crédito a PMEs, mostra estudo appeared first on InfoMoney.