O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, indo a 14% ao ano, nesta quarta-feira (5), em decisão unânime. O comunicado, no entanto, deixou em aberto os próximos passos do ciclo de flexibilização, sem oferecer diretrizes futuras (forward guidance) e condicionando as decisões à evolução dos dados.
De acordo com economistas, o tom do comunicado reforçou os riscos de inflação à frente. Para Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, o texto foi “sucinto e assertivo”, eliminando a discussão sobre cenários alternativos para a trajetória da inflação.
Leia também: Corte da Selic faz Brasil cair uma posição e leva país ao 2º maior juro real do mundo
Apesar da queda na taxa, a leitura majoritária é de que o Banco Central adotou uma postura mais dura (hawkish) do que o esperado. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, avalia que, embora o Copom tenha reconhecido a moderação da atividade, endureceu a interpretação sobre o mercado de trabalho, que deixou de ser classificado como “resiliente” para ser chamado de “aquecido”. Em relação à inflação, o BC pontuou que, embora tenha desacelerado, continua acima do teto da meta.
Impacto da inflação e do cenário externo na Selic
A justificativa para o corte, mesmo em um cenário de cautela, apoia-se na perda de força da economia. O IPCA-15 avançou apenas 0,06% em julho, enquanto a produção industrial caiu 1,8% em junho.
“O Banco Central não está cortando porque a inflação chegou à meta, mas porque os juros anteriores já retiraram demanda suficiente para permitir uma flexibilização gradual”, explica Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
O cenário externo, no entanto, impõe barreiras. Leonardo Costa, economista do ASA, destaca que o comunicado reconhece um ambiente internacional desafiador, pressionado pelas incertezas quanto aos conflitos no Oriente Médio e à condução da política monetária nas economias avançadas. Além disso, economistas pontuam riscos adicionais como o tarifaço americano sobre produtos brasileiros e a instabilidade do petróleo, fatores que podem pressionar o câmbio e gerar inflação importada.
Além das pressões externas, o quadro fiscal doméstico em ano eleitoral permanece como um limitador central. Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, pontua que a evolução dos riscos fiscais e cambiais serão os principais determinantes para a continuidade ou não do ciclo de cortes de juros. Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike, reforça que o Comitê segue atento à incerteza fiscal em ano eleitoral, fator que justifica a postura dependente de dados.
A desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo também foi um ponto de atenção reforçado no texto. O Copom estendeu o horizonte relevante de sua política monetária para o primeiro trimestre de 2028, projetando a inflação em 3,2% nesse período.
Aposta em mais um corte
A sinalização de que o ciclo de calibração está indefinido mantém vivas as projeções de continuidade dos cortes. Para Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, a expectativa é de mais uma redução em setembro, para 13,75%, e encerramento de 2026 com a Selic a 13,25%, apoiada na projeção de continuidade na desaceleração da inflação e da atividade.
“O comunicado não fechou completamente a porta para futuros cortes de juros, mas deixou claro que será necessário observar uma melhora no balanço de riscos para que o processo de calibração avance”, pondera Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset.
Aposta em pausa
Por outro lado, parte do mercado avalia que o ciclo deve parar nos atuais 14%. “Os atuais choques de oferta global (energia, inteligência artificial, El Niño) e a demanda doméstica (pacote expansionista fiscal e parafiscal), além das expectativas acima da meta ainda justificam uma pausa”, afirma Caio Megale, economista-chefe da XP. Ele argumenta que uma postura conservadora evitaria a deterioração das expectativas e garantiria um ciclo mais sustentável no próximo ano.
Bruno Perri também leu no comunicado sinais de pausa. Ele ressalta que a autoridade monetária retirou as menções a diferentes trajetórias de juros, focando apenas em manter a restrição adequada. “Para mim, isso é um sinal mais forte de que ele vai pausar o ciclo de cortes da taxa de juros em 14%”, diz. “Temos que ter surpresas positivas daqui pra frente para isso mudar”, conclui Perri.
Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, avalia que o processo de calibração parece estar próximo do fim, e que o monitoramento do petróleo, juros dos EUA e dívida pública dirá se haverá ou não um corte adicional em setembro.
Fora das planilhas do mercado financeiro, o setor produtivo alerta para os danos da política restritiva prolongada. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, lembra que, embora a Selic tenha caído, o custo do crédito atinge 30% ao ano para as empresas e passa de 60% para as famílias, sufocando o caixa e travando inovações. Skaf destaca ainda que a dívida pública de R$ 10,8 trilhões, atrelada à Selic, gera encargos anuais superiores a R$ 1 trilhão devido à “gastança desmedida do governo”.
Reforçando o cenário de crédito escasso, Cassio Viana de Jesus, CEO da Pilar Capital, ressalta que o corte de 0,25 ponto é apenas uma calibragem. Segundo ele, sem uma sequência consistente de cortes, o crédito continuará restrito e o efeito sobre os investimentos será limitado.
Projeções para a Selic ao fim de 2026
Com o cenário indefinido e a dependência de dados reforçada pelo Copom, as estimativas para a taxa básica de juros ao final de 2026 divergem entre os analistas.
A XP e o C6 Bank mantêm a avaliação de que o ciclo se encerrou, estimando a Selic estagnada em 14% ao final de 2026.
Rafaela Vitoria, do Inter, e Alberto Friggi, da Friggi & Secco, enxergam espaço para a continuidade de cortes consecutivos de 0,25 ponto, projetando a taxa em 13,25% até o fechamento do ano.
A Ouro Preto Investimentos trabalha com a expectativa de mais uma redução em setembro, levando a Selic para 13,75% ao final de 2026.
Gestoras como MA7 Capital e Grupo Intra apostam em um intervalo de encerramento entre 13,75% e 14%. Os analistas condicionam qualquer corte adicional à estabilidade cambial, à redução do prêmio fiscal e ao comportamento do petróleo no mercado internacional.
The post Copom: Petróleo, juros nos EUA e inflação vão ditar se haverá mais cortes na Selic appeared first on InfoMoney.

