O volume do setor de serviços no Brasil apresentou estabilidade (0,0%) em junho na comparação com maio, em um cenário de desaceleração gradual da atividade econômica após o pico em outubro de 2025. Esta desaceleração é importante para mostrar os efeitos da política econômica em relação à inflação, mas o desafio do Banco Central segue enorme.
O indicador está 19,9% acima do nível de fevereiro de 2020, período anterior à pandemia, e a estabilidade deste mês mostra que o ritmo é lento. As projeções apontavam recuo de -0,2%
Na análise trimestral, houve avanço de 0,4% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três primeiros meses do ano, e o enfraquecimento da demanda acende debates sobre o futuro da inflação de serviços, componente considerado o mais persistente do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Apesar do cenário de perda de tração e dos alertas sobre a inflação persistente, o desempenho do setor em junho foi marginalmente melhor que o esperado pelo mercado. “No geral, surpresa positiva em junho. O índice do setor terciário ficou estável na comparação com maio, enquanto as expectativas apontavam para queda moderada no mês”, afirma Rodolfo Margato, economista da XP.
Ele ressalta, no entanto, que mesmo com a surpresa positiva pontual, os números de meados do ano corroboram a visão de desaceleração gradual na atividade doméstica ao longo de 2026.
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Estabilidade esconde retração disseminada
Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (12), mostram que a estabilidade no índice geral esconde uma retração disseminada.
Quatro das cinco grandes atividades pesquisadas registraram queda em junho, sendo os recuos mais expressivos notados nos serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,4%) e nos serviços prestados às famílias (-1,2%).
O resultado geral só não foi negativo graças ao setor de informação e comunicação, que cresceu 1,8%, impulsionado fortemente pela alta de dois dígitos nos serviços de tecnologia da informação.
Receita do setor cresce acima do volume
Do ponto de vista inflacionário, a principal preocupação dos analistas está na diferença entre o crescimento real e o avanço financeiro das empresas.
A receita nominal do setor subiu 8,6% no acumulado de 12 meses, enquanto o volume cresceu apenas 2,0%, gerando uma distância de 6,6 pontos percentuais. “Essa distância não corresponde diretamente à inflação do setor, porque os indicadores possuem composições e ponderações distintas, mas confirma que a expansão dos valores financeiros continua muito acima do crescimento da atividade real”, analisa Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
André Matos, CEO da MA7 Capital, reforça o alerta para a política monetária, apontando que o distanciamento entre receita e volume “é preço, não é atividade”. Segundo o executivo, a resistência da inflação de serviços foi destacada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) como o principal risco de alta para os preços, uma vez que a inflação não cede em um setor que opera próximo ao seu topo histórico.
Mercado de trabalho pressiona preços
A perda de força no consumo, gerada por fatores como crédito caro e famílias endividadas, tende a limitar o repasse de custos e contribuir para a desaceleração da inflação de serviços. No entanto, os especialistas convergem que esse efeito vai operar com defasagem. A taxa de desemprego no baixo patamar de 5,4% mantém a renda e sustenta parte da demanda, fazendo com que os preços continuem rígidos.
“A inflação de serviços ainda roda acima do índice cheio, o mercado de trabalho continua apertado e o Copom deixou claro que precisa enxergar uma desinflação mais disseminada antes de avançar”, ressalta Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.
Esse diagnóstico é compartilhado por Letícia Moschioni, sócia da Finscale, que avalia o mercado de trabalho como a variável decisiva para transformar a desaceleração da atividade em uma queda persistente da inflação. “Empresas reduzem contratações e investimentos antes de cortar salários ou promover demissões em escala relevante”, explica a especialista. A persistência da alta de preços fica evidente nos dados de julho, quando a alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% para 0,55% e a energia elétrica subiu 3,09%, ilustrando a força dos componentes intensivos em trabalho e custos operacionais.
Estimativas para o PIB
Os sinais mistos captados pelo setor terciário também recalibram as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos semestres. Ao projetar o cenário à frente, a XP prevê um esfriamento constante da economia, ainda que sustentando um avanço de 2% no acumulado de 2026.
“Para o terceiro e quarto trimestres deste ano, prevemos, por hora, altas de 0,3% e 0,1%, ou seja, uma tendência de desaceleração”, projeta Margato. O economista alerta, porém, que o impacto dos juros e das dívidas será sentido de forma mais severa no longo prazo. “Para 2027, a gente mantém a visão de uma desaceleração mais acentuada, PIB crescendo apenas 1%, uma visão de ressaca na economia brasileira”.
Impactos na política monetária (Selic)
A retração nos serviços reflete o peso do aperto monetário sobre o orçamento das famílias, com quedas no turismo (-3,4%) e no transporte de passageiros (-4,0%). Segundo Rodolfo Margato, da XP, esse resultado fortemente negativo se explica porque o setor aéreo tem sido impactado por uma menor demanda e, principalmente, por uma pressão nos custos em meio ao choque global de oferta, disparada nos preços do petróleo e dos seus derivados, impacto, portanto, no querosene de aviação.
De acordo com Caio Mazzuchelli, CEO da You Lead Outsourcing Comercial, a disseminação dessa retração por 16 das 27 unidades da federação “reduz a pressão sobre a capacidade produtiva e pode contribuir para a abertura gradual do hiato do produto, ajudando a conter a inflação nos próximos trimestres”.
Para os economistas, o esfriamento da economia corrobora a continuidade dos cortes da taxa Selic pelo Banco Central, mas o cenário externo exige passos cautelosos.
Com o Federal Reserve mantendo os juros americanos em patamares restritivos (entre 3,50% e 3,75%), uma redução agressiva da taxa básica no Brasil reduziria o diferencial de juros, podendo pressionar o câmbio e devolver a inflação por meio de insumos importados e combustíveis. Dessa forma, a autoridade monetária deverá monitorar se o enfraquecimento dos serviços ditará o alívio nos salários e na inflação subjacente antes de alterar seu ritmo de flexibilização.
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