A consultoria de valores mobiliários entrou em uma fase de expansão no Brasil. O país chegou a 2.433 consultores pessoa física em funcionamento normal em julho de 2026, enquanto o estoque da categoria cresce entre 22% e 27% ao ano desde 2023.
O avanço ocorre em meio à maior transparência sobre remuneração e à expansão dos modelos de cobrança por taxa, o chamado fee-based.
A consultoria passou cerca de três décadas como um segmento relativamente pequeno e só ultrapassou a marca de 1.000 registros em 2022.
Desde então, o número de entradas aumentou ano após ano. Foram 311 novos consultores em 2022, 391 em 2023, 524 em 2024 e um recorde de 663 em 2025.
O ritmo permanece elevado em 2026. Até 15 de julho, 403 novos registros haviam sido contabilizados, diante de 102 cancelamentos. O saldo líquido no período chegou, portanto, a 301 profissionais.
Os dados fazem parte de um levantamento realizado por Francisco Amarante, superintendente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI), a partir dos cadastros públicos de participantes regulados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Para Amarante, o movimento reflete também mudanças no perfil de quem investe.
“À medida que o mercado de capitais cresce e os investidores se tornam mais sofisticados, aumenta também a demanda por diferentes modelos de relacionamento e remuneração”, afirma.
Segundo ele, assessoria e consultoria têm propostas regulatórias e comerciais distintas, e o avanço de uma atividade não significa necessariamente a substituição da outra.
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Empresas de consultoria também avançam
A expansão aparece também entre as pessoas jurídicas. As consultorias mais do que dobraram em três anos e meio, saindo de 251 em 2022 para cerca de 549 registros ativos em julho de 2026.
Em 2024, o saldo líquido das empresas foi positivo em 89 registros. Em 2025, chegou a 108, recorde da série. Até meados de julho de 2026, foram 88 entradas e 37 cancelamentos, deixando saldo positivo de 51.
Apesar da velocidade de crescimento, a diferença de escala em relação à assessoria continua grande. São 26.092 assessores PF em funcionamento normal, ante 2.433 consultores. A relação é de aproximadamente 11 assessores para cada consultor.
“O estoque de consultores pessoa física vem crescendo entre 22% e 27% desde 2023, e o número de consultorias pessoa jurídica mais do que dobrou desde 2022. É, sem dúvida, um dos movimentos mais relevantes do atual momento do mercado”, diz Amarante.
Ele ressalva, porém, que a consultoria “cresce, mas vem de uma base baixa de profissionais”.
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Transparência e fee-based na equação
O avanço ocorre em meio à maior discussão sobre os modelos de remuneração no mercado de investimentos. Na consultoria, a remuneração típica é o fee, uma taxa paga diretamente pelo cliente pelo serviço de aconselhamento.
O consultor também tem atribuições diferentes das do assessor. Pela regulação, presta orientação, recomendação e aconselhamento de forma independente e individualizada.
Já o assessor atua como preposto de intermediários e distribui produtos disponibilizados pelas instituições às quais está vinculado.
A Resolução CVM 179 colocou a transparência sobre remuneração no centro da relação entre investidores, intermediários e profissionais. Para Amarante, a mudança ajuda a explicar por que diferentes formas de atendimento passaram a receber mais atenção.
“A transparência sobre remuneração e o avanço do fee-based são, sim, fatores relevantes para explicar a expansão da consultoria”, avalia.
“Mas eles fazem parte de uma transformação mais ampla: o amadurecimento do mercado brasileiro e a diversificação das formas de relacionamento entre investidores e profissionais de investimentos”, prossegue.
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Migração entre modelos é hipótese
O comportamento é compatível com a hipótese de migração de parte dos profissionais entre os dois modelos.
A base pública, porém, não permite acompanhar individualmente os registros e, portanto, não comprova que o avanço da consultoria decorra diretamente da saída de assessores.
“Isso é compatível com a hipótese de que parte dos profissionais esteja avaliando ou realizando uma migração entre os dois modelos, especialmente diante do crescimento do fee-based e das novas possibilidades de atuação no mercado”, analisa Amarante.
O superintendente ressalta, porém, que o crescimento da consultoria não precisa ocorrer em detrimento da assessoria.
“Há espaço para o crescimento da assessoria, da consultoria e de outros modelos que ampliem o acesso do investidor brasileiro a orientação financeira qualificada.”
Para o investidor, a expansão amplia as alternativas de relacionamento, mas também exige atenção às diferenças entre os serviços. Pela regulação brasileira, um mesmo profissional não pode exercer simultaneamente as atividades de assessor e consultor.
“O mais importante é que o investidor compreenda claramente as diferenças entre os modelos: quem está contratando, como o profissional é remunerado, quais são os vínculos existentes e qual serviço está sendo prestado”, finaliza Amarante.
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