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Ganho real de 3% em dólar: analistas veem oportunidade em títulos americanos

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Ganho real de 3% em dólar: analistas veem oportunidade em títulos americanos

Os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, dispararam nas últimas semanas diante do receio com as contas públicas do país. O papel de dez anos paga em torno de 4,70% ao ano, um dos maiores níveis desde o começo do ano passado, enquanto o de 30 anos paga cerca de 5,20%, um dos maiores níveis desde 2007. Já o título corrigido pela inflação, o TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities), pagava juros reais de 2,39% para dez anos e 2,96% para 30 anos.

Essas taxas representam uma oportunidade para o investidor brasileiro, já que durante muito tempo os juros reais desses papéis ficaram perto de zero ou no máximo em 1% ao ano, diz João Arthur Almeida, diretor de Wealth Management da Suno Research. “O mais interessante é o juro real das TIPS, que chegaram a bater 3% reais para 30 anos, um nível que não se via há muito tempo”, diz.

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Segundo Almeida, para o investidor brasileiro, que em geral tem quase 100% do portfólio no Brasil, faz muito sentido investir nesses títulos, até porque até pouco tempo atrás o dinheiro ia para fora para render 1% ou 2% nominais e agora pode render 5% nominais ou quase 3% reais.

“Na nossa visão é oportunidade, ainda mais porque, na ótica do brasileiro, esse dinheiro lá fora tem mais o componente de seguro, de hedge, e ter um hedge remunerado é o melhor cenário”, afirma.

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Nível de juros e câmbio favorecem

A aplicação nos títulos americanos é uma oportunidade para o investidor brasileiro por três motivos, afirma Marcelo Karvelis, CIO da SWM Gestão. O primeiro, o nível do juro, que está na máxima de 19 anos e, pela primeira vez em quase duas décadas, o rendimento justifica a aplicação.

O segundo é o bom ponto de entrada cambial aqui, com o real apreciado. “É hora de dolarizar com disciplina, não a R$ 6,00, no pânico”, diz.

E o terceiro é a oportunidade de diversificação de jurisdição diante do ciclo eleitoral de 2026. “Para a maioria dos perfis, a alocação eficiente de prazos está entre 3 e 7 anos, que captura o ganho dos juros com fração do risco, e não nos 30 anos”, sugere.

Renata Barreto, sócia da Faz Capital, também vê oportunidade, mas faz a ressalva que a decisão vai depender também do objetivo dos recursos. “Sempre temos de falar de investimento em dólar de forma estrutural”, afirma. Para diversificação ou hedge cambial, explica, a aplicação faz sentido também porque o real se desvaloriza historicamente no longo prazo. “Independentemente do timing, é interessante fazer aportes ao longo do tempo em dólares comprando bons ativos, de renda fixa e variável”, diz.

Na comparação com o juro local, bastante elevado, a decisão também tem de passar pela expectativa de câmbio, alerta Renata. “No longo prazo, a taxa de juros no Brasil tende a cair um pouco e, se o juro americano permanecer alto, teremos uma valorização do dólar que terá impacto no real e o brasileiro pode pegar esse ganho cambial”, explica.

“O investidor sempre deve buscar a diversificação nos investimentos, seja por classe de ativos, seja por geografia, e sim faz sentido aproveitar este dólar mais fraco para diversificar parte dos investimentos”, reforça Ricardo Pompermayer, estrategista-chefe da Davos Investimentos.

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Desconfiança fiscal é geral

Almeida, da Suno, diz que os argumentos pessimistas sobre o risco da aplicação citam a piora das contas públicas e do déficit fiscal americano e que faz os investidores demandarem uma taxa maior. Ele considera, porém, que não há muita alternativa para os investidores.

“A Europa tem um cenário fiscal tão ruim ou pior que o dos Estados Unidos e sem o dinamismo da economia, a China não inspira uma confiança muito grande e países emergentes como México ou Brasil tem risco muito alto, de moeda e institucional”, observa. “No fim do dia, esse capital não tem para onde correr se não o mercado americano, por isso essas taxas são mais oportunidades”, diz.

A alta mais forte dos juros dos títulos longos do que dos curtos indica que o problema é desconfiança fiscal, e não preocupação com a inflação, observa Renata, da Faz Capital. Ela avalia que os ganhos de produtividade da inteligência artificial talvez consigam superar esses temores com a dívida e melhorar a relação dívida/PIB pelo lado do crescimento econômico, “mas é uma preocupação persistente”, afirma.

A fraqueza do iene também influencia a alta dos juros americanos, explica Shin Fukui, gestor de Investimentos e sócio da Stratton Capital, gestora com sede em Nova York. Ao intervir no mercado, o governo japonês vende títulos americanos de suas reservas internacionais para obter dólares para comprar ienes, o que acaba elevando os juros dos papéis. Isso levou os EUA a ajudarem o Japão na operação.

Há ainda o aumento das emissões do Tesouro americano, que faz os investidores pedirem mais prêmio. “Vamos lembrar que o Tesouro americano teve que levantar mais de US$ 1 trilhão para servir a dívida nos últimos 12 meses e precisará de mais US$ 1 trilhão nos próximos seis meses apenas para pagar os juros”, lembra.

Apesar disso, Fukui diz que não há preocupação com a dívida americana no curto prazo e, assim, manter a aplicação em prazos menores é uma boa estratégia de liquidez e proteção patrimonial.

Mas não necessariamente é um investimento de crescimento. Já nos vencimentos mais longos, ele alerta que é preciso mais cautela pois a volatilidade dos papéis se torna mais alta e ainda há muitas incertezas. “Não gostamos muito da parte mais longa da curva enquanto não houver uma resolução nos conflitos no Irã, e não parece que o investidor esteja sendo suficientemente remunerado numa taxa que pode estar mais alta amanhã”, defende.

Ponderando riscos

Entre os riscos para o investidor, Karvelis, da SWM, cita a marcação a mercado. Em um título de 30 anos, cada 1 ponto porcentual de alta significa cerca de 15% de perda de preço. “Meio ponto de alta na taxa apaga mais de um ano de juros”, alerta.

Outro risco é o câmbio. Uma queda do dólar aqui no momento do resgate pode zerar o retorno em reais mesmo com o título indo bem lá fora. E há também o risco do prêmio de prazo, já que a taxa máxima de 19 anos de hoje pode não ser o teto e subir ainda mais. “Enquanto não houver caminho fiscal crível nos EUA, a pressão é estrutural”, avisa.

Como investir?

A forma de investir lá fora pode variar, mas Almeida, da Suno, sugere o “simples bem feito”, e o ETF acaba sendo um veículo muito eficiente. “Hoje temos ETFs superbaratos, líquidos, e transparentes para você comprar título público do governo americano”, diz.

Pensando na pessoa física, Almeida sugere os ETFs irlandeses, os UCITS, que acumulam os rendimentos e escapam do efeito fiscal do imposto sobre os juros. Além disso, como o ETF é domiciliado na Irlanda, o investidor não fica exposto ao imposto sobre heranças dos Estados Unidos, o “State Tax”, de 18% a 40% sobre os valores acima de US$ 60 mil cobrado de investidores estrangeiros. Já se o investidor tiver uma empresa offshore, não há o imposto sobre herança, mas mesmo assim Almeida acha vantagem a aplicação via ETFs, que podem ser tanto de Treasuries prefixados quando indexados à inflação.

Entre o papel pré ou pós-fixado, Almeida diz que há pouca diferença. “O nominal está em torno de 5% ao ano, enquanto o TIP paga 3%, então a inflação implícita embutida está em cerca de 2%, que é o que se espera para o longuíssimo prazo”, diz.

Já o prazo vai depender do perfil do investidor, defende Almeida. “Se for mais arrojado, pode alongar um pouco mais porque aguenta a marcação a mercado, mas se é conservador, é melhor ficar nos títulos mais curtos”, avalia.

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