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“Não gosto de ser chamada de Paulo Guedes de saia”, diz cotada para vice de Flávio

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
“Não gosto de ser chamada de Paulo Guedes de saia”, diz cotada para vice de Flávio

Cotada para vice do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e coordenadora da agenda econômica do senador, a administradora Daniella Marques diz não gostar do rótulo “Paulo Guedes de saia”, que tem sido citado nos bastidores da campanha.

Auxiliar do ex-ministro da Economia, ela defende o legado do governo Bolsonaro, mas evita se comprometer com conceitos como o DDD (Desvincular, Desindexar e Desobrigar o orçamento). Também se mostra mais cautelosa do que o seu ex-chefe ao indicar o caminho que uma eventual nova gestão da oposição deve percorrer para ajustar as contas públicas: uma redução de gastos da ordem de 1,5% do PIB.

Qual será a proposta fiscal de Flávio Bolsonaro?

O arcabouço fiscal virou uma peça de ficção. Temos conversado sobre alguma instância de governança, um conselho superior, para o qual traremos os outros Poderes para o debate orçamentário. Hoje, temos os três Poderes ordenando despesas e só um controlando, que é o Executivo. O Congresso e o Judiciário têm a própria pauta de expansão de gastos. A boa vontade técnica, muitas vezes, não tem respaldo político. Acho que vai ter que ter um pilar de diálogo e uma instância de governança, para os quais traremos uma corresponsabilidade. Vão ter que ser partícipes da solução, e não do problema.

E qual será a âncora fiscal: teto de gastos ou de dívida?

Não está definida. Estamos integrando ideias ainda. Mas necessariamente envolve algum mecanismo de controle da trajetória (de dívida), revisão dos gastos, principalmente privilégios e gastos tributários, reestruturação dos ativos da União, modernização e choque de gestão da estrutura administrativa do governo. Tem um estudo que foi feito que mostra que (uma redução de despesa) de 1,5% do PIB seria suficiente para retomar a confiança e uma parte do ajuste ser feita pela própria trajetória de ancoragem das expectativas.

As pessoas te chamam de “Paulo Guedes de saia” na campanha. Pretende retomar a ideia do ex-ministro da Economia de desvincular, desindexar e desobrigar o orçamento, que não avançou?

Não, não gosto (de ser chamada de Paulo Guedes de saia). Eu sou eu, sou Dani. Os meus talentos são complementares aos dele. O Paulo é um economista visionário, e eu sou uma financista que tinha uma vocação complementar à dele. Meu papel hoje é muito mais de execução do que de formulação, mas eu acho que tivemos uma pandemia para enfrentar, o que comprometeu parte da agenda de reformas. Mas, ainda assim, quando olho para trás, existe um legado inquestionável. Agora, o Lula está gastando como se estivesse enfrentando uma pandemia para tentar se reeleger. É dramático.

Onde estariam os primeiros cortes de gastos? Algum programa social?

De forma alguma. Os gastos com assistência social não chegam a um terço da despesa com juros hoje. O que precisa é um governo que tenha credibilidade e controle a trajetória da dívida. Estamos focados não só em prover assistência, mas em tirar as pessoas dessa situação permanente de pobreza. Hoje, as pessoas querem abrir o próprio negócio. Essas pessoas precisam de menos burocracia e mais facilidade. Sobre os cortes, onde seriam feitos, vou ter que dialogar com o Congresso. Há uma série de penduricalhos, de privilégios, gastos tributários, um desperdício gigantesco de recursos em ativos da União, 44 estatais.

Vender bens da União foi uma das dificuldades do governo Bolsonaro. O que pretendem fazer com esses ativos?

O aprendizado do curto período que tivemos para executar essa agenda é que precisa de um marco regulatório de governança. Fortalecer a independência dos técnicos das carreiras, dar competência específica para gestão desses ativos e só depois pensar em privatização. Hoje, os ativos da União viraram um grande guarda-chuva de empregos. Tem mais de 500 assentos em conselhos remunerados. Tem aparelhamento das agências regulatórias. Vai precisar de um choque de ordem, uma profissionalização. Os ativos da União estão completamente largados, abandonados e sucateados. Hoje, o estoque de dívida ativa da União passa de R$ 3 trilhões. Esse ativo é corrigido pela CDI, enquanto a União se financia acima da CDI. É uma gestão de ativos e passivos muito ruim. Só aí existe uma monetização possível, de forma conservadora, de R$ 150 bilhões a R$ 250 bilhões (com uma securitização de dívida ativa).

Com qual finalidade esse dinheiro seria utilizado?

Reduzir dívida. Se a União está superendividada e tem uma série de ativos, qualquer empresa que vai refazer seu balanço reduz alavancagem vendendo ativos e pagando dívida.

Como lidar com as estatais?

Defendo uma modernização de gestão. Privatização ou não é consequência. A lógica não é necessariamente privatizar tudo. É fortalecer gestão e depois decidir quais ativos eventualmente vão para o mercado. O melhor exemplo são os Correios: é um monopólio isento de imposto e consegue dar prejuízo bilionário. Isso é um descaso completo de gestão. Não sei se é “privatizável” do jeito que está, mas certamente você olha para a eficiência do setor privado em entregas e vê que tomou grande parte da fatia de mercado.

Qual será o papel da Caixa, que a senhora presidiu?

Nosso plano tem três pilares. Primeiro, arrumar a casa. Segundo, produtividade, investimento, competitividade e segurança jurídica. Terceiro, mobilidade social. E aí a Caixa vai apoiar o pequeno empreendedor. Hoje, ela é um banco operador de política pública. O que a gente quer é usar isso para transformar a Caixa num motor da prosperidade. Levar crédito, orientação e inclusão financeira.

Flávio defendeu que, se houver tarifaço, seja implementado depois das eleições. A senhora concorda com ele?

Minha visão é que quem deveria estar fazendo essa defesa (de não ter tarifaço) é o governo Lula. O que existe (da parte do Flávio) é uma construção de ponte de diálogo para cobrir uma deficiência e uma negligência desse governo, de não fazer o que deveria estar fazendo.

Na hipótese de ser convidada para ser vice, a senhora aceitaria?

É o Flávio que decide. Meu espírito é contribuir para o projeto sob a liderança dele. O Flávio citou meu nome publicamente. Não estou preocupada com cargo, com posição.

Se o seu partido, o Republicanos, ficar neutro na eleição presidencial, a senhora continuará na campanha de Flávio?

Sem dúvida. O fato de eu ser filiada não me impede de exercer uma função técnica. Quando eu me alistei na campanha, eu me dispus a servir ao projeto em que acredito, onde o Flávio entender que eu ajudo mais.

A senhora disse que a crise entre Flávio e Michelle já é “página virada”. Para quem?

Quando eu disse “página virada”, são os números da pesquisa. O que a pesquisa diz é que a página está virada para o Brasil. Temos um objetivo muito maior que é resgatar o Brasil das mãos do PT, objetivo que a própria Michelle compartilha. Estamos na mesma linha.

A senhora trabalhou com Paulo Guedes, que teve divergências com Rogério Marinho no governo Bolsonaro. Como é essa relação hoje?

Tenho uma relação extraordinária com ele (Marinho), muito respeitosa. Trabalhamos intensamente juntos na reforma da Previdência. Ninguém ganha jogo sozinho e acho que o Rogério é uma liderança extraordinária.

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