Os Estados Unidos confirmaram as recomendações de seu escritório de comércio exterior à Casa Branca e anunciaram anteontem a decisão de aplicar um novo tarifaço de 25% sobre determinados produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
A medida entrará em vigor no dia 22 deste mês, mas as empresas afetadas e especialistas já estão fazendo as contas de qual será o impacto para a economia brasileira desta vez.
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) estima que a nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, anunciada na noite de quarta-feira pelos Estados Unidos, deve afetar mais de US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio.
Por outro lado, cálculos do economista João Carmo, da 4Intelligence, e de José Pio Borges, presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), 62% das exportações brasileiras para os EUA ficaram isentas da taxa.
Na avaliação da Amcham, além de prejudicar exportadores e produtores brasileiros, a sobretaxa poderá elevar custos para empresas e consumidores americanos, reduzir a competitividade da indústria dos Estados Unidos que utiliza insumos brasileiros e ampliar a dependência de fornecedores asiáticos.
A entidade classificou o tarifaço, que entra em vigor no próximo dia 22, de “um resultado muito negativo” para a relação entre os dois países.
A Amcham afirma ainda que a medida tende a aprofundar a retração do comércio bilateral, que já acumula queda de 13% neste ano, além de comprometer investimentos e limitar a cooperação em áreas estratégicas, como minerais críticos, energia, economia digital e propriedade intelectual.
O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, defendeu que os dois governos “mantenham abertos os canais de diálogo” e lembrou que outra investigação em curso do governo americano, sobre suposto uso de trabalho forçado, poderá elevar a tarifa sobre produtos brasileiros a 37,5%.
Ampliação das exceções reduz impacto
Com relação à lista de exceções, Carmo observa que, a princípio, ela abarcava 56,3% da pauta exportadora brasileira para os EUA, considerando o comércio bilateral em 2025. Em valores, ficaram isentos US$ 23,3 bilhões dos US$ 37,7 bilhões vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos no ano passado, estima o economista.
— A expectativa ainda é de impacto baixo sobre a balança comercial, mas de impacto importante para alguns setores como máquinas e equipamentos, e agroindústria — ressalta Carmo.
Borges, do Cebri, observa que a ampliação da lista de produtos isentos ajuda a reduzir o impacto do tarifaço:
— Cerca de 62% das exportações ficaram isentas. Se você fizer a conta, os Estados Unidos representam cerca de 12% das exportações brasileiras e 62% ficaram fora do tarifaço. Então, o percentual de exportações brasileiras afetadas é de 4,5%, não chega a 5%. É importante? Sim. Alguns bilhões concentrados em setores. Mas o Brasil tem um comércio exterior de meio trilhão, não é mortal.
Essas isenções, diz Borges, foram resultado, principalmente, da atuação direta das companhias brasileiras que mantêm presença nos EUA:
— Foi menos uma consequência da negociação do Itamaraty e muito mais em função da representação das empresas brasileiras. O governo Trump conversa muito mais com empresas do que com governos.
Alcance de 18% a 31%
A consultoria Buysidebrazil destaca que a tarifa anunciada na noite de quarta-feira não substitui a taxa universal adotada em fevereiro. Além disso, itens como aço, alumínio, cobre, veículos e autopeças continuam sujeitos a alíquotas setoriais.
Considerando isso, a consultoria calcula que somente 31% da pauta de exportações brasileira fique sujeita aos 25%, com uma tarifa ponderada de 24,1%. Em entrevista coletiva ontem, representantes do governo estimaram essa fatia das vendas externas em 18%.
— O impacto não é relevante do ponto de vista macro, do ponto de vista de exportações, atividade e inflação. Mas tem impactos setoriais importantes, principalmente em manufaturados — diz a sócia-fundadora da Buyside, Andrea Damico.
Tarifa efetiva abaixo de 17%
Já o banco americano Goldman Sachs estima que a tarifa efetiva fique em 16,8%. O Brasil terá a maior alíquota sobre as exportações entre os países da América Latina, de acordo com Alberto Ramos, economista-chefe para a região do banco. A tarifa efetiva leva em conta o total de exportações aos EUA, incluindo os produtos isentos.
O cálculo “pressupõe que a tarifa de 12,5% da Seção 301 relacionada ao trabalho forçado, que foi proposta, substituirá a tarifa global de 10% da Seção 122 quando esta expirar”, no fim deste mês.
O Peru é o segundo país mais taxado pelos EUA na América Latina, com tarifa efetiva de 8,5%. Depois vêm México, com 7,2%, e Argentina, com 7,1%.
De acordo com o Goldman Sachs, a sobretaxa de 25% vai impactar 26% dos produtos brasileiros importados pelos EUA, o equivalente a US$ 10,2 bilhões.
CNI vê 26% da pauta prejudicada
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a taxação Casa Branca agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais e amplia a insegurança para empresas do Brasil e dos Estados Unidos. A entidade ressaltou que, no primeiro semestre, 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado americano, em comparação ao mesmo período de 2025. Segundo a CNI, 26,2% das exportações brasileiras para os EUA serão afetadas.
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que, com a sobretaxa, “o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram.”
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) não fez estimativas, preferiu adotar um tom político. Em nota, atribuiu ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade pela decisão dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras.
No comunicado divulgado ontem, a entidade afirmou que “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington” comprometeram a relação bilateral e contribuíram para a adoção da medida.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), por sua vez, afirmou que a medida dos EUA cria uma diferença relevante em relação a fornecedores de outros países que disputam os mesmos compradores.
“Entre as possíveis consequências estão a substituição de fornecedores brasileiros, a pressão pela redução de preços e margens e a renegociação de contratos, prazos e condições comerciais”, afirmou a entidade em nota.
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