Últimas

Retornos isentos de até 1,5% ao mês, mas com emoção: as oportunidades dos Fiagros

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Retornos isentos de até 1,5% ao mês, mas com emoção: as oportunidades dos Fiagros

Os fundos de investimento no agronegócio, os Fiagros, voltaram a chamar a atenção nas últimas semanas com os dados de captação no primeiro semestre, que cresceu 288% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 8,3 bilhões segundo a Anbima.

Isso após as cotas do Valora CRA (VGIA11), da Valora Investimentos, despencarem mais de 20% em dois dias com a notícia de que um dos devedores não pagou os juros de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio em julho após uma decisão judicial.

Especialistas reconhecem o risco desses fundos, mas observam também que os Fiagros continuam sendo uma oportunidade para o investidor diversificar com ganhos de até 1,5% ao mês isentos de imposto de renda, desde que com muita atenção às garantias e aos devedores.   

Leia também: Fiagros voltam a atrair investidores após turbulência; o que mudou?

O mercado de crédito para pessoa física em geral é muito novo e o de crédito para o agronegócio mais ainda, lembra Amanda Coura, fundadora da Zera, empresa especializada em originação de crédito para Fiagros.

A Zera estruturou R$ 1,2 bilhão em operações no ano passado e pretende ampliar o volume este ano. “Nos últimos anos houve uma grande democratização desses fundos, com os investidores podendo acessar carteiras do agronegócio a partir de R$ 10, e esses fundos cresceram muito”, diz.

Hoje, segundo Amanda, os Fiagros somam cerca de R$ 60 bilhões, dos quais R$ 11 bilhões em fundos com cotas em bolsa, e mais de 600 mil investidores, mesmo com a Selic perto de 15% ao ano. “Esse acesso é maravilhoso, mas tem de vir junto com o amadurecimento dos investidores e do mercado”, diz.

Amanda Coura, da Zera, originadora de créditos para Fiagros (Foto: Divulgação)

Leia também: Menos crédito bancário ao agro abre espaço para estruturas de Fiagros e FIDCs

Seletividade

O primeiro semestre foi marcado pelo aumento da inadimplência e por maior seletividade dos investidores em Fiagros, elevando a preocupação com a qualidade das carteiras, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, gestora especializada em securitização de crédito. Assim, as emissões ocorreram em ritmo mais moderado e concentradas em operações de melhor qualidade.

Para o segundo semestre, a expectativa é de retomada gradual das emissões, desde que mantenham esse perfil mais conservador, acredita Lima, que observa que o impacto dos problemas não é generalizado e os casos mais graves ocorrem em fundos com concentração elevada de crédito ou exposição a devedores mais fragilizados.

Com a maior inadimplência, os investidores passaram a diferenciar com mais rigor os fundos com carteiras pulverizadas, boas garantias e gestão ativa daqueles com maior concentração de risco ou exposição a devedores mais fragilizados, afirma Gustavo Assis, CEO do Asset Bank.

Para o segundo semestre, Assis acha que a tendência é de retomada gradual das emissões, mas sem o mesmo ambiente de captação indiscriminada observado nos primeiros anos do ativo. Os fundos com histórico consistente, boa governança, originação própria e estruturas de proteção mais robustas devem ter maior facilidade para captar.

Leia também: Senado aprova refinanciamento de dívida rural com possível impacto bilionário

Rentabilidade atrativa

Já a rentabilidade continua atrativa, principalmente nos Fiagros de crédito, afirma Lima, da Ouro Preto. Em julho, diversos fundos anunciaram “dividend yields” mensais entre aproximadamente 1,0% e 1,5%, sustentados pelos juros elevados do CDI. A diferença de desempenho entre os fundos, entretanto, aumentou, tornando a qualidade da gestão um fator cada vez mais importante, alerta Lima.

Amanda, da Zera, lembra que os Fiagros já costumam ter uma rentabilidade mais alta pelos ganhos com os créditos e há também a vantagem da isenção de imposto de renda. Mas há casos de fundos que sofreram com operações que pediram recuperação judicial e cessaram pagamentos e reduziram a rentabilidade, o que provocou desvalorização exagerada das cotas no ano passado.

“Alguns fundos recuperaram, mas a média da indústria ainda tem cotas desvalorizadas em relação ao patrimônio, por isso também vemos poucos movimentos de novas emissões desses fundos”, diz.

A rentabilidade continua competitiva em diversos Fiagros, com alguns fundos listados pagando acima de 1% ao mês, principalmente nos veículos de crédito com ativos indexados ao CDI, afirma Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. “Mas hoje existe uma dispersão maior entre os fundos e não basta observar apenas o rendimento distribuído no mês”, alerta.

É necessário considerar também a qualidade dos ativos, eventuais eventos de crédito, a cotação da cota no mercado secundário e a capacidade de manter aquele nível de distribuição ao longo do tempo.

Leia também: Outliers InfoMoney: Valora Investimentos vence prêmio de melhor FI-Agro

Barra mais alta e insegurança jurídica

As empresas médias do agronegócio são as principais candidatas a buscar recursos via mercado de capitais, como já fazem as grandes, o que inclui não só produtores, mas toda a cadeia ligada, como empresas de insumos biológicos e químicos, comércio e indústria, afirma Amanda, da Zera. Mas todas vão ter de se preparar melhor. “Elas têm de aprender a língua da Faria Lima, de governança e números”, diz.

Da parte do investidor, Amanda diz que “os bolsos estão cheios”, mas eles “subiram a barra”, e estão exigindo cada vez mais garantias e números bem apresentados. O investidor ainda busca garantias imobiliárias, como fazendas, e pede em geral o dobro do que é emprestado. “O problema é que o mercado tem algumas cicatrizes de execução dessas garantais”, lembra. “Dependendo do estado, da comarca, pode ter juiz ou tribunal que dê uma decisão diferente de outro, há esse risco”, diz Amanda, reconhecendo a insegurança jurídica para o investidor.

Para fugir desse receio, o setor busca cada vez mais operações que, pela própria estrutura, já diversificam ou reduzem esse risco, como Fiagros de teses específicas e com parcerias de grandes empresas que conhecem o mercado.

Essas empresas entram comprando cotas subordinadas e cobrindo até 20% das perdas de grupos de pequenos produtores, por exemplo. Outra saída é montar estruturas em que um fundo se torna dono da fazenda e o fazendeiro entra como investidor das cotas subordinadas. “Pode ser um fundo ou uma sociedade de propósito específico, o objetivo é não precisar que a garantia passe por execução judicial”, diz.

Garantias mais robustas

Os investidores exigem hoje mais transparência, melhores garantias e maior diversificação das carteiras, diz Lima, da Ouro Preto. Fundos com gestão reconhecida continuam conseguindo captar recursos, enquanto estruturas mais arriscadas enfrentam maior dificuldade. As estruturas também estão priorizando operações com garantias mais robustas, menor concentração por devedor, maior diversificação geográfica e por culturas agrícolas, além de um processo mais rigoroso de análise e monitoramento dos tomadores de crédito.

A redução do risco começa antes da aquisição do crédito, com uma análise rigorosa do tomador e da operação, explica Assis, do Asset Bank. “É necessário compreender o modelo de negócio, o fluxo de caixa, o nível de endividamento, o histórico de pagamento, a capacidade produtiva e os riscos específicos de cada cadeia do agronegócio”, diz.

Entre os principais mecanismos de proteção estão a exigência de garantias reais, alienação fiduciária de propriedades ou equipamentos, cessão de recebíveis, contas vinculadas, seguros, aval dos controladores e estruturas de fundos com cotas subordinadas. Além disso, os fundos devem estabelecer limites de concentração por devedor, grupo econômico, região, cultura e atividade. “E o acompanhamento não termina após a liberação do crédito, é necessário manter monitoramento contínuo, verificar covenants, acompanhar safras, preços das commodities, custos de produção e eventuais alterações na capacidade de pagamento”, acrescenta Assis.

O agronegócio representa 30% da economia brasileira, mas é um setor cíclico, com grande diversidade de perfis de empresas, lembra Amanda, da Zera. “E vamos ter anos bons e anos ruins, quem é do agro sabe disso, mas os investidores vão ter de aprender também, já que a tendência é de maior participação do mercado de capitais no financiamento do setor”, diz.

Segundo ela, as fontes governamentais devem se limitar cada vez mais aos pequenos produtores e os bancos estão reduzindo sua participação no crédito ao setor. Além disso, ela estima que apenas 20% das empresas do agro usam o mercado de capitais para se financiar. “Temos uma avenida enorme para consolidar o setor no mercado de capitais”, conclui.

The post Retornos isentos de até 1,5% ao mês, mas com emoção: as oportunidades dos Fiagros appeared first on InfoMoney.

Retornos isentos de até 1,5% ao mês, mas com emoção: as oportunidades dos Fiagros — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado