A audiência pública promovida pelo governo dos Estados Unidos para discutir a imposição de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras acontece nesta segunda-feira (6) e coloca frente à frente a disputa eleitoral à Presidência de República no Brasil.
Enquanto o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não participar da discussão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, atua para influenciar o debate diretamente em Washington.
O encontro, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), é a principal etapa do processo antes da decisão definitiva da administração Donald Trump sobre a aplicação das tarifas. Embora tenha caráter técnico, a audiência ganhou dimensão política no Brasil e passou a integrar a disputa eleitoral entre governo e oposição.
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O Planalto optou por não enviar representantes à sessão. A avaliação dentro do governo é que participar do procedimento significaria reconhecer a legitimidade de uma investigação considerada politicamente motivada. A estratégia tem sido concentrar as negociações pelos canais diplomáticos tradicionais, conduzidos pelo Itamaraty.
Na direção oposta, Flávio Bolsonaro buscou ocupar esse espaço. Nas últimas semanas, o senador enviou uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, argumentando que a adoção das tarifas acabaria fortalecendo Lula politicamente, ao permitir que o governo atribuísse aos Estados Unidos eventual deterioração da atividade econômica brasileira.
Na resposta, Rubio agradeceu o contato, reafirmou que a audiência desta terça-feira é o canal institucional adequado para discutir o tema e reiterou o interesse do governo americano em aprofundar a cooperação com futuras lideranças brasileiras. O secretário, no entanto, não indicou qualquer disposição para rever a política comercial adotada pela Casa Branca.
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Narrativas diferentes
A audiência evidencia duas leituras completamente distintas sobre como enfrentar o impasse. Para o governo brasileiro, o foco permanece nas negociações diplomáticas e na tentativa de evitar que o caso seja tratado como uma disputa eleitoral.
Nos bastidores, integrantes do Itamaraty e do Palácio do Planalto criticaram a atuação de parlamentares da oposição junto às autoridades americanas, classificando a iniciativa como prejudicial aos interesses nacionais. Auxiliares de Lula chegaram a chamá-los de “traidores da pátria”.
Ao mesmo tempo, interlocutores do governo reconhecem reservadamente que a margem para reverter integralmente a proposta é pequena. A investigação conduzida pelo USTR já passou pelas etapas técnicas mais relevantes e a percepção interna é que a decisão política da administração Trump está praticamente consolidada.
Esse diagnóstico levou integrantes do governo a concentrar esforços em reduzir eventuais danos comerciais e preparar uma resposta diplomática caso a sobretaxa seja confirmada.
Efeitos depois da eleição
Apesar da tensão política, a expectativa entre economistas é que os efeitos da medida não apareçam imediatamente. Mesmo que a tarifa seja confirmada após a audiência, sua implementação ainda depende dos trâmites administrativos americanos.
Empresas brasileiras também tendem a renegociar contratos, buscar novos mercados e reorganizar cadeias de exportação antes que os impactos atinjam produção, emprego e atividade econômica.
Na prática, isso significa que eventuais efeitos mais relevantes sobre a economia brasileira devem aparecer apenas nos meses seguintes, quando o processo eleitoral já estiver encerrado.
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Esse fator ajuda a explicar o comportamento dos dois lados. Para Lula, uma eventual confirmação das tarifas pode reforçar o discurso de defesa da soberania nacional e de enfrentamento às pressões externas. Para Flávio Bolsonaro, o desafio é evitar que a oposição seja responsabilizada politicamente por uma medida anunciada pela administração Trump.
O que está em jogo
A audiência desta terça-feira representa a última oportunidade para empresas, entidades e interessados apresentarem manifestações antes da decisão final do governo americano.
A investigação comercial aberta pelos Estados Unidos concluiu preliminarmente que determinadas políticas brasileiras justificariam a aplicação de tarifas de 25% sobre parte das importações provenientes do Brasil.
Alguns produtos considerados estratégicos ficaram de fora da proposta inicial, mas setores exportadores acompanham com preocupação o desfecho do processo.
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