Investir em temas de longo prazo, como inteligência artificial, transição energética, minerais críticos e longevidade, pode parecer um exercício sobre o futuro. Mas uma boa alocação de investimentos não começa tentando adivinhar qual palavra vai dominar as manchetes. Começa com perguntas mais simples. Qual gargalo precisa ser resolvido? Quem tem poder de precificação? Quanto dessa história já está refletido nos preços?
Para responder essas perguntas, a XP realizou a primeira edição da pesquisa Investimentos Temáticos Globais, com 37 gestoras brasileiras e estrangeiras que administram, juntas, mais de US$ 5,5 trilhões – cerca de 2,4 vezes o PIB do Brasil. Clara Sodré, analista de fundos da XP, percorre os principais resultados no Espresso Outliers InfoMoney.
Juros e IA são as maiores influências
A primeira pergunta da pesquisa buscou identificar qual força macroeconômica mais influencia a alocação temática hoje. O resultado foi um empate técnico: 38% das gestoras citaram juros elevados por mais tempo, e 38% apontaram a aceleração dos investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital. Fragmentação geopolítica e questão fiscal das economias vieram na sequência.
“O ponto central não é que a demografia ou o fiscal deixaram de importar. A pergunta buscava identificar a força que está alterando a decisão de alocação hoje”, explica Clara.
Apesar de empatadas, as duas principais forças atuam em direções opostas sobre o mesmo portfólio. Juros elevados aumentam a taxa de desconto e pressionam múltiplos de ativos com lucro distante no tempo, tornando alternativas com carrego mais atraentes.
Já a inteligência artificial atua como força de expansão: aumenta os investimentos em ativos de longo prazo (capex), reorganiza cadeias produtivas e amplia a demanda por energia, data centers e redes elétricas.
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É por isso que a IA deixou de ser tratada como um subsegmento de tecnologia por boa parte das gestoras entrevistadas e passou a ser vista como variável macro, influenciando demanda elétrica, comércio internacional e decisões de política industrial.
Questionadas sobre o efeito dos juros altos no apetite por teses de longo prazo, mais de 50% das gestoras responderam que os juros afetam a precificação, mas não alteram a convicção nos fundamentos. As demais respostas se dividiram de forma simétrica, com 16% cada: redução de exposição a temas sensíveis a juros; entendimento de que temas estruturais têm horizonte superior ao ciclo monetário; e aumento do peso em teses com mais carrego e menor dependência de valorização futura.
O pano de fundo para essa cautela das gestoras de investimentos é o tamanho da dívida global: segundo o FMI, o estoque de dívida pública e privada chegou a US$ 251 trilhões em 2024, pouco acima de 235% do PIB global.
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Nos últimos 12 meses, três consensos foram revisados pelas gestoras: parte abandonou a visão de dólar persistentemente fraco e de rotação automática de capital para fora dos Estados Unidos; outra parte reavaliou a expectativa de cortes de juros mais agressivos no Brasil e no exterior; e uma terceira leitura passou a questionar os valuations de infraestrutura e inteligência artificial das operadoras de grandes data centers.
O questionamento à tese de data centers se deve a um capex maior do que o esperado e a dúvidas sobre o prazo de monetização desses investimentos. “O preço importa, e tem passado a importar cada vez mais para os investidores globais”, resume Clara.
Em IA, a convicção está na infraestrutura
Falar de investimentos em inteligência artificial é falar de algo amplo, que reúne segmentos distintos. A pesquisa separou os investimentos por estágio do ciclo, camada da cadeia e subtemas adjacentes, para encontrar a diferença entre convicção econômica e adesão à narrativa.
Sobre o estágio do ciclo, mais de 50% das gestoras avaliam que ele está em maturação – com a infraestrutura sendo construída e as aplicações começando a gerar resultado. Cerca de 30% ainda enxergam uma fase inicial, com retorno mais à frente. Apenas 14% classificam o momento como pico de hype, com valuations descolados dos fundamentos. Uma pequena parcela já vê o ciclo em consolidação, com separação clara entre vencedores e perdedores.
Somando as duas primeiras respostas sobre inteligência artificial, mais de 80% das gestoras ainda veem espaço relevante de desenvolvimento. Isso afasta a leitura de que o ciclo inteiro de IA seria uma bolha, mas não elimina o risco de bolhas localizadas em ativos específicos.
Na pergunta sobre em qual parte da cadeia da IA existe maior convicção, a liderança é da infraestrutura de computação, como semicondutores, processadores e hardware especializado, citada por 59% das gestoras.
“Por que a infraestrutura lidera? Porque no início de um grande ciclo de investimento é mais fácil observar a demanda por capacidade do que prever quem vai capturar toda a margem econômica na camada final”, diz Clara. “Um data center precisa ser construído antes que a aplicação rode. A energia precisa estar disponível antes que a capacidade computacional seja instalada.”
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Minerais críticos: poucos investem e muitos monitoram
Sem cobre, lítio, níquel, grafite, terras raras e nióbio não há expansão de redes elétricas, baterias, chips de defesa ou eletrificação. A pesquisa quis medir duas coisas: a relevância econômica do tema e se essa relevância virou posição de portfólio.
Cerca de 57% das gestoras monitoram minerais críticos, mas ainda não têm posição relevante. Apenas 22% investem diretamente em mineradoras ou empresas de exploração, e outros 22% mantêm o risco de commodities fora da abordagem temática.
“Essa distância entre monitorar e alocar é muito importante”, afirma Clara. Minerais críticos têm demanda estrutural, mas continuam sujeitos a ciclos de commodities, expansão de oferta, risco operacional e licenciamento – o que exige especialização.
O peso dos riscos geopolíticos
Sobre o risco geopolítico nas cadeias, 54% das gestoras enxergam a concentração como um risco que cria oportunidade para produtores alternativos fora da China. Cerca de 19% dizem que o fator não é determinante na análise, 17% consideram o risco subestimado e apenas 11% avaliam que ele já está plenamente refletido nos valuations.
“Concentração significa vulnerabilidade. Quando um país domina mineração, refino ou componentes críticos, governos e empresas passam a pagar um prêmio por diversificação, segurança de fornecimento e produção em países aliados ou neutros”, explica Clara. “É nesse ponto que o Brasil ganha relevância.”
Onde o Brasil tem vantagem (e onde não tem)
Quando as gestoras cruzam tema e região, Brasil e América Latina lideram a preferência em minerais críticos e recursos, citados por mais de 80% das gestoras – mercados emergentes, como um todo, aparecem em segundo lugar, com cerca de 50%. Em energias renováveis, biocombustível e pré-sal, a região também lidera, com 70%. Em agronegócio e segurança alimentar, aparece com 60%.
A preferência por Brasil e América Latina cai, quando os assuntos são infraestrutura física e logística (apenas 35%), saúde e longevidade (25%) e tecnologia (cerca de 11%).
“Aqui dá para ver que hoje essas gestoras não veem o Brasil como líder em todos os temas”, pondera Clara. “A vantagem do Brasil para boa parte das assets está concentrada em recursos naturais, energia e ativos reais.”
Saúde aparece na pesquisa como tema de demanda estrutural forte, em torno de obesidade, diabetes e medicina de precisão, mas com tensão entre necessidade social e retorno financeiro, o que exige seletividade das gestoras especializadas.
Como investir em temas?
Para o investidor, a pesquisa aponta três filtros práticos:
- Primeiro, não confundir narrativa com retorno: demanda estrutural e ponto de entrada são decisões diferentes.
- Segundo, distinguir monitoramento de posição: relevância não é recomendação automática de investimento.
- Terceiro, a importância de adequar horizonte, região e veículo: fundos, ETFs e outros ativos dão acesso a diferentes partes de uma mesma tese.
“Talvez o principal recado dessa pesquisa não seja você escolher um tema vencedor, e sim aprender a construir a exposição com três grandes filtros: fundamento estrutural, preço de entrada e veículo adequado”, resume Clara. “A inteligência artificial continua no centro, mas a convicção migra para a infraestrutura. Energia ganha força onde existe gargalo. Minerais transformam geopolítica em oportunidade potencial. Saúde permanece relevante, mas exige seletividade. E o Brasil aparece com vantagem competitiva em recursos e ativos reais – não em todas as narrativas.”
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