A queda recente da Bolsa brasileira, com o Ibovespa atingindo na véspera o menor patamar desde janeiro, tem colocado investidores diante de uma dúvida importante: aproveitar os preços mais baixos para reforçar posições em ações domésticas sensíveis aos juros ou buscar proteção em empresas exportadoras e menos dependentes da economia local?
Embora haja consenso de que o Brasil continua barato em termos de valuation, os bancos têm apresentado diagnósticos diferentes sobre quais setores devem liderar os retornos daqui para frente.
De um lado, o Bradesco BBI argumenta que o sell-off criou oportunidades justamente em papéis que mais sofreram com a alta recente da curva de juros. Do outro, o JPMorgan reduziu sua recomendação para o Brasil de overweight (exposição acima da média do mercado) para neutra e passou a priorizar empresas de perfil mais defensivo, exportadoras e de alta qualidade. Já o Itaú BBA relata que investidores asiáticos seguem positivos com o país, mas ainda evitam uma aposta mais ampla no chamado “beta Brasil”.
Bradesco BBI: queda foi exagerada e abre oportunidade
Para a equipe liderada por Ben Laidler, do Bradesco BBI, a recente correção da Bolsa não foi motivada por deterioração relevante dos fundamentos econômicos ou corporativos.
O banco atribui a queda principalmente à combinação de aumento das expectativas de juros, redução da liquidez típica do verão no hemisfério norte e migração de recursos para ações globais de tecnologia, impulsionadas pela recuperação do setor de semicondutores.
O BBI continua vendo espaço para um ciclo relevante de cortes da Selic, projetando redução acumulada próxima de 300 pontos-base até o final de 2027, cenário que beneficiaria justamente as ações mais ligadas à economia doméstica.
Entre os setores favoritos estão empresas de mercado de capitais, incorporadoras, educação, varejo e companhias mais alavancadas. O banco cita nomes como BTG Pactual (BPAC11), XP (BDR: XPBR31), Cyrela (CYRE3), Vamos (VAMO3) e Smart Fit (SMFT3) entre as oportunidades criadas pela correção recente.
Em outro estudo, a instituição também listou ações com elevada sensibilidade à queda dos juros, como CSN (CSNA3), Movida (MOVI3), Cosan (CSAN3), Ecorodovias (ECOR3), Rumo (RAIL3), Energisa (ENGI11), Tenda (TEND3), Dasa (DASA3), Cogna (COGN3) e Magazine Luiza (MGLU3). Para os estrategistas, a visão é de “não desistir das ações sensíveis à queda de juros no Brasil”.
JPMorgan prefere exportadoras e reduz exposição ao Brasil
O JPMorgan, por sua vez, rebaixou sua recomendação para o mercado brasileiro de overweight para neutra e reduziu sua projeção para o Ibovespa no fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos.
Na avaliação dos estrategistas Rodolfo Angele e Emy Shayo Cherman, os riscos domésticos ganharam peso. Entre eles estão a desaceleração da atividade econômica, a piora do ciclo de crédito, a perspectiva de juros elevados por mais tempo e o aumento da volatilidade associado às eleições presidenciais.
O JPMorgan acredita que o ciclo de cortes da Selic está perto do fim, projetando apenas mais uma redução de 25 pontos-base antes de uma longa pausa.
Nesse ambiente, a preferência recai sobre empresas de qualidade, com receitas globais e menor dependência do consumo interno.
Entre os destaques aparecem Embraer (EMBJ3), WEG (WEGE3), Suzano (SUZB3) e Vale (VALE3), além de BTG Pactual (BPAC11), Vibra (VBBR3), Multiplan (MULT3) e RD Saúde (RADL3).
A estratégia é buscar exposição ao Brasil sem ficar excessivamente dependente do comportamento dos juros, do crédito ou do ciclo econômico doméstico.
Itaú BBA: estrangeiros gostam do Brasil, mas continuam defensivos
Um meio-termo emerge da leitura do Itaú BBA após um roadshow realizado com 31 investidores institucionais em Singapura, Hong Kong e outros centros financeiros asiáticos.
Segundo os estrategistas Daniel Gewehr, Matheus Marques e Raphael Rosa, o Brasil continua sendo visto como barato e muitos investidores globais já mantêm exposição acima da média ao país. Porém, a maioria ainda prefere uma postura defensiva.
A principal conclusão da viagem foi que a América Latina continua competindo por recursos com a forte onda de investimentos em inteligência artificial, semicondutores e tecnologia na Coreia do Sul e em Taiwan. Mais de 90% das reuniões abordaram o tema AI.
Nesse contexto, os investidores estrangeiros continuam privilegiando ações grandes, líquidas, exportadoras, financeiras e ligadas a commodities. Embraer (EMBJ3), WEG (WEGE3), Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3) foram alguns dos nomes mais citados nas discussões.
O banco destaca que há pouco interesse por small caps e por uma aposta ampla em ações domésticas ligadas ao consumo. “Global e líquido primeiro; beta doméstico depois” parece ser o lema predominante entre os estrangeiros neste momento.
Genial vê Brasil barato, mas dependente do fluxo
A Genial também reconhece que a Bolsa brasileira vem ficando para trás em relação a outros mercados globais, especialmente diante do fascínio dos investidores com o tema inteligência artificial.
A corretora destaca, contudo, que o Brasil segue negociando com desconto relevante, enquanto a retomada do ciclo de cortes de juros continua sendo um potencial catalisador para ativos domésticos.

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Ao mesmo tempo, a casa avalia que a disputa entre o fluxo direcionado à tecnologia global e a busca por mercados de valor deve continuar determinando a dinâmica da Bolsa nos próximos meses.
Assim, o debate entre os bancos revela duas estratégias distintas para atravessar o sell-off.
A primeira é a do JPMorgan e, em parte, dos investidores ouvidos pelo Itaú BBA: manter uma postura defensiva, privilegiando exportadoras, commodities, financeiras de qualidade e empresas com receitas globais.
A segunda é a do Bradesco BBI: aproveitar a correção para aumentar exposição às ações mais ligadas ao ciclo doméstico, apostando que o mercado subestima a magnitude dos cortes de juros que ainda podem ocorrer.
Em comum, há um ponto importante: nenhuma das casas abandonou a tese Brasil. A diferença está em como capturar esse potencial. Enquanto alguns preferem jogar na defesa com Embraer (EMBJ3), WEG (WEGE3), Vale (VALE3) e Suzano (SUZB3), outros acreditam que o maior prêmio está justamente nos nomes que mais sofreram com a recente aversão ao risco, como Cyrela (CYRE3), Magazine Luiza (MGLU3), Cogna (COGN3), Smart Fit (SMFT3) e Vamos (VAMO3).
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